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Destaque Quitandas e a volta aos tempos românticos Thiago Schwartz


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segunda-feira, março 28, 2011

Bienvenidos, hermanos

Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

É lugar entre os empresários a reclamação pela falta de mão-de-obra para os serviços mais simples. Culpam sobre tudo a política paternalista exercida nos oito anos de Governo Lula e enxergam mudanças nos anos vindouros de sua sucessora.

Esquecem, no entanto que a dificuldade de encontrar uma mão-de-obra que se submeta a condições de trabalho degradante e a salários incompatíveis com o nível de vida que o país possa oferecer, pode significar amadurecimento e crescimento econômico e não uma tendência dos menos favorecidos financeiramente ao ócio.

Este crescimento deve levar o Brasil a uma situação curiosa, já vivida pela Europa (que enviou emigrantes para os novos continentes no final do século 19): inverter a balança exportação/importação de mão-de-obra.

Não espero por muito tempo para ver circulando entre nós, hermanos oriundos de países latinos mais pobres. E é aí que o Brasil pode ensinar o mundo mais uma vez, ao permitir o convívio com harmonia, liberdade e igualdade entre todos.

terça-feira, outubro 05, 2010

Filhos da mãe gentil

Anderson Paes | www.twitter.com/andersonpaes

Na escolha entre o que é ruim e o que pode ser ainda pior, levados às zonas pelas orelhas, obrigados a entrar no jogo – pela mãe gentil que insiste a tratar o povo como “filho” incapaz de tomar decisões sozinho – muitos protestam e votam em qualquer um. Como se pusessem o Íbis – “o pior time do Brasil” – no campeonato mais importante.

— Só pra ver no que vai dar.

No que vai dar todos sabem, mas parecem não se importar. Como o filho que apronta apenas pra ver a mãe irritada, sabendo que logo farão as pazes.

Além do filho “revoltado”, há também o fanático, que nas madrugadas, sai a sujar as ruas com pedaços de papel marcados com a cara e o número de seus novos ídolos. Boa parte deles, ídolos de aluguel, cínicos que adotaram a política como profissão e veem o cargo público como um jeito fácil de ganhar dinheiro – e pra isso não se importam em jogar umas migalhas para os seguidores.

Outra parte dos votáveis é formada por ingênuos candidatos, tão apaixonados quanto os que os seguem, crentes de que o partido realmente aposta neles. Os foguetórios e as carreatas após a apuração das urnas mostram como ambos os lados tratam as eleições com paixão – como se os partidos fossem times de futebol e os eleitos seus campeões. O circo está armado.

Talvez seja a hora dessa mãe ceder um pouco, dar um pouco mais de liberdade a certas vontades – sem deixar virar uma bagunça (ainda maior) –, dialogar mais em vez de bater e mandar ter aquela conversa com os tios que fazem justiça com a lei dos outros.

São poucos os que ainda pensam na coletividade e atuam por querer algo melhor, pra realmente mudar. Aliás, é pelos filhos da mãe gentil, egoístas, que sempre sobram vagas para aqueles outros. Quatro anos pra que “talvez” fique tudo bem é tempo demais.

quarta-feira, março 03, 2010

Consciência coletiva ou algo do gênero

*Anderson Paes | www.twitter.com/andersonpaes

O mundo que conheci do lado de cá dos trópicos parece ter um espécie de consciência coletiva – apesar de que quase todos aqui são estrangeiros. Harmonia e coletividade. Coisas funcionando porque são bens comuns, bens de todos. Diferente de um certo egoísmo e indiferença ao sul do equador acerca de certas coisas públicas.

Não que aqui seja o nosso ideal de futuro, também existem erros, também há corrupção. Talvez políticos sejam iguais em todo o mundo – menos na Ásia, onde eles renunciam ou se matam quando são flagrados. Mas o povo é diferente – e alguns brasileiros também formam o povo daqui.

Então, os brasileiros, quando num lugar em ordem, entram na mesma freqüência e agem como aquela sociedade funciona? E por que não no Brasil? Há um jeitinho pra tudo!

Nossas leis que falham. Por que os brasileiros respeitam as leis em outros países? Por medo; porque elas funcionam. Não há respeito com o que rege o Brasil. Aliás, algo rege o Brasil?

Não tô buscando os defeitos do país onde nasci – e que às vezes até posso me orgulhar –, nem pretendo mostrar as qualidades daqui. Não busco a comparação. Busco alternativas para que possamos mudar nosso pedaço do mundo, nosso povo. É possível.

Um dia tento listar de que modo... por enquanto tenho mais perguntas que respostas.

sábado, dezembro 26, 2009

Salva pela farofa

*Camila Rufine | www.twitter.com/camilarufine

Acho que herdei uma maldição genética. Assim como minha mãe, empolgo-me com a propaganda que os outros fazem sobre determinada coisa e sempre me decepciono. É assim com filmes, músicas e comidas, etc. E foi quase exatamente assim com o dia posterior ao natal americano.

Cega pelos comentários sobre o absurdo que são as promoções pós-hollidays feitos pela minha host-mãe, convenci duas amigas (também au pairs e brasileiras) a nesse sábado (26) de manhãzinha deixarem o conforto e comodidade dos respectivos edredons para praticar o consumismo em uma temperatura de 6 graus negativos.

Fiz até as contas pra não gastar das minhas economias mais do que o suficiente para deixar na conta apenas o dinheiro para pagar as aulas de ESL (English as a Second Language) em janeiro, levando em consideração os salários que eu ainda iria receber, é claro.

Bobagem.

Devido a uma mistura do que acredito ser o contraste da minha pobreza com o poder aquisitivo do americano médio, não consegui gastar. Porque ao meu bolso quase tudo continuava incomprável. Pois aquilo que estava razoavelmente barato era dispensável e o que era absurdamente barato era medonhamente demodé.

Para não dizer que não comprei nada, achei em uma das tantas lojas que entramos, lá na arara que tinha a placa de 90% de desconto, duas blusinhas básicas de verão por pouco menos de 3 dólares cada.

O que não permitiu que meu final de ano consumista não se resumisse em frustração foi a decisão de contrarias as forças malígnas do GPS e irmos para a delicatessen de produtos brasileiros - que não estava em promoção.

Achei lindo pagar 2 dólares por um pacotinho de polenta instantânea que nem de marca boa é. Foi mágico ver Maguary de maracujá. Quase me belisquei quando encontrei a tão sonhada farofa temperada. E o feijão carioquinha, então!? Hmmm...

Minha host que me desculpe, mas só de lembrar o que tem ali na minha sacola de compras, não sinto nem vontade de ir até a cozinha buscar a caçarola de vagem que ela fez para a janta. E olha que eu costumo adorar aquela caçarola.

sexta-feira, dezembro 25, 2009

Enquanto isso na América do Sul

*Anderson Paes | www.twitter.com/andersonpaes

A Argentina mais uma vez balançou, como nos últimos anos, econômica e politicamente. A Venezuela, Colômbia e Equador mantiveram suas confusões diplomáticas e trocaram acusações. O Chile, ao lado da Argentina, foi dos países que mais sofreu com a nova gripe. O Uruguai conquistou uma vaga na Copa e mudou de presidente. O Brasil você sabe, escândalos políticos, dinheiro escapando pelo ralo e a notícia da escolha do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas de 2016.

Bem, vamos por partes:

Argentina: O governo de Cristina Kirchner continua com as pernas bambas. Tentaram até controlar a imprensa – não de forma discreta, como fazem nos outros países da região.

Bolívia: Evo Morales foi reeleito. Continuam plantando coca com subsídio do governo. Fato importante: ganharam da Argentina por 6 a 1.

Brasil: Internamente o Brasil repetiu um evento comum há 500 anos, a corrupção. Fora das fronteiras nos vimos envolvidos num golpe de estado hondurenho com ocupação, acredite, da embaixada brasileira – que dura até hoje. Também planejamos comprar aviões de combate – mas pelo visto nada prioritário, nenhuma compra até então.

Chile: O país sofreu um tanto com a gripe A – os números foram altos por lá. O Chile encerra o ano pensando no segundo turno das eleições presidenciais que, ao que parece, pode devolver o poder à direita – aquela do Pinochet.

Colômbia: Falam mal da Venezuela e Chávez, mas pensam em aceitar um terceiro mandato para o mesmo presidente. Continuam em um tipo de crise diplomática com os vizinhos Equador e Venezuela. Fecharam um acordo com os Estados Unidos – o que criou suspeita da parte de todos os demais vizinhos.

Equador: Apesar da crise com a Colômbia e do apoio ao estilo Chávez o país continua num “silêncio” internacional – pelo menos aqui. Ah, houve aquele caso dos brasileiros da Odebrecht que levaram a culpa por uma obra que, segundo eles, não funcionou como deveria.

Paraguai: Ah o Paraguai! O presidente deles, um ex-bispo, parece saído de um jogo de xadrez: come todo mundo. Já tem alguns filhos. E conseguiram uma ajudinha do Lula quanto ao preço praticado em Itaipu.

Peru: É nas águas peruanas que acontece o El Niño. Culpa do calor por aqui, das chuvas, da seca, etc. Um novo projeto de rodovia ligará o Brasil ao Pacífico através do Peru – ou não.

Uruguai: Um novo presidente assumiu e recusou a residência oficial, vai ficar no seu sítio – menos gasto público, bom exemplo. O país também conquistou uma vaga no Copa do Mundo.

Venezuela: Hum, por lá tudo que acontece de ruim “é culpa dos Estados Unidos”. Compraram umas armas de guerra, da Rússia.

E a Guiana, Suriname? Continuam “desconhecidos” para a maioria dos brasileiros – talvez por participarem do futebol caribenho. A Guiana Francesa... bom, é da França – que quer vender aviões para o Brasil – e vários brasileiros da Amazônia vão pra lá tentar a vida em euros. Rendeu até um Globo Repórter – ou isso foi em 2008? Melhor parar por aqui.

E no último ano da década metade do que foi descrito acima deverá se repetir no continente. No Brasil, até fevereiro vai se falar do carnaval e a partir de março o assunto será Copa do Mundo. Ah tem eleições! Como um jornal disse dia desses: Panetonem et circenses. Até lá!

terça-feira, dezembro 22, 2009

Clássico de Natal

*Camila Rufine | www.twitter.com/camilarufine

Enquanto eu cuidava dos meninos na sala, a minha host me chamou da cozinha. A propósito, eu trabalho como au pair em Chicago.

— Camila?!
— Yes?
— Do you guys have some kind of Christmas songs in Brazil?
— Sure. Most of them are translations or versions of the American ones.
— Really? Which ones?
Silent Night, Jingle Bells...
— Oh! Can you sing Jingle Bells for me?
— Oh, well... [putz grila, e agora? Bom, que se lasque, ela não sabe Português mesmo e eu não lembro a versão bonitinha] Jingle bells, jingle bells, acabou o papel. Não faz mal, não faz mal, limpa com jornal... [que ridícula que eu sou, quero morrer!]
— Hahaha nice. Can you teach Jake?
— Sure! [Foi ela quem pediu, né?!]

Tecla SAP:

— Camila?!
— Sim?
— Vocês têm algum tipo de música natalina no Brasil?
— Claro. A maioria delas são traduções ou versões das músicas americanas.
— Sério? Quais delas?
Noite Feliz, Jingle Bells...
— Ah! Você poderia cantar Jingle Bells para mim?
— Bom, hãã... [putz grila, e agora? Bom, que se lasque, ela não sabe Português mesmo e eu não lembro a versão bonitinha] Jingle bells, jingle bells, acabou o papel. Não faz mal, não faz mal, limpa com jornal... [que ridícula que eu sou, quero morrer!]
— Hahaha legal. Você pode ensinar o Jake?
— Claro! [Foi ela quem pediu, né?!]

sexta-feira, dezembro 18, 2009

Com fuso

*Camila Rufine | www.twitter.com/camilarufine

Desde o começo de novembro, são quatro horas que me separam da minha vida real, lá no Brasil.

Todo dia que acordo para tomar água ou ir ao banheiro, lá pelas três da madrugada, penso: já são sete da manhã lá. Todo mundo deve estar acordando e eu ainda posso dormir mais quatro horas. Oba. Mas a parte boa do fuso para por aí.

Pois depois que o dia de trabalho começa, não consigo fazer outra coisa a não ser fitar meu relógio e lamentar, pois enquanto aqui ainda é meio dia e eu ainda tenho seis horas de trabalho pela frente, está todo mundo em clima de fim de expediente lá no Brasil.

Também é difícil manter amigos online, quando eu acordo na hora que eles estão indo almoçar ou se quando estou livre do trabalho muitos deles já foram dormir. E é triste ter apenas uma opção de horário decente para ligar para a família. E é deprimente que às cinco da tarde já esteja noite gelada aqui, enquanto no Brasil tem gente tomando banho de sol às sete.

Mas ganhando disparado no quesito chatice em relação a fuso-horário, vem o fator ano novo. Vou ter que ligar às oito da noite para dar feliz ano novo para todos lá de casa e esperar mais quatro para que esse ano de 2009 vá embora de uma vez. Com o agravante de que aqui ninguém dá a mínima para as viradas de ano. Só eu e outras amigas brazucas que estão na mesma que eu.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

O Brasil aos olhos do mundo

*Anderson Paes | www.twitter.com/andersonpaes

O velho país do futuro, da obra do austríaco Stefan Zweig, parece estar deslanchando naquele mesmo estilo do livro: ao seu tempo. Apesar de alguns contra-tempos enfrentados na política externa – como o caso de Honduras e Haiti –, quando o assunto é o próprio Brasil num cenário global, um dos maiores mercados do mundo, a história muda. Jornais de vários países contam os feitos brasileiros e apostam suas fichas na "esperança em verde-amarelo".

O espanhol El País mostra frequentemente casos brasileiros, o papel do país diante de outros atores internacionais, a economia que tem se segurado bem e, claro, contos da floresta – e não só para inglês (ou espanhol) ver. O nome do Brasil, tem sido uma forte marca no exterior. Nesse “fim” de crise, o país tem aparecido também no britânico The Economist e no francês Le Monde.

E foi no mesmo Le Monde que o atual governo se viu prestigiado e a oposição contrariada. Naquela historia da “marolinha” sobre a tsunami da crise, o jornal francês concordou com Lula. Na mesma hora surgiram comentários de que o cliente sempre tem razão – sobre a compra brasileira de caças de combate do país de Napoleão.

Mas o Brasil está tão bem assim? Para o governo está ainda melhor. Lula fecha o ano com mais de 80% de aprovação popular e com uma arma contra a oposição. Tudo pronto para a corrida eleitoral que também estará nas capas dos jornais do mundo todo.

E para o povo, como as coisas estão? Disso quase nada se lê no noticiário internacional. Mas se quem ama o feio bonito lhe parece, o simpático e adorável Brasil está perfeito aos olhos do mundo – pelo menos nos jornais.

sábado, dezembro 05, 2009

A tecnologia do trenzinho caipira e outras

*Anderson Paes | www.twitter.com/andersonpaes

Na última sexta (4) a comitiva brasileira que está na Europa com o presidente Lula conheceu o trem de alta velocidade alemão, o ICE (InterCity Express), produzido pela Siemens. A ideia é trazer este modelo de transporte para o Brasil – talvez próprio modelo da Siemens, que é uma das concorrentes para a nova empreitada brasileira. Inicialmente o projeto pretende ligar as cidades de Campinas (SP), São Paulo e Rio de Janeiro, e futuramente expandir a rede em ramificações que alcancem Curitiba, Belo Horizonte, Brasília, etc.

Mas para vencer a licitação os alemães terão que aceitar transferir sua tecnologia para mãos e cabeças brasileiras. A mesma situação da compra dos caças de combate – aquela em que França, Estados Unidos e Suécia competem para agradar Brasília. Tecnologia que, logicamente, estará incluída no preço final do produto – tanto do trem, quanto dos aviões.

Além do comércio com outros países, esteve na pauta dos jornais o recente acordo Brasil/Ucrânia para lançamento de foguetes daquele país a partir da base de Alcântara, no Maranhão. Assunto em que o Brasil tem muito o que aprender e o dinheiro é curto. Agora o BNDES vai financiar o projeto “quase pronto” da Ucrânia. Teremos acesso à foguetes que, teoricamente, voam mais que os nossos.

E o custo de se comprar ou investir em tecnologias prontas, compensa? A considerar o curto prazo... compramos o primeiro e aprendemos a montar o segundo, terceiro, quarto, etc; e ao pensar que investimentos em pesquisa e produção exigem planejamento e dinheiro por um certo tempo – o que a cada eleição é cortado para nova análise situação/oposição – podemos dizer que não estamos preparados politicamente para desenvolver tecnologia avançada e que comprá-las ainda é uma boa alternativa.

O que falei até aqui, são apenas exemplos de situações recentes onde recorremos às tecnologias adquiridas ou compartilhadas – não estou a sugerir que se escolha ou produza uma alternativa nacional, mas que a partir de necessidades como as atuais se pense em estimular a produção científica por aqui. Aliás, se existem boas coisas no mundo temos mais é que conhecê-las e se resolve nossos problemas, por que não comprá-las?

O ideal, penso eu, seria ver certos setores públicos do Brasil, como empresas e centros de pesquisa e educação, livres das amarras político-partidárias. Que se invista em educação e num modelo de formação de livres pensadores – para que no futuro possamos escolher novos caminhos, políticas públicas, parcerias com a iniciativa privada e um novo desenvolvimento nas terras brasileiras – no mesmo longo prazo do desenvolvimento social.

E, é claro, podemos lembrar dos bons exemplos nacionais, como a tecnologia desenvolvida pela Petrobras, Embraer, Embrapa, as pesquisas da USP, Unicamp e outros centros de áreas diversas – conhecimento que também exportamos.

Porém, depender de financiamento para se desenvolver é um caminho difícil; depender de interesses políticos – ora eleitoreiros – é outro, ainda mais complicado e bastante sinuoso. E apesar de termos capacidade intelectual – tanto que muitos de nossos cientistas são “levados” para outros países –, ainda estamos no segundo caminho – em obras.

---
O Trenzinho Caipira
Heitor Villa-Lobos


Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade noite a girar
Lá vai o trem sem destino
Pro dia novo encontrar
Correndo vai pela terra, vai pela serra, vai pelo mar
Cantando pela serra do luar
Correndo entre as estrelas a voar
No ar, no ar…

(Ferreira Gullar)

quarta-feira, novembro 04, 2009

Passado recente, memória presente

*Emanuelle Querino | www.twitter.com/manuquerino

Nem sempre o povo sabe da sua história ou lembra dos problemas do passado. Você já ouviu falar em anistia? No dia 28 de agosto a assinatura da anistia militar no Brasil completou 30 anos. A Lei 6.683, assinada pelo presidente João Figueiredo, permitiu que mais de 2000 pessoas que estavam exiladas e 150 banidas voltassem ao país e libertou mais de 100 presos políticos.

Anistia é o termo jurídico usado no perdão de culpados por delitos coletivos, especialmente de caráter político. Assim, acabam as penas contra eles e tudo o que envolve o crime deverá ser mantido sob silêncio perpétuo (do art. 107, II, Código Penal). A grande questão é que também foram anistiados os militares acusados de terem violado os direitos humanos. Aí então você pensa: então nunca saberemos nada sobre os crimes da ditadura, nunca ninguém será punido?

Existem dois lados nessa história: o contra e o a favor. Cada um interpreta a lei de um jeito. O artigo primeiro da lei é o causador de tanta confusão: "É concedida anistia a todos quantos, no período compreendido entre 2 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979, cometeram crimes políticos ou conexo com estes (...)". Os que são contra dizem que a anistia é só para as vítimas e aqueles a favor afirmam que os militares estão incluídos no trecho “conexo com estes”.

“Memórias Relevadas”

A campanha Memórias Reveladas, do Arquivo Nacional, tem o objetivo de reunir informações sobre os fatos da história política recente do país. Agora pessoas que têm informações sobre o período do governo militar pode enviar o que sabe ou o que tem, como fotos, documentos e cartas para que todo o Brasil saiba a sua história. Espera-se, principalmente, que netos e parentes das pessoas mais atingidas e envolvidas divulguem esses fatos.

Os dados sigilosos que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) guardava dos arquivos dos serviços extintos como o Conselho de Segurança Nacional, Comissão Geral de Investigações e o Serviço Nacional de Informações foram transferidos para o Arquivo Nacional. Aos poucos o Brasil vai descobrindo o que foi calado e escondido.

Depois de recuperar a democracia o que precisamos agora é resgatar a verdade. Muita coisa já foi documentada e publicada, mas ainda existe um clima de silêncio quando o tema é a ditadura. Os mais jovens não sabem muito bem o que aconteceu e o que é mais falado nas escolas é sobre a censura. Os desaparecidos políticos da época, os conflitos, o movimento das Diretas Já, são citados por cima. E a cada geração, com exceção de poucos que se interessam pelo assunto, nos tornamos cada vez mais esquecidos de nosso passado, não tão passado.

Nunca é tarde para começar

Para quem não viveu essa época do Brasil, uma boa maneira de entender o que aconteceu no período da Ditadura Militar é assistir filmes como O ano em que meus pais saíram de férias (Cao Hambúrguer, 2006), ou Batismo de Sangue (Helvécio Rattón, 2007) e O que é isso companheiro? (Bruno Barreto, 1997). Livros também são uma boa pedida, como Meu querido Vlado (Paulo Markun, Ed. Objetiva, 2005), Veja sob censura: 1936-1976 (Maria Fernanda Almeida, Ed. Jaboticaba, 2009) e A Ditadura Envergonhada (Elio Gaspari, Companhia das Letras, 2002).

Os títulos são recentes, com diferentes pontos de vista. Assim você pode criar a sua própria opinião sobre o assunto. Quanto mais conhecermos o passado, melhor entenderemos o presente e poderemos mudar o futuro.

quarta-feira, outubro 28, 2009

Evite ser loura

*Camila Rufine | www.twitter.com/camilarufine

— Você não parece nada com brasileiros.

Depois de ouvir essa e outras 20 variações dessa frase - em inglês, of course - e de responder "todo mundo me diz a mesma coisa" e suas tantas variantes, decidi que quando eu for fodona e tiver poder de persuasão sobre o mundo inteiro, sobretudo os americanos, escreverei um belo texto sobre o Brasil. Você sabe, só para lembrar a todos que temos bananas sim, mas não só isso.

Salientar que nem tudo é Amazônia. Que temos inverno em algumas regiões. Sabemos o que é eletricidade, internet wireless, disk entrega e shopping center. Conhecemos lavadora louça e carros automáticos. Que não jogamos só futebol. Não dançamos só samba. E que temos gente alta e loura também, oras bolas.

Acontece que eu ainda não sou fodona. Tampouco sou capaz de escrever um texto e passar para o inglês em qualquer tradutor online e mandar um spam assinando Paulo Coelho, por exemplo, que é brazuca e faz um sucessão por aqui. Não tenho coragem mesmo essa receita sendo infalível, como comprovei hoje ao ver na minha caixa de entrada três e-mails encaminhando o texto "Evite ser traído", atribuído falsamente a Arnaldo Jabor.

Não tenho prova nenhuma para afirmar a falsidade ideológica e nem sequer consegui ler um parágrafo inteiro do tal e-mail. Mesmo assim penso que as chances de Jabor escrever e publicar um texto tão feminista e clichê são as mesmas da heterossexualidade voltar a ser moda.

O jeito é pintar o cabelo. Ou mentir a nacionalidade. Mas isso também seria falsidade ideológica, não é mesmo?

sexta-feira, outubro 02, 2009

Ouro em lançamento de piadas!

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Se tem uma coisa que brasileiro é especialista e todo brasileiro sabe que é, é fazer piada de tudo. Principalmente se for em cima de má notícia. Aí nós nos superamos com folga. A nossa especialidade também é demonstrada com maestria mesmo nas boas notícias e nos assuntos que mais nos chamam a atenção. O esporte, por exemplo.

Pois foi só o Comitê Olímpico Internacional anunciar o Rio de Janeiro como cidade sede para os Jogos Olímpicos de 2016, uma enxurrada de piadas e sacadas bem humoradas tomaram conta das rede sociais da internet.

O Twitter ficou recheado de gozações das mais variadas. Algumas delas:
– Não saberemos qual será o tiro de abertura;
– Teremos o "levantamento de propina";
– Haverá "corrida com barreiras (da polícia)";
– Seremos ouro em tiro ao alvo;
– A cantora Vanusa tem sete anos para aprender o Hino Nacional, pois vai cantar na abertura.

É evidente que muita piada ficou de fora. Umas pelo teor sexual, outras porque surgiram após a publicação do texto, mas uma coisa temos certeza: em "lançamento de piadas", seremos ouro!

Brasil, il, il!

sábado, setembro 26, 2009

Nem tanta sombra e água fresca

*Emanuelle Querino | emanuellequerino@hotemail.com

É só olhar para os lados e ver: a galera com mais de 60 anos está em todo lugar. Seja nas lanchonetes, em cursos, universidades, academias, nas praias e por aí vai. Por já estarem aposentados, na maioria das vezes, nossos vovôs e vovós estão com o tempo livre pra curtir a vida. E às vezes pode até dar inveja em alguns jovens, já que eles recebem um salário da Previdência Social, alguns de planos privados, e não precisam mais trabalhar, porque já trabalharam a vida toda.

E se você já começou a fazer as contas de quantos anos vai precisar trabalhar pra chegar lá, pode parar. A nossa geração vai ter um destino um pouco diferente, porque a população do Brasil está envelhecendo! Isso quer dizer que as pessoas mais velhas estão vivendo mais. E quanto mais idosos existem, mais o governo precisa pagá-los sem receber seus serviços, isso sem contar os custos com tratamentos médicos.

O sistema previdenciário foi inventado nos EUA. Lá, os beneficiados seriam as pessoas com mais de 65 anos. Mas a expectativa de vida era de apenas 62 anos. O brasileiro já espera viver mais de 72! A revista Superinteressante, mostra que o envelhecimento da população vai causar um prejuízo nove vezes maior do que a atual crise econômica está deixando. Imagina?

O “x” da questão

Um país é considerado em fase de envelhecimento quando 15% da população tem mais de 60 anos, ou 65, para países desenvolvidos. Pessoas mais velhas tem menos filhos também. Uma pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) feita no final do ano passado, indica que as mulheres tiveram uma média de 1,83 filho. Contemos um filho apenas ou no máximo dois.

Essa média é menor que a taxa de reposição, que é 2,1, e significa o mínimo de filhos que cada mulher no Brasil deveria ter para que a população seja mantida, dentro de 30 anos. E apresenta ainda que em 2030 nosso país deverá ter seu pico populacional, com aproximadamente 204,3 milhões de pessoas. Mas, logo em seguida, em 2035, já seremos apenas 200,1 milhões.

A Superinteressante ainda diz que em 2020 já começarão a faltar jovens em cargos especializados. O que vai acontecer? Nossos vovôs (que até lá, talvez serão nossos pais) precisarão voltar ao trabalho. Mas para isso não acontecer precisaríamos ter mais filhos. E por que isso não acontece?

Será que Elis estava certa?

Elis Regina cantava: “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais...”. Mas não é bem assim. A urbanização no Brasil, que começou a crescer a partir dos anos 60, trouxe mais pessoas para viver nas cidades e fez com as mulheres entrassem no mercado de trabalho. Só que a maioria delas além de trabalhar ainda precisa cuidar da casa, o que leva a uma diminuição no número de filhos por falta de tempo para cuidá-los.

A maneira de viver mudou e com os métodos contraceptivos fica mais difícil ter filhos. Apesar disso as mulheres já tem a opção de congelar seus óvulos, assim como os homens podem congelar seu sêmen, quando desejam ter filhos mais tarde. Seja quando estiverem com a vida profissional estável ou até mesmo mais perto da aposentadoria. Porém, talvez agora essa fase de descanso esteja ficando um pouco mais longe, já que, ao que tudo indica, aumente cada vez mais a idade mínima para o descanso merecido depois de tantos anos de trabalho.

terça-feira, setembro 22, 2009

Honduras: pegaram o presidente de pijamas

*Emanuelle Querino | www.twitter.com/manuquerino

Uma confusão danada em Honduras. Você já deve ter visto alguma coisa na TV ou na Internet sobre isso, mas não é muito fácil de entender. Agora imagine lá, onde os meios de comunicação estão sob censura e a população nem sabia que tinha acontecido um golpe de estado. Só quem soube da novidade foi a pequena parcela da população que tem Internet e TV a cabo.

Honduras é um país muito pobre, com um dos piores índices de desenvolvimento econômico na América Latina. A economia é baseada na agricultura, de onde vem a maior parte da receita do país, gerada pelo trabalho de 4,8 milhões de pessoas.

O golpe aconteceu no domingo do dia 28 de junho deste ano. No dia 30 aconteceria um referendo proposto pelo presidente deposto, Manuel Zelaya, para saber se a população concordava em ter uma Assembléia Constituinte para fazer uma revisão na constituição do país. Mas existiam comentários de que isso era uma tentativa ilegal de derrubar uma lei que define que o mandato presidencial é de quatro anos, sem direito a reeleição. A Justiça, o Congresso e o Ministério Público decidiram que o referendo era inconstitucional.

Tanto a população a favor e a contra ao presidente começaram a fazer manifestações nas ruas da capital Tegucigalpa.

Confusão de objetivos

Zelaya diz que queria abrir caminho para uma constituição que favorecesse os pobres, (70% do país), e que o referendo era apenas para saber o que povo pensa. Por ser aliado do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, existe o medo que ele queira instalar o mesmo populismo socialista no país da América Central.

Sua oposição diz que na verdade, o presidente queria impor uma nova constituição que permita a reeleição. E que ele só foi preso, porque descumpriu uma ordem judicial.

Como o presidente foi deposto

Imagine acordar com ao som de tiros. Depois você é tirado da cama por militares mascarados e levado, ainda de pijamas para o aeroporto da capital. Você nem sabe para onde está indo e ainda tiram seu celular! Foi isso que aconteceu com Zelaya, presidente deposto.

Na tarde daquele dia 28 o congresso de Honduras fez uma sessão de emergência e votou a saída do presidente. Também leram uma suposta carta de renúncia, a qual Manuel Zelaya nega ter escrito. O presidente do congresso, Roberto Micheletti, assumiu a presidência interina de Honduras. Algumas horas depois de uma briga feia entre os cidadãos a favor de Zelaya e a polícia, Micheletti deu uma entrevista a Rádio Nacional dizendo que "não houve golpe de Estado e nem nada parecido".

Ele quer que os outros países acreditem que a sua chegada ao poder está de acordo com a constituição. O problema é que todos os países da América são contra o golpe militar e querem que Zelaya volte ao governo. Sobre isso, o presidente deposto disse que "um governo roubado, que surge pela força, não pode ser aceito, não irá ser aceito por nenhum outro país".

Mas a Justiça e o Congresso de Honduras afirmam que o governo interino vai continuar até as eleições gerais, em novembro.

Solução?

Da fronteira com a Nicarágua, ao sul de Honduras, Zelaya pediu o apoio do povo e principalmente de soldados e oficiais de alto escalão, para que eles se rebelem contra a cúpula militar. "Há muita gente sofrendo dentro de meu país. Resistimos firmemente 28 dias e não tem havido um minuto de descanso até que os usurpadores saiam", disse o presidente deposto.

Oscar Árias, presidente da Costa Rica, propôs medidas para acabar com a crise política, porém um dos pontos do projeto é a volta de Zelaya ao poder, e esta é uma questão indiscutível para o Exército e para Micheletti. Eles não vão deixar o governo.

O que piora a situação: os países que antes eram aliados agora começam a cortar auxílios a Honduras, que por ser muito pobre, precisa deles, principalmente em meio a crise econômica mundial.

Últimas informações

Manuel Zelaya conseguiu retornar ao país e está abrigado na embaixada brasileira. O presidente deposto diz que seu lema agora é “pátria, restituição ou morte”.

Nesta manhã a embaixada já estava sem energia elétrica e água. Houve conflito entre o exército do governo interino e manifestantes pró-Zelaya nos arredores da sede diplomática do Brasil.

A situação agora também é delicada para a diplomacia brasileira.

segunda-feira, setembro 21, 2009

'Brasil, meu Brasil brasileiro'

*Emanuelle Querino | www.twitter.com/manuquerino

Você conhece bem a cultura e os costumes brasileiros? Os problemas sociais, conflitos históricos, as lendas e as diferenças desse nosso país continental? Falamos sempre da importância de conhecer outras culturas, saber como e porque o mundo gira e as coisas acontecem. Mas hoje o assunto é outro e bem mais perto de você.

Filmes como Estação Carandiru, Pixote e Cidade de Deus representam problemas sociais com raízes na colonização. Não dá pra achar que a violência e o tráfico de drogas em comunidades onde o Estado não tem mais controle sejam culpa apenas dos governos atuais. Não tem como assistir a esses filmes e não pensar no porque de tanta diferença social.

Quando acabou a escravidão, em 1888, os escravos não tinham onde morar, onde trabalhar e nem sustento. Foram obrigados a ir morar mais longe dos centros e começaram a criar grupos que precisavam das suas próprias regras e autoridades. A ideia de liberdade é muito bonita e justa, mas o Brasil precisava de planejamento para receber os novos cidadãos.

“Gigante pela própria natureza”

Quando ouvimos que o Petróleo é nosso, o Pré-sal é nosso, o Biocombustível é nosso, a Amazônia é nossa, estamos fazendo uma relação com a frase de Getúlio sobre o petróleo brasileiro, lá em 1930. Os tempos mudam, os valores também e acabamos sem saber a origem e os motivos de vivermos neste tipo de sociedade. Vale lembrar que somos uma nação que foi colonizada e explorada. Nossas riquezas eram todas levadas para a Europa. Quando a Corte voltou para Portugal ainda levou todo o ouro e dinheiro que tinham guardados aqui.

De fora parece que no Brasil é sempre tudo muito bom. E é uma pena que poucas pessoas se deem conta de que é preciso prestar atenção na política para não deixar que as coisas que são decididas hoje se tornem um problema amanhã.

É importante preservar e valorizar a cultura brasileira. E só estudando é que vamos conhecer porque as coisas acontecem de um jeito no norte e de outro jeito no sul. Por que a forma de governo que temos é assim? Por que temos este tipo de ensino? Como cada região resolve seus problemas.

Conhecer a sua cidade, o seu estado e o seu país é o primeiro passo pra entender os problemas que eles têm. Assim como é preciso conhecer a fórmula do veneno para fazer o antídoto, você só vai poder argumentar suas soluções para a sociedade se souber por que as coisas são assim.

quinta-feira, setembro 17, 2009

Ouro negro: o petróleo do pré-sal

*Emanuelle Querino | www.twitter.com/manuquerino

Se você está ligado no noticiário já deve ter ouvido falar no pré-sal, que tem alguma coisa a ver com petróleo e gás, e que tem alguma coisa que está fazendo com que isto seja assunto de discussão no Congresso e no país inteiro. Quer saber o que é essa coisa? Dinheiro.

O petróleo que é encontrado depois do pré-sal tem as qualidades preservadas. O pré-sal é uma camada que fica há mais de 7 mil metros de profundidade, abaixo do mar, se estendendo por 800 quilômetros do litoral brasileiro. Essa extensão vai desde o Espírito Santo até Santa Catarina. Faz parte três bacias sedimentares: Santos, Campos e Espírito Santo.

Outros campos de petróleo já foram encontrados no pré-sal, o principal é o de Tupi. A diferença é que a nova descoberta indica que existe muito mais petróleo naquela área. A Petrobras acredita que Tupi tenha entre 5 e 8 bilhões de barris de petróleo, mas os novos cálculos indicaram que essa capacidade pode ficar entre 12 e 30 bilhões de barris.

“Moro num país tropical, abençoado...”

Agora veja, o Brasil produz pouco mais de 13 bilhões de barris por ano (dados da ANP – Agência Nacional de Petróleo). Com a exploração das novas reservas poderia até dobrar a produção de óleo e gás. Ficaríamos entre os 10 países mais produtores do mundo. É uma sorte grande!

Acontece que a Petrobrás ainda não tem certeza dessa capacidade. E isso não permite que se saiba ao certo quando vamos poder começar a extrair e quanto dinheiro iremos lucrar. Iremos, ou irão. Ainda não se decidiu como será a exploração.

Como existem diversas possibilidades de lucro, e a grana que vai rolar é bem alta, a área do pré-sal não vai ser leiloada antes da definição da nova Lei do Petróleo. O governo tem falado em investir os lucros na educação, como forma de reverter o benefício para os mais pobres. Para a exploração, fala-se em criar uma nova empresa estatal – a Petrosal. E esta, então, contrataria outras empresas petrolíferas para dividir os custos, já que este tipo de negócio é muito caro.

E toda essa indefinição só causa discussão, porque cada estado quer receber o chamado royalty, que são os direitos sobre a posse. Se há petróleo no seu terreno, você tem direito de receber uma porcentagem do lucro, porque o que existe abaixo da terra é, por lei, da união.

Mas muita água, ou muito petróleo, ainda vai rolar até o fim dessa história.

domingo, setembro 06, 2009

Ouviram do Ipiranga e nem mais um pio

*Anderson Paes | www.twitter.com/andersonpaes

O Dia da Independência é só mais uma folga no calendário do Brasil. Dom Pedro parece não ter dado muita importância, Portugal não bateu pé, e foi algo tão calmo e natural que não se tem o que comemorar. Nem a quem homenagear. Não houve luta nem paixões, apenas um homem num cavalo à margem de um rio. Simplesmente o Brasil fez as malas, deixou Portugal, e foi morar sozinho naquele 7 de setembro de 1822. Foi o que contaram na escola.

E conhecendo a história por esse ponto de vista, é difícil imaginar qual estudante tem vontade de pular da cama ao cantar do galo, num feriado, para participar de um desfile com um toque de militarismo. Eu, que sempre assisti da plateia – quando não ficava em casa dormindo –, lembro deles:

— Todas as manhãs do dia sete de setembro estarão lá, na avenida, sonolentos, em marcha, ao som de fanfarras desajustadas e carregando uma única bandeira, sem cor: passar de ano.


Desfile da Independência de setembro de 2008 em Tubarão (SC).
Imagens: Anderson Paes


Não é de hoje que escolas públicas e particulares oferecem uns pontos por fora para que seus alunos participem deste grande dia da pátria. E é mesmo difícil encontrar motivação, senão essa, para que acordem cedo e comemorem a conveniente liberdade que herdamos.

E essa prática inocente se repete a cada ano. A mesma prática que se torna intolerável no cenário político, por vezes tão parecido com o ambiente de uma sala de aula. Todo aquele sussurro, conchavo – sem falar das férias duas vezes por ano e da bagunça que fazem –, que só pode ser mudado pelo voto popular. Triste que muitos votos partam daqueles que não se importam com a chantagem da mesma pátria mãe gentil e vão marchar por esmolas ao conhecimento.

Um estranho e infeliz patriotismo.

quarta-feira, setembro 02, 2009

Brasil e Argentina: "Já tá chato!"

*Anderson Paes | www.twitter.com/andersonpaes

A imprensa brasileira insiste na velha rivalidade e polêmica elaborada especialmente para um Brasil e Argentina no futebol. Repórteres de TV seguem com suas gracinhas enquanto os jogadores brasileiros desconversam e consideram que o assunto “já tá chato”.

Outros profissionais que acompanham a Seleção Brasileira relevam os comentários vindos do lado de lá da fronteira como se Diego Maradona e seus comandados fossem só provocação.

No site da revista Placar: “Brasil planeja transformar pressão argentina em motivação”; na matéria falam em “clima de guerra” – clima de guerra? Se falam da vontade de vencer... sabe-se que isso os argentinos sempre tiveram – não fazem como o Brasil em alguns jogos. Bom, ainda de acordo com a revista, Maradona disse que considera sua equipe superior e aposta na vitória de sua seleção. Mas nada mais lógico que um treinador elogiar seu grupo e apostar em si mesmo, não?

Numa breve passagem pelo site de esportes Olé, da Argentina, vê-se até uma entrevista com o atacante brasileiro Luís Fabiano, onde diz que espera “que a Argentina se classifique” para a Copa do Mundo de 2010; e há ainda uma realista e otimista frase do experiente Claudio Cannigia, dizendo que sua seleção “está por baixo (em relação à Seleção Brasileira), mas que vencerá no sábado”.

Essa polêmica por Brasil e Argentina no futebol fica apenas na imprensa – principalmente na de cá – e já incomoda mais do que contribui. Afinal, os jogadores se conhecem e costumam se encontrar nos clubes pela Europa – alguns até são amigos.

Enquanto do lado de lá informam mais e julgam menos, aqui a imprensa parece querer estimular uma antiga rivalidade com muito “disse-que-disse” – e tem gente que acredita em tudo o que vê na telinha. Que vejam a partida e que seja um bom jogo! Porque o extra-campo que é noticiado “tá chato” mesmo.

quarta-feira, julho 08, 2009

Eis o mistério da fé

*Anderson Paes | www.twitter.com/andersonpaes

Dizem que o paraíso fica lá pros lados da Bahia. Não quero nem imaginar pra onde fica o inferno, mas é capaz de estar no Brasil também. O purgatório, lugar de parada para os que deixaram este mundo e esperam o julgamento final, faliu. O Papa anunciou que esta parada obrigatória para alguns deixou de existir. Não vi a cópia do Divino Fax – firmada em cartório – mas acredito.

E pra ter falido uma instituição tão antiga quanto essa – e olha que já faz algum tempo, nem foi culpa da crise –, ela deve ter sido muito mal administrada. Imagino que os réus que lá esperavam foram todos amparados por advogados brasileiros – nas leis da Terra de Vera Cruz, como lembra o amigo Eduardo Daniel. É possível que todos tenham conseguido habeas corpus e foram esperar no paraíso – céu azul, água de coco e um mar claro e quente do nordeste.

Outros dizem que o mandatário da casa empregou uns parentes e não quis sair de lá nem com vaga assegurada no paraíso. Eis que então o cara lá de cima resolveu chamá-lo pra uma conversa e deu no que deu. Mais uma instituição pública às moscas e gente desconfiada por toda parte. Melhor dizer que acabou mesmo.

quarta-feira, julho 01, 2009

Um presidente literário

*Anderson Paes | www.twitter.com/andersonpaes

Desde a campanha para a presidência em 2002 que ouvimos as várias metáforas de Luís Inácio Lula da Silva. São sete anos de um vasto repertório, para todo tipo de situação. Do arroz com feijão na Bahia ao momento crítico que vive o Irã. A grande maioria faz referência ao futebol. Um livro de metáforas presidenciais cairia bem – com prefácio dele, claro.

Fico imaginando as próximas eleições. Dilma Rousseff, que vai contar com o apoio de Lula, usará novas metáforas? Diz-se que em time que está ganhando não se mexe, mas imagine se o Lula se dedicasse mais às onomatopeias do que às metáforas: A situação do Irã pof!, O Palocci catapluft! Seria bem ilustrativo. Talvez até mais popular, como ele sempre quis, e uma carta na manga para 2010. Sem falar dos jornais que publicariam “sons” pela primeira vez.

Do outro lado do ringue vem Aécio ou Serra. E enquanto a oposição vai fazendo análise sintática, Lula leva no gogó e conquista o povo que o entende. Foi o que sempre faltou: o uso do idioma do povo. Se tudo continuar assim, apesar das crises alternadas no Senado e na Câmara, nada vai mudar tão radicalmente. Capaz de dar PT (Partido dos Trabalhadores) outra vez. Aí sim os demais vão bater pé pela reforma política – já está na hora.

Até lá, aos poucos vamos conhecendo a Dilma. Quem sabe ano que vem ela apareça com metáforas, onomatopeias, hipérboles, e apresente um novo estilo literário ao Brasil. O discurso dos outros já conhecemos... Hunf!
 

CONTATO
Colaboradores Ana Carla Teixeira, Anderson Paes, Camila Rufine, Carlos Karan, Deyse Zarichta, Eduardo Daniel, Emanuela Silva, Emanuelle Querino,
Emmanuel Carvalho, Fabiano Bordignon, Fabrício Espíndola, Francine de Mattos, Gabriel Guedes, Germaá Oliveira, Guilherme Marcon, Isabel Cunha, Kellen Baesso, Manuela Prá, Patrícia Martins, Thiago Antunes, Thiago Schwartz, Tiago Tavares, Valter Ziantoni,Van Luchiari, Vanessa Feltrin, Vitor S. Castelo Branco, Viviany Pfleger

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