Anderson Paes | www.twitter.com/andersonpaes
Num escritório em Florianópolis (SC) alguém dá a ordem de impressão para as faturas do mês. Um outro a recebe e aperta um botão. O sinal do computador prontamente é enviado à impressora, que se move e marca no papel caracteres e gráficos em preto, azul e vermelho.
Tudo isso graças à energia elétrica que alimenta os aparelhos cinzas naquelas salas, extraída muito provavelmente das usinas térmicas a carvão do litoral sul catarinense – ou talvez de alguma pequena hidrelétrica, limpa, mas que causou impacto relevante à região em que está. E ainda tem o papel, que motivou a derrubada de algumas árvores.
E com tudo impresso, uma folha em especial será dobrada, posta num envelope, e seguirá até o seu destinatário – cerca de 130 km dali. Consumindo combustível fóssil, poluindo o ar, e contribuindo negativamente para o pesado e arriscado trânsito da, em obras, BR-101 Sul.
A correspondência então chegou: uma fatura da operadora de telefonia TIM. Ao abrir a carta o destinatário lê seu conteúdo e ri, espantado. O valor: R$0,06. “Não paga nem o papel da conta”, afirma. Quem dirá o processo todo!?
Nos últimos anos as empresas têm criado cada vez mais uma imagem de “empresa amiga do meio ambiente” ou qualquer coisa parecida. A questão ambiental está em alta. Ao mesmo tempo, ignoram tudo isso por seis centavos. Vale a pena?
Imagem da fatura que chegou a um cliente TIM, da cidade Laguna (SC).
Isso não acontece apenas com a TIM. Acredito que os bancos de dados das empresas não estejam programados para levar em consideração cálculos individuais e sim o total “a receber”. Enfim, máquinas não pensam no meio ambiente – sequer pensam nas pessoas, como aquelas gravações de menu. Pessoas pensam no meio ambiente. Pessoas pensam em pessoas.
*Gabriel Guedes | www.twitter.com/gabrielzguedes
Existem várias maneiras de se contemplar o Rio dos Sinos. Um rápido e corriqueiro passar de olhos sobre as pontes na BR-116 e BR-386, um livro de fotos do rio ou até mesmo um exótico passeio a bordo do barco Martim Pescador. São Leopoldo e Novo Hamburgo se desenvolveram com o Rio dos Sinos como referência. Foi por ele que chegaram os imigrantes alemães, que muitas famílias se alimentaram de peixes, lavaram roupas e se refrescaram durante os tórridos verões da região. No entanto, o desenvolvimento do Vale nos levou a se distanciar do Sinos e a cortar os laços de amizade que existiam desde os primórdios.
Separadas pelo Rio dos Sinos, juntas, as duas cidades são maiores que muitas capitais brasileiras, com cerca de 500 mil habitantes. As margens, amplas, foram engolidas pela selva de concreto e asfalto. Com isso, as enchentes que antigamente eram sinônimo de terra fértil para a agricultura, se tornaram entrave para a expansão urbana. Ergue-se, então, um muro e com ele, a separação quase que definitiva entre comunidade e rio.
Não se questiona a construção dos diques. Uma obra essencial, sem dúvida. Muitas vidas foram salvas diante dos alagamentos ocasionados pelo Rio dos Sinos.
No entanto, como num dever de gratidão por tudo o que possibilitou, a comunidade de Novo Hamburgo e, principalmente, São Leopoldo, precisa voltar o olhar para o rio. Reatar os laços de afeto.
Um dos programas preferidos de quem habita a Capital, nos finais de semana, é ver o pôr do sol no Guaíba. E você sabia que o pôr do sol, no Rio dos Sinos, em São Leopoldo, também propicia prazerosos finais de tarde?
Contudo, o aproveitamento do Sinos na área urbana esbarra em diversos fatores. Desde a poluição na água, causando mau cheiro, até a falta de segurança. Como fotografar e sorver um chimarrão no fim de tarde se há o risco de tomarem sua câmera de assalto?
Além do mais, é preciso criar uma infraestrutura de lazer: pistas de cooper, equipamentos de exercícios físicos, passarelas e decks, acessibilidade para portadores de deficiência, parque de brinquedos e quiosques, por exemplo. Entretanto, muito mais do que lazer, é uma maneira de reunir pessoas em torno de atividades saudáveis e que promovam a integração familiar. Ganha também a cidade, com revitalização de áreas degradadas e a população de baixa renda, que terá futuro com melhor infraestrutura urbana e de moradia. A economia será aditivada pelo dinheiro do turismo, com a criação deste novo cartão-postal.
A tarefa é árdua e requer dos administradores de ambas cidades atitude para colocá-la em prática. O primeiro passo pode começar pela despoluição do Rio dos Sinos.
Este artigo foi publicado jornal ABC Domingo (Novo Hamburgo, RS) em 8 de agosto de 2010 e está também em www.gabrielguedes.com.br
*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel
Em 2008, um catador de latinhas de alumínio, precisava juntar 70 unidades para arrecadar algo em torno de R$ 4. Hoje, com 90 latas, ele não lucrará mais do que R$ 2.
À desvalorização do material por eles recolhidos, soma-se a concorrência dos moradores de rua, dos proprietários dos estabelecimentos que guardam as latas para obterem um lucro – embora pequeno – extra.
Outro ponto culminante é o fato de que as fabricantes das latas de alumínio reduziram o peso do material diminuindo a espessura da lâmina de alumínio para aumentar a produção.
Alguns catadores chegam a andar 21 quilômetros por dia e conseguem voltar para a casa com apenas R$ 20 no bolso. Um saco cheio de latinhas pode render até R$ 3 e muitos deles preferem guardar para vender um volume maior.
Enquanto o material não perde ainda mais o valor de mercado e as latinhas representarem uma fonte de sobrevivência para muitas famílias, as ruas brasileiras seguirão livres do lixo produzido após grandes eventos em locais públicos.
Além do temor social que a desvalorização das latinhas de alumínio pode trazer, o caos ambiental e higiênico nas grandes cidades também pode se tornar lastimável.
Seguindo a queda apresentada nos primeiros parágrafos, em dois anos poucos se aventurarão neste árduo ofício.
_____
Com dados do Diário Gaúcho de 09/03/2010
*Gabriel Guedes | www.twitter.com/gabrielzguedes
Publicado em 06/09/2009
Ainda da série das informações “represadas”, recordei hoje de uma história que captei na minha última estada em Tubarão, no começo de maio. Na verdade, soube desta informação durante uma rápida passagem, a negócios, em Gravatal. Vou falar de Anitápolis.
— Alguém já ouviu falar?
Anitápolis é um de vários minúsculos municípios do meu Estado que vivem praticamente isolados. Sim, por que existe mais estrada de chão do que asfalto para chegar até lá. Distante 96 quilômetros de Tubarão e outros 97 de Florianópolis, é lá que nasce o principal afluente do Rio Tubarão: o Rio Braço do Norte, que verte do encontro das encostas da Serra Geral, da Boa Vista e do Tabuleiro. Uma região de enorme beleza natural e que conta com uma das maiores áreas de mata atlântica preservada em Santa Catarina. Colonizada por imigrantes alemães, os seus 3,2 mil habitantes são gente simples e que subsistem da agricultura. Agora eles vivem um dilema: instalar ou não uma mina, a céu aberto, de fosfato para fabricação de fertilizantes?
Num lugar tão distante de qualquer grande centro urbano, é normal que se tenha uma ânsia pelo desenvolvimento econômico. Principalmente quando se fala em geração de empregos em larga escala. Soube que devem ser gerados cerca de 2 mil empregos, entre diretos e indiretos. E o prefeito Saulo Weiss (PMDB) estaria empolgadíssimo.
A primeira licença para a instalação já foi dada pela Fundação Estadual de Meio Ambiente (Fatma). Claro, isso não demorou porque se trata de um empreendimento da gigante alimentícia Bünge, por intermédio da Indústria de Fosfatados Catarinense Ltda. Onde há um forte lobby. E se tratando da Fatma, há que se desconfiar mais que duas vezes. Segundo o pessoal da Fepam (a fundação de proteção ambiental gaúcha), a Fatma tem fama de ser “frouxa”. E num governo como o de Luiz Henrique da Silveira (PMDB) – que apoiou o descarado “código florestal catarinense” –, dizem que a Fatma, assim como outros órgãos do Estado, são loteados politicamente. Logo, sem critérios racionais.
Tubarão precisa se mobilizar: o projeto prevê a construção de uma barragem de 80 metros de altura no Rio Pinheiros, afluente do Braço do Norte–Rio Tubarão, onde ficarão retidos os dejetos tóxicos da extração do fosfato.
Imagine a catástrofe: numa região em que a água já é castigada pela extração de carvão mineral, ter uma barragem gigantesca retendo resíduos tóxicos e que pode arrebentar a qualquer momento, bastando uma chuva torrencial para iniciar o desastre. Qualquer vazamento é fatal para todas as cidades que dependem do Rio Braço do Norte e Tubarão, além do Complexo Lagunar, para sobreviver.
Isso sem relevar o fato dos caminhões – em torno de 112/dia – que irão trafegar com enxofre, ácido sulfúrico e fosfato pela BR-282/BR-101 até o Porto de Imbituba e até Lages, onde a carga seguirá por ferrovia até Rio Grande do Sul e São Paulo. Os riscos de um grave acidente ambiental são enormes, segundo especialistas.
— Fica a pergunta: é isso que queremos, mesmo? Será que vale a pena o “Brasil, País do futuro” sacrificando o meio ambiente e a segurança de sobrevivência de mais de 300 mil pessoas?
Fique à vontade para conhecer as duas versões: Quem quer: www.projetoanitapolis.com.br / Quem não quer: www.montanhaviva.org.br
No próximo post digo o que isso tem a ver com a concentração populacional no litoral catarinense.
*Gabriel Guedes | www.twitter.com/gabrielzguedes
Ainda da série das informações “represadas”, recordei hoje de uma história que captei na minha última estada em Tubarão, no começo de maio. Na verdade, soube desta informação durante uma rápida passagem, a negócios, em Gravatal. Vou falar de Anitápolis.
— Alguém já ouviu falar?
Anitápolis é um de vários minúsculos municípios do meu Estado que vivem praticamente isolados. Sim, por que existe mais estrada de chão do que asfalto para chegar até lá. Distante 96 quilômetros de Tubarão e outros 97 de Florianópolis, é lá que nasce o principal afluente do Rio Tubarão: o Rio Braço do Norte, que verte do encontro das encostas da Serra Geral, da Boa Vista e do Tabuleiro. Uma região de enorme beleza natural e que conta com uma das maiores áreas de mata atlântica preservada em Santa Catarina. Colonizada por imigrantes alemães, os seus 3,2 mil habitantes são gente simples e que subsistem da agricultura. Agora eles vivem um dilema: instalar ou não uma mina, a céu aberto, de fosfato para fabricação de fertilizantes?
Num lugar tão distante de qualquer grande centro urbano, é normal que se tenha uma ânsia pelo desenvolvimento econômico. Principalmente quando se fala em geração de empregos em larga escala. Soube que devem ser gerados cerca de 2 mil empregos, entre diretos e indiretos. E o prefeito Saulo Weiss (PMDB) estaria empolgadíssimo.
A primeira licença para a instalação já foi dada pela Fundação Estadual de Meio Ambiente (Fatma). Claro, isso não demorou porque se trata de um empreendimento da gigante alimentícia Bünge, por intermédio da Indústria de Fosfatados Catarinense Ltda. Onde há um forte lobby. E se tratando da Fatma, há que se desconfiar mais que duas vezes. Segundo o pessoal da Fepam (a fundação de proteção ambiental gaúcha), a Fatma tem fama de ser “frouxa”. E num governo como o de Luiz Henrique da Silveira (PMDB) – que apoiou o descarado “código florestal catarinense” –, dizem que a Fatma, assim como outros órgãos do Estado, são loteados politicamente. Logo, sem critérios racionais.
Tubarão precisa se mobilizar: o projeto prevê a construção de uma barragem de 80 metros de altura no Rio Pinheiros, afluente do Braço do Norte–Rio Tubarão, onde ficarão retidos os dejetos tóxicos da extração do fosfato.
Imagine a catástrofe: numa região em que a água já é castigada pela extração de carvão mineral, ter uma barragem gigantesca retendo resíduos tóxicos e que pode arrebentar a qualquer momento, bastando uma chuva torrencial para iniciar o desastre. Qualquer vazamento é fatal para todas as cidades que dependem do Rio Braço do Norte e Tubarão, além do Complexo Lagunar, para sobreviver.
Isso sem relevar o fato dos caminhões – em torno de 112/dia – que irão trafegar com enxofre, ácido sulfúrico e fosfato pela BR-282/BR-101 até o Porto de Imbituba e até Lages, onde a carga seguirá por ferrovia até Rio Grande do Sul e São Paulo. Os riscos de um grave acidente ambiental são enormes, segundo especialistas.
— Fica a pergunta: é isso que queremos, mesmo? Será que vale a pena o “Brasil, País do futuro” sacrificando o meio ambiente e a segurança de sobrevivência de mais de 300 mil pessoas?
Fique à vontade para conhecer as duas versões: Quem quer: www.projetoanitapolis.com.br / Quem não quer: www.montanhaviva.org.br
No próximo post digo o que isso tem a ver com a concentração populacional no litoral catarinense.
|
|