Thiago Schwartz | www.twitter.com/perereco
Era junho. Durante uma viagem a trabalho, fui informado que minha avó
havia falecido. Desembarquei em Joinville, procurei voltar para Tubarão
o mais rápido possível, mas as empresas de ônibus conspiraram para me
fazer esperar a madrugada inteira para chegar em Tubarão.
Cheguei por volta das nove horas, deixei as malas em casa e fui direto para a funerária onde o velório estava acontecendo. As condolências, a tristeza, o inconformismo, tudo estava ali, como era de praxe naquele local.
Uma parente, que fazia salgadinhos de festa, providenciou um arsenal de coxinhas e refrigerante para alimentar os que haviam passado a noite velando Dona Tereza. Poucos comiam, não era de bom tom.
Em um determinado momento, precisei ir ao banheiro. O banheiro da funerária era muito bem equipado, possuía uma bela pia, um vaso sanitário branco, com descarga que permite a escolha do fluxo de água da descarga, entre outras modernidades.
Fiz o que tinha que ser feito, apertei o botão de descarga errado para a atividade, lavei as mãos e peguei duas folhinhas de papel-toalha (apenas duas são suficientes). Fiz uma bolinha e estiquei a mão para jogar na lixeira.
Não havia sido avisado que a lixeira, assim como o resto dos aparatos do banheiro, era muito moderna e possuía um sensor de movimento que abria a tampa automaticamente.
- Vó?
Definitivamente, coisas com sensores de movimento em funerárias não são legais.
*Thiago Schwartz | www.twitter.com/perereco
Publicado em 18/08/2009
Na lista de livros mais vendidos da Revista Veja de 19 de agosto desse ano, há uma consonância do segundo ao quinto lugares: Livros da série "Crepúsculo", da escritora americana Stephanie Meyer. Os quatro livros da série – Amanhecer, Lua Nova, Eclipse e Crepúsculo – encontram-se ali, praticamente desde que foram lançados. Trazem uma nova história de ficção, voltada ao público jovem, mais precisamente a mulheres entre 15 e 25 anos, "velhas demais para ler Harry Potter e jovens demais para ler Dostoiévski".
Basicamente, os livros contam a história de uma garota jovem (a identificação do público inicia-se aí), que se apaixona por um garoto jovem. Mas o garoto jovem é, na verdade, um vampiro [música de suspense]. A ficção, em especial este tipo de ficção fantasiosa, envolvendo lobisomens, vampiros e seres que brilham à luz do Sol, sempre esteve para o público feminino assim como a água benta está para o vampiro. No entanto, Stephanie consegue arrebatar este público com maestria, assim como J. K. Rowling fez com o público infanto-juvenil tempos atrás, com seu pequeno bruxo.
Mas qual o segredo desse sucesso de vendas? Na minha modesta opinião, houve um avanço significativo na arte de escrever histórias populares. As tramas não oferecem nenhum tipo de novidade, a não ser pelo modo que seu desenrolar é narrado. Os livros de hoje estão mais fáceis de ler, oferecem um auxílio descritivo fundamental na construção mental da aparência e do caráter de seus personagens (muitas pessoas, ao assistirem ao filme Crepúsculo, relatam que imaginavam o personagem principal exatamente da mesma maneira que foi retratado na película), o que acaba aproximando o jovem leitor do objeto de sua leitura. Talvez o ponto mais positivo nisso tudo seja também o negativo, pois se a autora define o personagem em seus mínimos detalhes, não sobra muito espaço para a imaginação do leitor. Em outras palavras, o leitor torna-se o espectador da trama, não parte dela. Não compartilha as emoções da encantadora Bella, apenas as visualiza, como visualiza as emoções da mocinha da novela das 8.
Só para estabelecer um parâmetro para o que quero dizer, compararei o início do livro Crepúsculo com o início do livro A Metamorfose, de Franz Kafka:
Meyer escreveu:
Minha mãe me levou ao aeroporto com as janelas do carro abertas. Fazia 24 graus em Phoenix, o céu de um azul perfeito e sem nuvens. Eu estava com minha blusa preferida – sem mangas, de renda branca com ilhoses; eu a vesti como um gesto de despedida. Minha bagagem de mão era uma parca.
Kafka escreveu:
Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.
Há uma discrepância a respeito da situação inicial dos dois personagens. Claro que o estilo de cada autor influencia na narrativa, mas esse é apenas um dos muitos exemplos que poderia dar a respeito. E continuaria sendo uma opinião pessoal. A minha é essa. Um livro é mais do que simples diversão, é um portal, por onde pode-se chegar onde o leitor quiser. Meu único medo nisso tudo é que o leitor acostume-se a não chegar a lugar algum.
*Thiago Schwartz | www.twitter.com/perereco
Chegou o final de ano, e com ele todas as nossas expectativas voltam-se a 2010. Mas pode-se dizer que 2009 foi um ano muito bom para o Gelo em Marte.
Inicialmente, vou tentar fazer um balanço baseado em números:
Estamos no ar, oficialmente, desde 28/06 (data do primeiro post, coincidentemente meu aniversário, data que persegue o GEM furtivamente desde sua origem). Foram cerca de 150 posts, entre textos, fotos e entrevistas. Vocês acessaram este humilde site cerca de 50 mil vezes (embora o contador oficial registre um pouco menos, mas ele foi colocado quase dois meses depois da inauguração da página), o que dá algo em torno de 12.500 visitas por mês, 416 visitas por dia, 17 visitas por hora e pof.
Seremos sempre gratos àqueles que nos ajudaram em nosso crescimento: Aos colaboradores fiéis, que sempre nos mostram um lado diferente de algum assunto, sob o ponto de vista único daquele que sabe o que dizer; aos colaboradores menos assíduos, mas que tiveram seus nomes eternizados em nosso humilde rol; aos parceiros e divulgadores do site, seja através de Twitter, blogs, sites, boca a boca, enfim, a todos que leram nossa mensagem, acharam interessante e passaram adiante.
O que esperar para 2010? Não sei A mesma qualidade de sempre, com novos e antigos colaboradores, novos textos, novas fotos, novos eventos que ocorrerão no dia 28 de junho...
De minha parte, um ótimo final de ano para todos vocês, um 2010 com muitas promessas cumpridas, muitas outras quebradas, algumas esquecidas, como todo bom ano novo.
*Thiago Schwartz | www.twitter.com/perereco
Dezembro está aí, e com ele alguns (incluindo este que vos fala) são acometidos de uma doença ainda não completamente desvendada pela ciência: a Dezembrofobia.
Fases da Dezembrofobia:
Estágio inicial – A ansiedade. Geralmente manifesta-se no dia 1º. A espera do último salário do ano é angustiante. Mas lá pelo dia 10 ele chega, geralmente acompanhado de um amiguinho conveniente, o 13º.
Segundo estágio – A dor. Lá está você, com 150% do seu salário em uma das mãos, e um bolo de contas na outra. Você tem dinheiro, um dinheiro considerável. Dava até pra fazer uma mala e sair da cidade, vivendo como um riponga por alguns meses. Mas você não vai fazer isso. Vai pagar as contas.
Terceiro estágio – A culpa. Contas pagas, alívio. Não. Por causa delas – as contas –, sua sobrinha ficará sem a boneca que arrota. Por causa delas você não poderá dar um Pinot Noir pro pessoal da coleta de lixo. Eles vão ter que se contentar com o garrafão de "coquetel de uva" (aquela cachaça misturada com Q-Suco) tradicional de todo ano.
Quarto estágio – A ira. Vem o amigo secreto da firma. E você sempre tira alguém de outro setor. Que você cumprimenta 2 vezes por ano (uma delas na festa de amigo secreto, a outra por volta de maio, no corredor). Pra agradar, você dá aquele presente legal pro seu amigão, gastando algo que não gastaria para comprar um presente para sua mãe. E ganha, em contra-partida, um vale-cd da loja localizada no ponto mais distante possível em relação a sua casa.
Quinto estágio – A dúvida. Sua mulher diz que quer um presente. Mas não diz qual. Quer que você adivinhe o presente. Que olhe para o presente e pense: " Nossa, como esse presente me faz lembrar o meu amor... Que momento sublime iremos ter juntos com esse presente. Como ver ela ganhando esse presente me faz feliz". Num shopping center lotado, dia 23. E sim, você vai errar na escolha. Mas com alguma sorte, essa será a última briga do ano.
Sexto estágio – A revolta. Aparecem os itens mágicos de Natal. Um exército de Chesters, Perus e Tenders invade as prateleiras frias do supermercado. E, de acordo com sua mulher, todos são indispensáveis na ceia de Natal, mesmo que o tal do Tender fique rolando na geladeira por uns 4 dias, e acabe sendo cortado em cubinhos e colocado no "Arroz de forno" do jantar do dia 31.
Estágio final – A aceitação. É dia 26: Todos os sobrinhos já ganharam presentes (e detestaram as bonecas que não arrotam), o cara da coleta de lixo olha você com cara feia e "esquece" de pegar seu lixo por duas semanas, o vale-cd sobre a mesinha da sala, sua mulher ainda não conversa com você, você come o último pão do saquinho, recheado com um pedaço gelado de Tender (e pão agora só ano que vem, Papai Noel levou o dinheiro do mês). Dezembro está oficialmente acabando. Contagem regressiva. Amanhã eu vou pra praia, vou tirar a camiseta, passar o protetor fator 60, botar o pezinho n'água, fingir que estou lendo um livro pra poder olhar a mulherada sem levar bronca da patroa...
Ligam do escritório: Balanço anual na mesa do chefe pro dia 31. À tarde.
*Thiago Schwartz | twitter.com/perereco
Durante muitos anos (mais precisamente, desde 1998), convivia com uma certeza: A morte é inevitável.
Mas todos os conceitos humanos são passíveis de dúvida e refutação, e a morte é um deles. É possível enganar a morte, e prolongar sua vida por quanto tempo sua habilidade permitir.
Me refiro, claro, ao jogo SkiFree. O popular joguinho no qual você, no papel de um bravo esquiador, deve percorrer um percurso recheado de obstáculos, como montinhos de neve, árvores, cachorros e outros esquiadores de fim de semana.
Como é do conhecimento de todos, após a linha de chegada, percorrendo-se alguns metros, o nosso nobre cavaleiro encontra-se com aquilo que nos parece inevitável: O monstro cinza com bracinhos finos e cara de mau. Ele se aproxima, voraz, sedento pela carne de nosso heroi, enquanto olhamos para a cena com uma sensação de impotência, prevendo o final triste da história.
A morte, surda, caminha ao meu lado...
Até que hoje recebi a visita do Anjo da Anunciação ( XKCD), que do alto de sua sabedoria, bradou-me: "Aperte o F".
Imediatamente baixei o jogo, com o objetivo de testar aquela receita da imortalidade. E como preconizado, o valente esquiador tornou-se uma verdadeira flecha, singrando as neves, rumo ao infinito. Pelo menos durante mais alguns segundos, quando uma pedra frustrou aquela tentativa de libertação dos grilhões da inefável morte. Talvez a morte realmente seja inevitável, mas por alguns segundos ela foi enganada, posta em xeque, por aquele bravo homem de roupas coloridas.
*Thiago Schwartz | www.twitter.com/perereco
Essa semana comecei a ler O Pequeno Príncipe. Confesso que tinha certo preconceito contra esse livro, mas li. Devorei metade do livro em alguns minutos, e não pararia, não fosse o sono daquela quase madrugada.
O jeito como Saint-Exupéry escreve é algo de extraordinário. Frases curtas, diretas, mas ao mesmo tempo lúdicas, que nos fazem desdobrar as milhares de possibilidades de cada uma. A impressão é que, cada vez que lermos o livro, imaginaremos cenas totalmente diferentes, de tantas nuances possíveis para o pensamento conhecer.
De repente, consegui entender o que atrai tanto nesse livro: A simplicidade. Os fatos, por mais surreais, foram narrados com uma simplicidade tanta que os tornam corriqueiros, como se fizessem parte de nossas vidas há tempos, e só não nos damos conta disso por estarmos ocupados demais com nossas próprias visões de realidade.
Essa simplicidade faz com que nos aproximemos do personagem, e comecemos a enxergar a narrativa sob outra perspectiva. O princepezinho deixa de ser apenas um pedaço do livro e passa a ser uma espécie de companhia, como um amigo que viaja conosco através da história.
E é essa simplicidade que nos faz pensar. Talvez a vida seja mesmo simples, e as preocupações que impomos sobre ela acabam por nos impedir de enxergar o que há de realmente importante. Resolver problemas, ganhar dinheiro e pagar contas são coisas importantes sim, mas são apenas meios, não metas. Muita gente faz disso um objetivo e aos poucos vai esquecendo o pequeno príncipe de cada um, que está lá no asteroide, olhando a vida de cima, à espera de uma chance de descer e pedir um desenho de carneiro.
Sempre tive como livro favorito O Apanhador no Campo de Centeio. Caulfield e sua ranzinzice sempre foram parte importante na minha formação pessoal e pseudo-literária. Mas a partir de hoje, além de ter que cuidar de sua irmãzinha Phoebe, Holden terá a companhia de um garotinho loiro, de olhos verdes, que tem medo de baobás e revolve vulcões.
*Thiago Schwartz | www.twitter.com/pererecoA ilusão tomou conta daquele coração tão puro e cheio de esperança. A ilusão de um futuro longe dos que lhe faziam algum tipo de mal. Entorpecido por essa ilusão, ele voa. Para longe, para algum lugar desconhecido.
Longe, onde nem os pássaros conseguem voar, onde nem o Sol consegue mostrar sua luz. Ele voa. Lágrimas secas pelo vento. Tudo lhe vem à cabeça. Sonhos, esperanças, mentiras, amores.
Nada faz sentido. Ele está cansado e enojado daquilo. Ele quer descanso. Ele só quer voar...
Você pode ouvir? São as vozes que invadem sua cabeça. Mandam-lhe fazer coisas que ele nem sempre gosta. Coisas que ele nem sempre faz, e por isso as vozes lhe castigam. Ele se retorce de culpa, de dor, de saudade. Mas agora é muito tarde. Ele já as ouviu. Ele interrompe seu voo. Chegou a um lugar claro como o luar. Ele está sozinho, mas não se sente assim. Uma sensação diferente toma-lhe conta. Não é uma sensação boa, nem ruim, apenas diferente. Logo que se acostuma com a sensação, vem a ele uma mulher. Roupa branca, cabelos loiros, compridos, enorme sorriso de dentes alvos. Tem na mão um pedaço de papel. Escrito no papel, uma sentença. Ela lê para ele. Com voz doce e macia, pronuncia a palavra "Culpado". As vozes estavam certas, não há perdão para os que fogem.
No Paraíso não há dor, apenas a ausência do homem que queria voar.
*Thiago Schwartz | www.twitter.com/pererecoO aumento nos casos de alergia respiratória e alimentar nas últimas gerações, constatado através de diversos estudos teóricos e empíricos, revela aquilo que desconfiávamos há tempos: O excesso de limpeza afeta o desenvolvimento do sistema imunológico do ser humano. Nas gerações atuais, existe uma espécie de ojeriza à sujeira. Os pais, quase sempre com uma visão de curto prazo a respeito do assunto, privam os filhos de certos prazeres inerentes à sujeira. Andar descalço é um sacrilégio. Jogar bola no pasto lamacento, nem pensar. Na minha humilde opinião, essa redoma de limpeza tem início desde o nascimento da criança. Pedir para uma mãe utilizar uma fralda de pano é considerado um crime. Não imagino uma criança criada no leite com pera tomando água como fazíamos antigamente, após os joguinhos de futebol (leia uma descrição perfeita do método aqui). Hoje em dia, devem levar água numa garrafinha térmica ou num daqueles squeeze. Conheço pessoas com seus 18, 19 anos, que nunca pegaram bicho de pé. Que nunca quebraram o braço por pendurarem-se num galho podre de goiabeira. Que nunca arrancaram a unha do dedão chutando uma bola molhada. Meu filho vai ter bicho de pé. Vai aprender a tirar o bicho de pé com uma agulha. Vai aprender que quando a bola estiver molhada, tem que bater de lado de pé, senão a unha voa. Vai aprender que mexer na terra não vai fazer ele ficar doente. Que brincar com o cachorro não é uma atividade de risco. Que antissépticos com agentes bactericidas que matam 99% dos germes não curam tão bem uma ferida quanto uma esponja com sabão e um beijo de mãe. Vai aprender a brincar sem ter que ficar se policiando sobre a coisa certa a ser feita. A sujeira sai no banho, à noite.
Imagem retirada do site http://letras.terra.com.br/ | Autor desconhecido
O esperado dia do eclipse
*Anderson Paes | www.twitter.com/andersonpaes
No dia 17 de agosto de 1989, a Lua se apagou completamente no céu. Quatro dias depois (21), Raul Seixas partiu numa viagem interestelar – como dizem alguns fãs. Coincidência ou não, no dia 25 daquele mês a sonda espacial Voyager 2 chegou ao planeta Netuno...
Raul, diferente do que as reportagens de hoje vão dizer, foi além da música. Questionou o Universo, o Homem, a Fé. Formou e informou muita gente do que é o início, meio e fim deste mundo que não quer parar. Contou das coisas que viu, leu e aprendeu – ensinou assim.
Alguns o chamaram de profeta do apocalipse, outros acusaram de todos os tipos de bruxaria. Provavelmente teria sido queimado vivo nos tempos da inquisição. Um alquimista das palavras. Raul experimentou este mundo, sem frescura. Avisou que só o entenderiam “no esperado dia do eclipse”. Talvez por algum motivo que ele já soubesse, talvez aquela tal “velocidade da luz pra alcançar”.
Hoje, 20 anos depois, Raul ainda é citado, cantado, pedido – “Toca Raul” até virou tema de música –, e continua abrindo cabeças, lembrando ideias quase esquecidas por aqui.
Naquela semana em que a Lua se apagou, seus fãs disseram “até a próxima” e até um repórter compartilhou e sentiu aquela despedida (veja o link no fim deste artigo). No dia 31, ainda em 1989, o Sol também se apagou.
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O lado B de Raul
*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel
Eu poderia buscar inspiração na Ilha da Fantasia, na rodoviária, na beira do pantanal, em Anarkinópolis, ou nas minas do Rei Salomão. Mas não. Gostaria mesmo era de estar no dia em que a Terra parou, enquanto pulava o muro no fundo do quintal da escola, para ler a lei das profecias e descobrir por quem os sinos dobram e o segredo do universo.
Quem sabe apanho o trem das sete, movido a álcool, até o novo aeon. Aos trancos e barrancos vou acompanhar as aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor. Se perguntares por quê? Eu respondo que sim, eu quero ir!
E se levar um tapa na cara, mando um SOS para os super-heróis, o moleque maravilho ou o cowboy fora da lei. Eu que não fico escutando conversa pra boi dormir. Antes convido Ângela ou Alice Maria para rezar uma Ave Maria da Rua com o pastor João e a Igreja invisível.
De cabeça para baixo, traço planos de papel, neste eterno Carnaval, mandando um som para Laio, atrás de você para entoar um canto para a minha morte ou uma canção do vento.
Se todo mundo explica, você ainda pode sonhar e, meu piano e minha viola, só pra variar, estão prontos para cantar, coisas do coração, uma cantiga de ninar ou um chorinho inconsequente.
Só porque você roubou meu vídeo cassete, calcei meu sapato 36, passei um DDI para Judas e fui curtir um rock das aranhas.
Vovó já dizia que ando muito dorminhoco e que o Dr. Pacheco não vê isso como uma brincadeira. Preciso fazer um check-up. Se o rádio não toca, meu amigo Pedro diz que eu sou egoísta. Mando ele parar de paranóia e pegar o trem 103.
Em uma mata virgem, nos anos 80 ou no século XXI, durante um banquete de lixo, encontro um diamante de mendigo. Esqueço Vera Verinha, Maria, e com a loba deito sob a lua cheia, fazendo o que o diabo gosta.
Ê meu pai, pagando brabo a gente leva a vida à prestação. O negócio é que é fim do mês e nem que eu faça, fuce, force, a placa de "aluga-se está na pedra do Gênesis. Não quero mais andar na contramão, mas não adianta ser um carpinteiro do universo, pois serei um canceriano sem lar.
Não adiantou aconselhar para que tente outra vez ou conserve seu medo. A areia da ampulheta acabou e tá na hora, na hora do trem passar.
Não posso ficar um minuto mais. Mesmo que acerte na loteria da Babilônia. Eu também vou reclamar e num cambalache descubro que luz é essa.
E parafraseando Raulzito na música Os números: eu falei de tanto assunto, talvez esqueci algum, mas as coisas que eu disse não são lá muito comum... quem souber que conte outro, ou que fique sem nenhum.
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Sob o signo de câncer
*Thiago Schwartz | www.twitter.com/perereco
Eu sempre gostei de Raul. Gostaria de ter presenciado mais de sua carreira em vida, mas ele nos deixou quando eu ainda tinha 5.
Quando criança, eu adorava Plunct Plact Zum e Ouro de tolo. E adorava a ideia de ser uma mosca na sopa de alguém, embora na época eu não entendesse que isso fosse algo ruim. Mas me chamava a atenção em especial a música "Canceriano sem lar".
Eu tinha uns 8 anos quando escutei essa música pela primeira vez. Achei engraçada aquela letra, praticamente um mantra do ócio ( "Estou sentado em minha cama / Tomando meu café pra fumar"). Achei engraçado o fato de Raul Seixas ter o mesmo signo que eu, e sentir algumas coisas que eu também sentia. Uma melancolia subversiva, uma saudade de não-sei-o-quê misturada com a revolta por não estar onde se quer, e sempre querer estar longe dali.
Gostava das roupas, do misticismo, da bichogrilice. Gostava até de Paulo Coelho (até descobrir que ele também escrevia).
De algum modo especial, eu entendo Raul. Sinto uma espécie de orgulho, por ter nascido no mesmo dia que ele (28 de junho). Tanto orgulho que tudo o que eu escrever aqui será pequeno e inútil. E não chegará nem perto daquilo que quero dizer.
Definitivamente, hoje é feriado. É o dia da saudade.
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Links:
#1 Reportagem sobre Raul Seixas no Globo Repórter
#2 Ouça a música “O Homem”
*Os dois links levam a vídeos disponíveis no YouTube
e serão abertos numa nova janela.
*Thiago Schwartz | www.twitter.com/perereco
Na lista de livros mais vendidos da Revista Veja de 19 de agosto desse ano, há uma consonância do segundo ao quinto lugares: Livros da série "Crepúsculo", da escritora americana Stephanie Meyer. Os quatro livros da série – Amanhecer, Lua Nova, Eclipse e Crepúsculo – encontram-se ali, praticamente desde que foram lançados. Trazem uma nova história de ficção, voltada ao público jovem, mais precisamente a mulheres entre 15 e 25 anos, "velhas demais para ler Harry Potter e jovens demais para ler Dostoiévski".
Basicamente, os livros contam a história de uma garota jovem (a identificação do público inicia-se aí), que se apaixona por um garoto jovem. Mas o garoto jovem é, na verdade, um vampiro [música de suspense]. A ficção, em especial este tipo de ficção fantasiosa, envolvendo lobisomens, vampiros e seres que brilham à luz do Sol, sempre esteve para o público feminino assim como a água benta está para o vampiro. No entanto, Stephanie consegue arrebatar este público com maestria, assim como J. K. Rowling fez com o público infanto-juvenil tempos atrás, com seu pequeno bruxo.
Mas qual o segredo desse sucesso de vendas? Na minha modesta opinião, houve um avanço significativo na arte de escrever histórias populares. As tramas não oferecem nenhum tipo de novidade, a não ser pelo modo que seu desenrolar é narrado. Os livros de hoje estão mais fáceis de ler, oferecem um auxílio descritivo fundamental na construção mental da aparência e do caráter de seus personagens (muitas pessoas, ao assistirem ao filme Crepúsculo, relatam que imaginavam o personagem principal exatamente da mesma maneira que foi retratado na película), o que acaba aproximando o jovem leitor do objeto de sua leitura. Talvez o ponto mais positivo nisso tudo seja também o negativo, pois se a autora define o personagem em seus mínimos detalhes, não sobra muito espaço para a imaginação do leitor. Em outras palavras, o leitor torna-se o espectador da trama, não parte dela. Não compartilha as emoções da encantadora Bella, apenas as visualiza, como visualiza as emoções da mocinha da novela das 8.
Só para estabelecer um parâmetro para o que quero dizer, compararei o início do livro Crepúsculo com o início do livro A Metamorfose, de Franz Kafka:
Meyer escreveu:
Minha mãe me levou ao aeroporto com as janelas do carro abertas. Fazia 24 graus em Phoenix, o céu de um azul perfeito e sem nuvens. Eu estava com minha blusa preferida – sem mangas, de renda branca com ilhoses; eu a vesti como um gesto de despedida. Minha bagagem de mão era uma parca.
Kafka escreveu:
Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.
Há uma discrepância a respeito da situação inicial dos dois personagens. Claro que o estilo de cada autor influencia na narrativa, mas esse é apenas um dos muitos exemplos que poderia dar a respeito. E continuaria sendo uma opinião pessoal. A minha é essa. Um livro é mais do que simples diversão, é um portal, por onde pode-se chegar onde o leitor quiser. Meu único medo nisso tudo é que o leitor acostume-se a não chegar a lugar algum.
*Thiago Schwartz | www.twitter.com/perereco
Moro em Tubarão, Santa Catarina. Cidade pacata, mas acometida de um mal muito grande nessas últimas semanas. Não me refiro à nova gripe, e sim à paranoia que está sendo criada em torno dela na região.
Todos os dias são novas notícias que chegam. Informações desencontradas populam em todos os meios de comunicação, mas é no boca-a-boca que a tragédia se forma: parentes infectados, pessoas públicas em estado grave, qualquer tosse em público se torna uma nota de falecimento no dia seguinte. Um exemplo bem definido disso diz respeito a um médico de renome na cidade.
No Domingo, recebi de minha senhora (que trabalha no shopping) a notícia que o tal médico havia morrido, da maldita gripe suína. Como bom brasileiro, sem checar as fontes liguei para minha mãe e contei o ocorrido. Ela ficou momentaneamente chocada e desligou o telefone. No outro dia, todos sabiam que o médico tinha esticado as canelas por culpa do vilão da vez.
A balbúrdia foi tanta em cima da morte do doutor, que o mesmo se viu obrigado a ir na rádio e declarar: " Gente, eu tô vivo". Alguns pacientes seus correram para o local onde ele dava plantão, para verificar se era realmente verdade que o médico não havia sido mais uma vítima.
O médico foi sim uma vítima. Uma vítima da paranoia que se formou em torno desta questão. Uma das milhares de mortes que não foram confirmadas, mas que permeiam as conversas dos populares. Um dos que, como muitos, "teve a morte ocultada pelas autoridades, como uma forma de evitar o pânico e manter o status quo"...
Só esqueceram de avisar ao médico de que ele deveria estar morto.
*Thiago Schwartz | www.twitter.com/pererecoHá mais ou menos dois meses, abriu na esquina da rua de casa uma quitanda. Sim, uma quitanda. Um espaço bastante restrito, onde disputavam espaço as verduras, as frutas, os legumes, as garrafas de melado, a água, os mantimentos e o carvão. Basicamente isso. E um balcão, cheio de balas, que faz sucesso entre a garotada ali do bairro. As frutas, mirradas, não têm condição de fazer frente às grandes e bonitas frutas do supermercado. Mas todas carregam uma espécie de orgulho, próprio daqueles que se recusam a fazer parte disso tudo, em nome da tradição da quitanda. Por volta das 18 horas, o dono da quitanda coloca algumas mesas de plástico na varandinha, para receber os senhores que estão por vir. É a transfiguração da quitanda. Senhores de meia-idade – alguns já na terceira – iniciam uma procissão casa-boteco e, uma vez lá, tem início o ritual sagrado, realizado diariamente: Pedem um aperitivo (quase sempre amendoim, por ser mais barato), uma cerveja, e começam a discutir os assuntos mais importantes do cotidiano. Futebol, coisas do passado e futebol do passado. Quase sempre a conversa gira em torno disso. Sobre como os tempos antigos eram melhores que os de agora. É fácil ver lágrimas nos olhos de um senhor ao falar dos tempos de FerroLuz. Aquilo sim era clássico, não o Flamengo x Corinthians sofrível que passou na televisão domingo. A quitanda que abriu na esquina da minha rua é uma espécie de portal. A vontade das pessoas que frequentam a quitanda fez com que o tempo lá corresse numa velocidade diferente do resto do mundo. Os rostos envelhecem, os corpos minguam, as línguas tropeçam – algumas por força do excesso –, mas o romance dos tempos idos, tão bem lembrados por Cartola, continua lá, somente à espera de alguém que o reviva.
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