PRIMEIRA PÁGINA | FOTOGRAFIA | SÉRIES | TWITTER | FACEBOOK
Destaque Quitandas e a volta aos tempos românticos Thiago Schwartz


Blog •
Mostrando postagens com marcador Eduardo Daniel. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Eduardo Daniel. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, maio 05, 2011

Obra Faraônica

Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel


A todo vapor.
Foto: ARQUIVO/AndersonPaes

Quando dizem que a duplicação da BR-101 no trecho Sul é uma “obra faraônica” devem estar querendo comparar com o tempo em que as famosas construções do Egito levaram pra ficarem prontas. Só pode...

Pirâmide de Quéops: 30 anos
Pirâmide de Miquerinos: 27 anos
Pirâmide de Quéfren: 25 anos

Ah, mas gaiato como só ele sabe ser, meu tio Bartolomeu desafia: “quero ver a BR durar o tempo que já duram as pirâmides... sem buracos”.

segunda-feira, março 28, 2011

Bienvenidos, hermanos

Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

É lugar entre os empresários a reclamação pela falta de mão-de-obra para os serviços mais simples. Culpam sobre tudo a política paternalista exercida nos oito anos de Governo Lula e enxergam mudanças nos anos vindouros de sua sucessora.

Esquecem, no entanto que a dificuldade de encontrar uma mão-de-obra que se submeta a condições de trabalho degradante e a salários incompatíveis com o nível de vida que o país possa oferecer, pode significar amadurecimento e crescimento econômico e não uma tendência dos menos favorecidos financeiramente ao ócio.

Este crescimento deve levar o Brasil a uma situação curiosa, já vivida pela Europa (que enviou emigrantes para os novos continentes no final do século 19): inverter a balança exportação/importação de mão-de-obra.

Não espero por muito tempo para ver circulando entre nós, hermanos oriundos de países latinos mais pobres. E é aí que o Brasil pode ensinar o mundo mais uma vez, ao permitir o convívio com harmonia, liberdade e igualdade entre todos.

segunda-feira, janeiro 03, 2011

A mijadinha

Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Roberto deve ter realmente perdido as estribeiras. Ou, último dos casos, teve esgotada suas curtas doses de paciência. Cigarro ele queria, ele tinha; cerveja ele queria, ele tinha; mulheres passando à sua vista, idem.

Virada do ano. Roberto, zelador profissional há mais de duas décadas, fazia sua estreia no litoral, à beira-mar. Era o vidão que pediu a Deus, não fosse um ypsilone: o prédio ao qual Roberto se fazia encarregado de zelar era um dos alvos prediletos dos incontinentes que, sem encontrar alternativa mais educada, aliviavam suas necessidades em qualquer canto.

Fazendo olhos de mercador, Roberto deixava a vontade uns apertados que encontravam nos ângulos escuros do prédio conforto para seus “problemas”.

Assim, o Ano-Novo chegou e passou. Cinco ou seis necessitados, maiores e mais fortes que Roberto, deram sua contribuição urinaria a ferrugem provocada pela maresia.

Mas teve um pobre diabo sem a mesma sorte que seus antecessores. Ele preparou, apontou e quando mandou bronca, despertou a ira de Roberto.

A última tragada no cigarro barato. A xepa ao chão. Uma dúzia de passos e as mãos no colarinho largo no pescoço magro do coitado. O alívio cortado ao meio. No susto. Na marra.

Impropérios eram intercalados por sentimentalismos inesperados:

- Seu vagabundo! Na tua casa tu não mija assim! Não tens a sensibilidade de perceber que aqui mora gente?

E a lição seguiu por longos minutos. O pobre coitado humilhado só não prometeu pela quinta geração de antepassados de sua família que nunca mais se aliviaria na rua porque não sabia os nomes dos avôs dos seus avôs.

Dava pena de ver e de ouvir. O sujeito magrinho, miúdo, tímido. Uma platéia sedenta à volta. Uma sacudida derradeira capaz de deslocar a caixa craniana do apurado e um definitivo e desmoralizante chute na bunda encerraram o espetáculo.

O diabo coitado seguiu.

Roberto voltou ao posto. Sentou-se em sua cadeira de praia. Acendeu outro cigarro, abriu outra latinha de cerveja e exultante contou para os recém-chegados o que fez.

As horas, como não deixam jamais de ser, passaram. Roberto dormiu. O pobre diabo coitado não. Antes de ir para a casa resolveu passar pelo prédio de Roberto. Voltou para aquele mesmo canto e aliviou-se. Aproveitou que a rua estava deserta e de uma vez largou o número um e o número dois.

Roberto briga até hoje com seus botões quando eles lhe sugerem que quem fez aquela vingança foi aquele diabo pobre coitado.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Senna


Cenas de 2010 • Em novembro, o que descontou a monotonia do Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1 deste ano foi uma homenagem a um dos maiores pilotos da história do automobilismo mundial.

Bruno Senna, sobrinho do tri-campeão Ayrton Senna, largou na última colocação. Meu lugar nas arquibancadas de Interlagos era em direção ao dele.

Solícito, logo que encostou sua Hispania, Bruno foi até o alambrado saudar a torcida que o recebeu com um carinho até inesperado. Claramente agradecido, Bruno fez gestos efusivos de reciprocidade aos torcedores.

Afastou-se. Estava concedendo entrevista a uma emissora de rádio quando a torcida começou com o grito de “olê, olê, olê, olá, Senna, Senna”.

Bruno curvou-se para os torcedores. Abriu os braços. Bateu no peito. Ficou profundamente emocionado. Não bastasse, levou aquele grupo de privilegiados torcedores ao êxtase quando buscou um de seus mecânicos.

O piloto brasileiro caminhou abraçado com ele até o alambrado mais uma vez. A torcida sem parar com os gritos de “olê, olê, olê, olá, Senna, Senna”. Bruno abriu o macacão do mecânico e mostrou uma camiseta alusiva aos 50 anos que Ayrton Senna completaria em 2010.

Eduardo Daniel
www.twitter.com/eduardosdaniel

sexta-feira, dezembro 03, 2010

Guerra de festim

Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

A resposta do Estado para os ataques aos veículos no Rio de Janeiro foi tão rápida que é impossível para um cético de carteirinha não fincar um pé atrás. A expulsão dos bandidos da Vila Cruzeiro e a tomada pelas forças que englobaram as polícias, a Marinha e o Exército, pareceram tão fáceis e indolores, que tenho medo de ver todo essa maquilagem desmanchar junto com a água após as primeiras chuvas de março.

É estranho todo aquele arsenal que volta e meia era encontrado escondido dentro de algum barraco. A impressão que tínhamos era a de que os traficantes estavam preparados para enfrentar o Exército em uma guerra civil. E na hora H, o que fizeram os bandidos? Deram no pé deixando para trás sandálias Havaianas arrebentadas pelo caminho.

Fugiram sem o menor pudor e reação. Nem um tirinho sequer. Nem um lança granadas, nem uma bazuca contra um blindado daqueles da Marinha. Nada. Guerra estranha. Fajuta. De um mocinho poderoso demais e um bandido complacente em demasia.

Até a Rede Globo, anda num namorico diabético com o governo e a polícia que dá gosto de ver. Uma doçura só!

Se o vilão dessa história toda era tão malvado e estava armado até as arcadas dentárias como sempre nos mostravam, por que descer ao asfalto para colocar fogo em ônibus, carros e caminhões, depois é claro, de pedir a gentileza para passageiros e motoristas se retirarem das conduções?

O que queriam os bandidos com esse show incendiário gratuito? Lembrar Nero que não era. Para o Estado, foi a senha que faltava para justificar tamanha demonstração de força perante um mundo incrédulo quanto a nossa capacidade de sediar uma Copa e uma Olimpíadas.

Fica sem resposta ainda a facilidade da fuga da Vila Cruzeiro para o Complexo do Alemão. Se a polícia não estava autorizada a mandar chumbo naquele momento, quando vai estar?
E o Estado vai ter culhões para manter uma paz superficial como esta fabricada às pressas no Rio? O Estado vai plantar agora no presente sementes para um futuro diferente deste que as gerações passadas nos deram?

Tudo isto, só o tempo dirá. Enquanto isto, sigo acreditando que boa parte do arsenal que a polícia alega que estavam em mãos dos traficantes, não passa de bravata para valorizar o trabalho e justificar a incompetência de tanto tempo levando pau e aceitando acordo obscuro por detrás dos panos.

Ah, e antes que o tempo nos dê as respostas, abra a sua cervejinha, ligue a TV e aguarde. Aposto que logo começa o jogo de vaidade entre os poderes envolvidos nesta guerra de festim para ver quem manda mais.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Ouvindo atrás das portas

Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Quem aqui não alcovitou segredos, que dispare a primeira bomba atômica! Tanta histeria assim só porque documentos vazados pelo Wikileaks trouxeram à tona verdades que poucos teriam coragem de dizer em público?

Curioso é que quando ultrapassados ditadores gagás do século 21 falam suas bobagens, ninguém os leva a sério.

Seria o momento ideal para os citados olharem para os próprios rabos, tentarem reparar condutas e lembrarem sempre que ao tentar consertar uma gafe, invariavelmente, a emenda sai pior que o soneto.

No mais, que o ser humano sossegue o facho e deixe o fim do mundo para o final de 2012 mesmo.

sábado, outubro 02, 2010

"Brasílha"

Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Se mortas fossem (toc, toc, toc), minhas professoras de geografia dos tempos em que meu habitat era o fundão da sala de aula, entortariam os esqueletos em seus jazigos perpétuos com a bobagem que direi agora:

— Uma ilha não é somente um pedaço de terra cercado de água por todos os lados. Uma ilha pode ser também um pedaço de terra cercado de terra por todos os lados.

E não vamos nós, zarparmos rumo ao estrangeiro, em busca de paisagens inóspitas para recriarmos absurda afirmação. No Planalto Central, temos um belo exemplar de uma ilha cercada de terra por todos os lados: Brasília.

A ditadura dos anos 60, 70 e início dos 80 talvez não durasse tanto, ou, quiçá, o malfadado golpe de "primeiro de abril" de 1964 tivesse fracassado logo após o primeiro choro provocado pelo tapinha do “obstetra” em sua região glútea.



E de lá para cá, quantos presidentes (sejam eles azuis, vermelhos ou verdes) já não se safaram de problemas semelhantes como o que aconteceu agora no Equador e há algum tempo na Venezuela e outros vizinhos latinos, desde que Juscelino Kubitschek resolveu empreender firma ao projeto de transferir a capital federal do Rio de Janeiro para Brasília?

Isolaram os donos do poder em sua redoma distante dos desaforos da turba ignara. Que efeitos reais contra os tiranos fardados de verde-oliva aqueles corre-corre nos centros de São Paulo e do Rio provocavam nos generais entrincheirados no Distrito Federal, separados por uma trincheira de tanques, censores e um enorme deserto no papel da “terra de ninguém”?

E não havia – como não há – baioneta de milico ou flores de românticos, que superassem tamanha distância entre a trincheira do oprimido e a do manda-chuva com seus tentáculos de ventríloquo.

Em nosso período de infante democracia, os deuses só descem aos reles mortais de quatro em quatro anos. Depois, enclausuram-se nos camarotes das arenas para deliciarem-se com o circo pegando fogo.

Ou o Brasil realmente vê à frente a promessa de expansão rumo ao Oeste desde os tempos da construção da “ilha”, ou continuaremos dependendo da frágil revolta de quem é sustentado justamente por este poder que nos expia de longe, muito longe...

sábado, setembro 11, 2010

Cefaléia

Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Arrastar os chinelos sem compromisso pela casa
Respirar fundo
Abrir a janela numa manhã ensolarada
Acordar mais cedo
Adestrar o cão com paciência
A vida se resume a uma sala fechada
A ver a dor rumar a outra querência

Um verso de um poeminha do Quintana
Uma quinta ou outro dia qualquer da semana
O limo crescendo na calçada
A ferrugem devagar até que não reste mais nada

A rima pobre e desgraçada
Como a sorte que larga o animal morto à beira da estrada
O andarilho que nas costas carrega sua casa
E a morte alada que se assanha batendo suas asas

Geração pós-geração até ver a casa abandonada
Dos muitos até restarem quase nada

quinta-feira, agosto 26, 2010

Magrela congelada

©EduardoDaniel
Autor: Eduardo Daniel
Local: Paris, França

terça-feira, agosto 24, 2010

Votar pra quê?

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Não bastasse os resquícios nazifacista da Voz do Brasil de segunda a sexta-feira às sete horas da noite em todas as rádios do Brasil, temos que aturar de dois em dois anos a propaganda eleitoral gratuita.

Gratuita uma pinóia! Se tem dinheiro pra contratar marqueteiro, que pague pelo espaço. Se não tem, que nem funde o partido. Ou me explique como alguém que não pode pagar uma mísera propaganda quer governar um país?

É um assalto aos cofres das emissoras de TV e rádio do Brasil estes dois espaços diários em horários nobres dado aos partidos que visam apenas se locupletar do erário durante os próximos anos.

A intenção da gratuidade do espaço destinado aos partidos é nobre, não fosse a enorme diferença do investimento de uns e de outros, além das brechas que a luta por segundos a mais de exibição circense deixa para o surgimento dos partidos nanicos que nada mais servem do que se prestarem ao serviço sujo e relés de capacho dos maiores.

Existisse equilíbrio de forças nas propagandas, não teríamos candidatos comendo palavras para dizer tudo o que querem dizer e outros com tempo de sobra para mostrar musiquinhas grudentas feitas por encomenda a custo de muito dinheiro.

Sem contar no tremendo desperdício de tempo com tanta bobagem e mentiras deslavadas. Ou tem gente que ainda acredita em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e Mula Sem Cabeça?

Todo candidato tem a solução para todos os problemas. Não sei então porque sofremos com tantas mazelas. Todos eles tocam em saúde, educação, segurança e geração de emprego. Mas seguimos morrendo em corredores de hospitais públicos, analfabetos, assaltados e de pires nas mãos em busca dos benefícios sociais, geração após geração, presidente após presidente, partido após partido, idelogia após ideologia...

E o mesmo lenga-lenga acontece nos debates. As perguntas são sempre direcionadas pensando na réplica e nada mais. Duvido que uns prestem atenção nas respostas dos outros. E como o discurso é sempre ensaiadinho, não?

Tudo dá tão certo, tudo é tão fácil. Todos são tão iguais...

Sei que política é importante (o problema são os políticos) e de toda a falácia em cima do tema de que quem não se interessa é governado por quem se interessa. Eu me interesso, mas mesmo assim sou governado por gente da qual eu não ligo a mínima. Desprezo e ignoro veementemente votando seguindo um conselho do mestre Raulzito:

– Vote nulo, não alimente os parasitas!

terça-feira, agosto 03, 2010

As viúvas do Senna

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Tornou-se lugar comum para os fãs de automobilismo no Brasil, dizer que depois da morte do tricampeão mundial Ayrton Senna, a Fórmula 1 nunca mais foi a mesma. Uns dizem até que depois daquele 1° de maio de 1994 nunca mais acordaram cedo aos domingos para acompanhar uma corridazinha que fosse.

Puro jogo de cena. Pode apostar que quem nunca assistiu a uma corrida de Fórmula 1 depois da morte de Senna, também nunca assistiu uma prova antes de seu falecimento.

Também é evidente que a Fórmula 1 depois da morte do Senna mudou. Para pior, ou para melhor, é questão de opinião, mas o fato é que, a categoria mais famosa do automobilismo para nós brasileiros, mudaria com ou sem Ayrton Senna.

Lamentar, após cada escândalo de ética da Fórmula 1, a morte de Senna, ligando a sua pessoa a lisura que o esporte teria hoje, não faz o menor sentido, uma vez que, para Senna, o que importava mesmo era a vitória, custasse o que poderia custar.

Outro senão cabe ao fato de que o brasileiro, infelizmente e historicamente, não é tão ético quanto parece só porque joga tudo o que tem em mãos no ventilador a cada escândalo na Fórmula 1.

Se 90% dos brasileiros queimariam o Massa numa fogueira se assim pudessem, quase 100% também construiria uma estátua para Alonso, se o espanhol desse a preferência ao nosso compatriota.

quarta-feira, julho 28, 2010

A morte do Inverno

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Os velhos e as crianças sofrem nesta batalha entre a Primavera que dá suas caras e o Inverno que teima em ficar. Bronquite, rinite, sinusite, asma, gripe, resfriado, faringite, enfisema pulmonar, tuberculose e pneumonia são as principais complicações respiratórias que afligem os mais frágeis.

“Calor no sol e gelado na sombra”, é frase que passa a fazer parte dos diálogos breves e automáticos entre conhecidos e desconhecidos.

O sol pouco a pouco começa a demorar-se mais esparramando-se no horizonte no crepúsculo de cada dia. Os canarinhos e pardais preparam lentamente seus ninhos à espera das novas crias.

Os sorrisos tornam-se menos armados.

Alguns se arriscam a fazer poesia.

“Afinal, se nuvens rasgam os céus dia-a-dia, por que diabos não tenho a liberdade que mereceria?”.

Sair do banho e vestir primeiro as calças, sem congelar, são outras pequenas delícias que o calor nos devolve lentamente.

É como se o gelo de dentro de cada um derretesse.

sexta-feira, julho 02, 2010

Elas podem chorar

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Não tem quem sofra mais com uma eliminação da Seleção Brasileira de uma Copa do Mundo que as crianças. São delas as fotos mais marcantes e as lágrimas mais sinceras. Para elas pouco ou nada importam as táticas, os antecedentes e as consequências políticas de decisões na Seleção.

A emblemática capa do Jornal da Tarde de 1982 diz tudo.



Se o fotógrafo quer encontrar uma imagem para estampar uma derrota, ele vai mirar sua lente para uma criança inconsolável. Para ela, com seus cinco, seis, oito, dez anos, quatro representam quase uma eternidade. A vida de quem tem dez é muito diferente da de quem tem 14. Enquanto a vida de quem tem 30, pouco muda em relação a quem tem 34.

Privilegiados somos nós que “recém” conquistamos duas Copas: 1994 e 2002. E a geração que esperou do tri em 70 até o tetra para ver a seleção novamente campeã? Quantas crianças não viram passar por seus olhos infantes a chance de comemorar um título mundial?

É por isso que elas choram, incoscientemente deve ser por isso.

domingo, junho 13, 2010

Mobilização de araque

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

O brasileiro é engraçado. Se você costuma ouvir rádio AM, principalmente na parte da manhã, em cidades do interior, já percebeu a quantidade de gente reclamando de benfeitorias da prefeitura. É buraco na rua, faixa de pedestre com a pintura gasta, terreno baldio abandonado, entre outras.

Agora, é chegar a Copa do Mundo que muitos daqueles que esperam pela mão acolhedora do poder público colocam a mão na massa. Basta passar a vista nos jornais ou mesmo abrir os olhos para o seu entorno para perceber a quantidade de ruas decoradas, paralelepípedos pintados e bandeirinhas penduradas com temas brasileiros.

Por que, afinal de contas, no dia-a-dia, a nossa rua é a rua do prefeito? Por que esta mobilização só acontece em razões festivas, tais como em Copa do Mundo e Carnaval?

Charles de Gaulle disse que os franceses levariam apenas cinco minutos para limpar Paris: bastaria, para isso, que cada um limpasse a frente de sua casa. Nada custaria aos brasileiros uma mobilização do tipo desta que ocorre de quatro em quatro anos na hora de melhorias em sua própria rua.

Outro momento em que o brasileiro se mobiliza é em eleições. No entanto, a mobilização neste caso é um tanto quanto diferente. Se nas Copas do Mundo e Carnavais, a mobilização não resulta de nenhum interesse pessoal direto que não a mera diversão, nas eleições, a grande maioria dos envolvidos esperam um retorno. Ou alguém ainda acredita que quase todos aqueles que enchem seus carros de adesivos e as casas de placas dos candidatos não receberam ou esperam receber algo em troca? Uma vírgula!

E nos jogos do Brasil que acontecerem às 15h30? Acho justo que liberem os torcedores para assistirem as partidas. Mas e se fosse ao contrário, se o empresário pedisse duas horas extras sem gratificações como um apoio extra à empresa? E se fosse para voltarem ao trabalho depois da partida para cumprirem aquelas duas horas folgadas?

- Ah, que isso, e a festa se o Brasil vencer? – esbravejariam os vagabundos!

quarta-feira, junho 09, 2010

Próprio rabo

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Acostumados a Copas do Mundo no continente europeu, nos espantam os problemas escancarados na África do Sul às vésperas do décimo nono campeonato mundial de futebol.

Nós brasileiros demonstramos profunda preocupação quanto ao sucesso deste mundial no que se diz respeito à segurança, transporte e organização.

Quando lemos notícias da segregação sul africana e dos bairros de extrema pobreza, nos esquecemos de nossas mazelas expostas em favelas e periferias de todas as sedes da Copa de 2014, a ser realizada no Brasil.

A África do Sul, ao contrário dos países europeus, não cultiva a utilização dos trens. É previsível então que os aeroportos se tornem verdadeiros purgatórios para os turistas e jornalistas presentes na Copa.

Fitamos este cenário que se demonstra caótico com distanciamento incorreto, uma vez que, em um país muitas vezes maior que a África do Sul, temos estradas péssimas e as ferrovias para passageiros não ligam mais do que meros quilômetros em estradas de ferro históricas e interioranas. Além de termos problemas crônicos em nossos aeroportos.

Ouvimos falar de violência, roubos, assaltos e mortes na África do Sul, como se a próxima Copa do Mundo fosse ser realizada na Suiça e não aqui, no Brasil. Como se nossas capitais fossem exemplares Vienas, Oslos e Bernas.

Falamos do racismo na África do Sul como quem não convive com o preconceito e a desigualdade diariamente à porta. Nos indignamos com Soweto e esquecemos das Rocinhas, Mangueiras, Morros do Alemão e Cidades de Deus espalhados por todo o Brasil.

Nossa imprensa nos informa dos desvios de dinheiro e atrasos nas obras da Copa na África do Sul e parecemos esquecer que em nossa Copa este será mais um recorde a ser batido facilmente no país da falcatrua e do jogo sujo do rabo preso.

Se nós olhamos para esta Copa com desconfiança, imagino como os europeus a analisam. E, já aguardo temeroso, pela forma com a qual irão tratar de assuntos como segurança, transporte e organização no país do Carnaval e do samba em 2014...

terça-feira, março 23, 2010

Muita lata para pouco níquel

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Em 2008, um catador de latinhas de alumínio, precisava juntar 70 unidades para arrecadar algo em torno de R$ 4. Hoje, com 90 latas, ele não lucrará mais do que R$ 2.

À desvalorização do material por eles recolhidos, soma-se a concorrência dos moradores de rua, dos proprietários dos estabelecimentos que guardam as latas para obterem um lucro – embora pequeno – extra.

Outro ponto culminante é o fato de que as fabricantes das latas de alumínio reduziram o peso do material diminuindo a espessura da lâmina de alumínio para aumentar a produção.

Alguns catadores chegam a andar 21 quilômetros por dia e conseguem voltar para a casa com apenas R$ 20 no bolso. Um saco cheio de latinhas pode render até R$ 3 e muitos deles preferem guardar para vender um volume maior.

Enquanto o material não perde ainda mais o valor de mercado e as latinhas representarem uma fonte de sobrevivência para muitas famílias, as ruas brasileiras seguirão livres do lixo produzido após grandes eventos em locais públicos.

Além do temor social que a desvalorização das latinhas de alumínio pode trazer, o caos ambiental e higiênico nas grandes cidades também pode se tornar lastimável.

Seguindo a queda apresentada nos primeiros parágrafos, em dois anos poucos se aventurarão neste árduo ofício.

_____
Com dados do Diário Gaúcho de 09/03/2010

quinta-feira, março 04, 2010

Para matar o tempo

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Certamente este ano, assim como os últimos, passara rápido demais para a nossa superficial compreensão. E não é porque em 2010 teremos Copa do Mundo e Eleições, mas é porque só ficamos sem fazer nada quando estamos dormindo.

Os apetrechos tecnológicos fazem parte de um arsenal que nos serve ao bel prazer de ver o tempo passar mais depressa do que a natureza deveria conceber.

Não faz muito tempo, a TV “fechava” pouco depois da meia-noite. Hoje, os canais por assinatura estão aí com transmissões específicas 24 horas por dia, com conteúdo, muitas vezes, ao vivo e atulizado frequentemente.

As redes sociais virtuais permitem que tomemos conhecimento de notícias das mais relevantes às mais tolas e individuais.

Mesmo os aparelhos celulares nos são úteis nos momentos de espera, com acesso a internet ou como plataforma para joguinhos.

Definitivamente poucos se dão ao exercício da contemplação. Por vezes sinto inveja de um cachorro, quando o vejo deitado à sombra de uma árvore, vendo a vida passar para ele, como passou para seus ancestrais: minuto após minuto, com calma, tudo à seu tempo.

Nossa ansiedade de consumo nos encaminha para um futuro de cada vez menos reflexão. Isso porque, refletir requer tempo ocioso e paciência.

Aposto que você já ouviu – ou já falou – que já estamos em março e este ano já está “voando”. E a cada dia essa sensação aumenta. É possível, porém, que no tempo de nossos avós ou até mesmo no de nossos pais, os dias, as semanas, os meses e os anos parecessem mais longos. E por que?

Porque existia a contemplação. Existia a conversa. As casas, por exemplo, possuiam muitos sofás e poltronas, além de enormes sacadas. Sem energia elétrica, aparelho televisor e demais avanços que hoje são corriqueiros, o tempo escorria num fio fino. Hoje, o tempo avança em corredeiras, indomado.

Desde os primeiros momentos da manhã até a hora de dormir, estamos em alguma atividade. Tomamos café recebendo informação, almoçamos recebendo informação, dirigimos da mesma forma. E quando não temos o que fazer, procuramos algo para “matar” o tempo.

Se isto é bom ou ruim, só o tempo, com toda sua pressa atual, dirá.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Será que peguei Gripe Equina?

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Publicado em 28/09/2009

Febre. Uma dor no corpo desgraçada e um tose seca dos diabos. Numa observação superficial qualquer um diria que eu posso estar com a famigerada já démodé Gripe A, a Gripe Suína. Mas, algo que aconteceu comigo no final de semana retrasado, coloca uma pulga atrás de cada orelha de minha avantajada cabeça: posso ser o primeiro caso de Gripe Equina registrado no mundo!

Contarei para vocês do mesmo modo que contei ao médico que procurei neste sábado, procurando cada palavra como um míope tateando o chão a procura de seus óculos: devagar, com esmero, pau-sa-da-men-te.

Saíamos em três cavalos. Vá bem, podem fazer piadas, dois cavalos e uma égua, a que, por sinal, eu montei. Como estava calor, fui de chinelos. Já nos primeiros minutos da marcha de minha montaria, meus dois calcanhares deram sinais de que rapidamente perderiam nacos de pele com o atrito direto com a barrigueira.

Antes de prosseguir a história, é de suma importância lembrar que essa mesma égua havia se recuperado de uma forte gripe dias antes.

Pois bem. Não sei se já viram um cavalo após alguns minutos de cavalgada. Se não, já devem ao menos ter ouvido algo do tipo, “o fulano ta suando que é um cavalo”. O equino sua às bicas e o suor da dita égua ao “lavar” meus ferimentos nos pés os fazia arder.

Dois dias depois, na segunda-feira, comecei com a tosse. Na quarta já sentia febre e na quinta, como todo virtual-hipocondríaco, caçava no Google alguma informação sobre a gripe nos cavalos e mutações para os seres-humanos.

A informação que eu procurava, mas não gostaria de encontrar, está no diário popular Extra, do Rio de Janeiro, no dia 21 de agosto, com o título: "vem aí a Gripe Equina?".

Para o chefe do Departamento de Pediatria da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Marcos Lago, é possível que apareçam, nos próximos anos, casos de uma gripe equina.

O médico ainda explica que existem três tipos de vírus dentro da classificação influenza: A, B e C. Dos três, o do tipo A é o único que atinge os patos, os porcos, os cavalos e os humanos. Foram as variações do vírus A que causaram a Gripe Aviária (H5N1) e a Suína (H1N1).

A forma como o vírus consegue sofrer estas mutações ainda é desconhecida da medicina. Na entrevista, doutor Marcos explica que é ao acaso.

O doutor ainda lista o cavalo como o próximo animal a nos passar esta enfermidade e pondera, dando um pouco de alento aos que, ao menos, não tiveram uma experiência como esta que mencionei:

— Essa relação se dá pela proximidade. Pode acontecer, mas o contato do homem com o cavalo é menos constante e incisivo do que com aves e porcos.

Se a teoria do amigo Anderson Paes em "Crise econômica e novas doenças" de que a cada período de crise se sobressai uma doença, a Gripe Equina bem pode estar guardada nas mangas ou na cartola de algum líder mundial para desviar o foco da próxima quebradeira global.

E, se eu estiver com essa novíssima gripe, que a CIA não fique sabendo, pois a pegando antes do tempo, estrago os planos para o novo aperto universal.

Sem mais delírios, deixo o computador e vou direto ao termômetro e ao anti-térmico. Caso não volte a escrever, vocês já sabem...

terça-feira, dezembro 08, 2009

O que será de Dilma

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva bate recordes de aprovação (83%), a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, pré-candidata governista à sucessão presidencial, é a mais rejeitada entre os eleitores. Na pesquisa divulgada pelo CNI/Ibope, 42% dos entrevistados disseram que não votariam em Dilma de “jeito nenhum”.

Mesmo assim, o PT será obrigado a jogar todas as suas fichas na única carta que lhes restou nas mãos após os escândalos do “mensalão” que derrubaram os Josés Dirceu e Genuíno ainda no primeiro mandato de Lula: a “dama de copas Dilma Rousseff”.

Por toda uma geração se ouviu falar pejorativamente que “petista votaria até em um cachorro se este fosse candidato pelo PT”. Agora, passados um par de anos e dois mandatos do pernambucano, a metáfora bem pode ser invertida:

— Será que Lula em outro partido levaria seus votos do PT?

Apesar do “filho do Brasil” intitular Dilma a “mãe do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento)” e não desgrudar mais da economista mineira por onde quer que ande, Dilma não cai no gosto do povo.

O brasileiro, de modo geral, mostra que gosta de se ver no espelho. O tipo intelectual não lhe cai no agrado. Quer alguém de carne e osso. Alguém que goste de futebol, de música popular e, porque não, de uma cachacinha “pra abrir o apetite”.

Dilma é o oposto da figura de Lula em muitos aspectos. É dura, tem um discurso aguerrido, assim como o de Lula nos áureos tempos de ABC. Mas Dilma nasceu em berço de ouro, teve educação privilegiada e lutou contra a ditadura por um mundo mais justo, enquanto que os oprimidos pelo qual lutavam Dilma e seus companheiros, muitas vezes não entendiam aquela luta e os desprezavam, os deduravam e os temiam.

Apegando-se ainda a pesquisa, vale ressaltar que apenas 32% dos entrevistados disseram conhecer Dilma. Coincidentemente, os que alegam votos nulos, brancos e os que não responderam, também somam 32%. José Serra, pré-candidato tucano tem 38% e Dilma segue empatada com Ciro Gomes em segundo lugar com 17%.

A campanha eleitoral será capaz de reverter este quadro positivamente para o PT e para Dilma?

Vejamos: enquanto no Brasil pululam manchetes negativas nos principais jornais, no exterior o governo de Lula é citado como exemplo, tanto pelo crescimento do país, como pela diminuição da desigualdade social. Ou o brasileiro anda lendo mais jornais estrangeiros ou não anda lendo nada.

Levando em conta a segunda opção, o departamento de propaganda do PT terá um belo trabalho para transferir ao menos parte dos votos de Lula para Dilma.

Talvez a tarefa de Dilma nem seja tão difícil. Se 83% aprovam o governo Lula, é mais fácil elogiar do que atacar. Dilma também tem a seu favor o fato de ser mulher e a novidade de uma mulher presidente do Brasil pode ser o trunfo da petista.

Contra ela, por outro lado, certamente os tucanos vão certamente chama-la de terrorista (como assim fizeram e fazem com quem lutou contra os militares), pela sua participação em organizações de resistência ao golpe de 64. Também lembrarão do caso Varig e do Dossiê da Casa Civil. Contra Dilma também pesa o fato de nunca ter sido eleita à cargo algum e sua participação política se resumir a ministérios e secretarias.

Ah, e já que o brasileiro parece gostar tanto disso: a Dilma fala em inglês?

A pesquisa ouviu 2.002 pessoas entre os dias 26 e 30 de novembro em 143 municípios brasileiros. A margem de erro do levantamento é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com grau de confiança de 95%.

quarta-feira, novembro 25, 2009

Não devemos odiar o São Paulo, devemos seguir o seu exemplo

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Quem, nesta reta final de Campeonato Brasileiro, que não seja são-paulino, e está torcendo para o São Paulo? Aposto minhas cuecas que são poucos, quiçá, não tenha ninguém.

Certamente apenas os vascaínos, botafoguenses e tricolores estão secando o Flamengo nesta batalha palmo a palmo contra o São Paulo.

É o São Paulo, com toda a sua estrutura européia, contra o Flamengo tipicamente brasileiro, carioca suburbano, com tudo o que há de bom e de ruim no Brasil ao mesmo tempo.

Dói ver a grama do vizinho mais verde do que a nossa. Da mesma forma, dói ver o São Paulo imbatível nos pontos corridos. Aí dissemos que esta forma de disputa está perdendo a graça, quando na realidade estamos apenas destilando inveja ao time do Morumbi. Se em todo o ano tivéssemos um campeão diferente, a conversa seria outra.

Esta má vontade que temos em relação ao São Paulo, talvez confirme a nossa síndrome de vira-latas. Enquanto os são-paulinos têm um grande estádio, planejamento, contas em dia, um centro médico de referência internacional, o Flamengo joga em um estádio do governo, pouco olha para sua casa e vem de um patrocínio envolto em mistério, que perdurou por décadas, com uma estatal.

Querer o Flamengo campeão é seguir a onda vintage. Torcer pelo Flamengo em detrimento do São Paulo, é olhar para trás. É patinar no tempo em que o nosso futebol era gerido com o coronelismo apaixonado dos cartolas.

Por outro lado, se um torcedor de outro clube admitir simpatia pelo São Paulo, vai ser achincalhado em praça pública. De visionário vai passar por segregador social e elitista.

Não sou nem flamenguista, nem são-paulino, mas, se uma mea culpa ainda cabe neste texto, admito a tendência retrô e a torcida pelo Flamengo, que mais do que nunca tem hoje quase o tamanho do Brasil.
 

CONTATO
Colaboradores Ana Carla Teixeira, Anderson Paes, Camila Rufine, Carlos Karan, Deyse Zarichta, Eduardo Daniel, Emanuela Silva, Emanuelle Querino,
Emmanuel Carvalho, Fabiano Bordignon, Fabrício Espíndola, Francine de Mattos, Gabriel Guedes, Germaá Oliveira, Guilherme Marcon, Isabel Cunha, Kellen Baesso, Manuela Prá, Patrícia Martins, Thiago Antunes, Thiago Schwartz, Tiago Tavares, Valter Ziantoni,Van Luchiari, Vanessa Feltrin, Vitor S. Castelo Branco, Viviany Pfleger

©2010 GeloEmMarte.com Todos os direitos reservados. As opiniões aqui expressas são de responsabilidade de seus respectivos autores.