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segunda-feira, janeiro 04, 2010

O fenômeno Lua Nova

*Thiago Schwartz | www.twitter.com/perereco

Publicado em 18/08/2009

Na lista de livros mais vendidos da Revista Veja de 19 de agosto desse ano, há uma consonância do segundo ao quinto lugares: Livros da série "Crepúsculo", da escritora americana Stephanie Meyer. Os quatro livros da série – Amanhecer, Lua Nova, Eclipse e Crepúsculo – encontram-se ali, praticamente desde que foram lançados. Trazem uma nova história de ficção, voltada ao público jovem, mais precisamente a mulheres entre 15 e 25 anos, "velhas demais para ler Harry Potter e jovens demais para ler Dostoiévski".

Basicamente, os livros contam a história de uma garota jovem (a identificação do público inicia-se aí), que se apaixona por um garoto jovem. Mas o garoto jovem é, na verdade, um vampiro [música de suspense]. A ficção, em especial este tipo de ficção fantasiosa, envolvendo lobisomens, vampiros e seres que brilham à luz do Sol, sempre esteve para o público feminino assim como a água benta está para o vampiro. No entanto, Stephanie consegue arrebatar este público com maestria, assim como J. K. Rowling fez com o público infanto-juvenil tempos atrás, com seu pequeno bruxo.

Mas qual o segredo desse sucesso de vendas? Na minha modesta opinião, houve um avanço significativo na arte de escrever histórias populares. As tramas não oferecem nenhum tipo de novidade, a não ser pelo modo que seu desenrolar é narrado. Os livros de hoje estão mais fáceis de ler, oferecem um auxílio descritivo fundamental na construção mental da aparência e do caráter de seus personagens (muitas pessoas, ao assistirem ao filme Crepúsculo, relatam que imaginavam o personagem principal exatamente da mesma maneira que foi retratado na película), o que acaba aproximando o jovem leitor do objeto de sua leitura. Talvez o ponto mais positivo nisso tudo seja também o negativo, pois se a autora define o personagem em seus mínimos detalhes, não sobra muito espaço para a imaginação do leitor. Em outras palavras, o leitor torna-se o espectador da trama, não parte dela. Não compartilha as emoções da encantadora Bella, apenas as visualiza, como visualiza as emoções da mocinha da novela das 8.

Só para estabelecer um parâmetro para o que quero dizer, compararei o início do livro Crepúsculo com o início do livro A Metamorfose, de Franz Kafka:

Meyer escreveu:
Minha mãe me levou ao aeroporto com as janelas do carro abertas. Fazia 24 graus em Phoenix, o céu de um azul perfeito e sem nuvens. Eu estava com minha blusa preferida – sem mangas, de renda branca com ilhoses; eu a vesti como um gesto de despedida. Minha bagagem de mão era uma parca.

Kafka escreveu:
Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.

Há uma discrepância a respeito da situação inicial dos dois personagens. Claro que o estilo de cada autor influencia na narrativa, mas esse é apenas um dos muitos exemplos que poderia dar a respeito. E continuaria sendo uma opinião pessoal. A minha é essa. Um livro é mais do que simples diversão, é um portal, por onde pode-se chegar onde o leitor quiser. Meu único medo nisso tudo é que o leitor acostume-se a não chegar a lugar algum.

5 comentários:

Bel disse...

Excelente texto, concordo com você... Tenho 20 anos e li todos livros da série, por insistência de uma amiga, mas sempre valorizei outras obras mais complexas. Se prender em obras com linguagem tão simples, é subestimar o intelecto humano. Afinal, as obras escritas por, Kafka (usando o exemplo já citado), também foram escritas por um humano e para humanos, portanto não há motivos para amedrontar-se com a linguagem utilizada. Na verdade, o ser humano tem preguiça até de entender textos pouco mais complexos, e que por fim, enriquecem nosso vocabulário. Literaturas como "Crepúsculo" são importantes até certo ponto; que é o ponto de incentivo à literatura. Com certeza um jovem que leu esse livro e gostou, buscará outras leituras e mais tarde não se importará com o vocabulário. Porém isso é uma coisa que deve ser pensada com foco em nossas crianças, e não para pessoas entre 15 e 25 anos, que já teem uma capacidade mental e intelectual maior, portanto poderiam ler obras mais complexas. Devemos estimular nossas crianças, e não os adultos. Interessante que, há alguns dias, li que cientistas fizeram um estudo com 2 grupos de leitores, sendo que para um deles deram um livro com passagens sem sentido/muito complexas e o outro grupo recebeu llivros comuns; no fim, o que recebeu os livro com passagens sem sentido, aumentou notavelmente sua capacidade intelectual e de compreensão liteária, e o que leu o livro comum, permaneceu igual. Portanto não devemos nos deixar acomodar. Desafios são sempre bem-vindos!
Mas é claro, seu texto ficou excelente, e acredito que pela deixa do fim, você chegou numa mesma conclusão que eu! :D Parabéns!

Anônimo disse...

Não acho que pessoas de 15 anos são novas para Dostoievsk, afinal, quando li pela primeira vez Crime e Castigo eu tinha apenas 14 :D

Santo disse...

Concordo com a Bel ali em cima até certo ponto.

Concordo que com o passar da idade o ser humano deveria se habituar com leituras mais complexas e mais ricas e valiosas, mas não acho que os livros de linguagem mais simples devam se perder.

Acredito que toda pessoa tem direito a resfriar a mente, colocar a mente no off pra relaxar. Isso não só nos livros, mas na TV, enfim... tudo.

E esse tipo de literatura serve justamente pra isso. O problema é quando o que deveria ser uma breve fuga da realidade se torna um modo de vida, quando os únicos livros lidos são "Crepúsculos", os únicos programas são os "Zorras Totais", etc, etc...

Márcia Denardi disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Márcia Denardi disse...

Leitura é sempre leitura. Sim, à medida que o ser humano adquire uma capacidade intelectual mais rica, ele vai atrás de livros com linguagem mais aprofundada. Mas afinal, por que motivo as pessoas buscam mergulhar na leitura? Para adquirir um vocabulário mais rico ou pelo prazer que o livro propicia, ou ainda por ambos os motivos? Quando o prazer pela leitura é atrelada ao interesse pelo conhecimento, é óbvio que o vocabulário se torna melhor, e o intelecto se acostuma com termos mais complexos. Mas não podemos simplesmente largar mão do prazer de livros com histórias simples só para engrandecer o ego e dizer que estamos prontos para leituras complexas. A leitura, feita com prazer, faz o vocabulário e o intelecto melhorarem, independentemente de ser complexa ou simples. Quanto aos detalhes, creio sim, que eles pode poderiam ser menos constantes nos livros, mas não tiro a riqueza deles. Pois o que seria de nossos autores clássicos, como Machado de Assis e companhia Ltda., cujos maiores atributos vinham de sua capacidade criativa em descrever minuciosamente os detalhes dos personagens e cenários em seus livros.

Achei maravilhoso seu texto, Thiago. Você conseguiu passar sua crítica da forma mais objetiva possível. Ah, já estou no limite etário para ler Crepúsculo, mas amei os livros, e já passei faz tempo da faixa etária dos viciados em Harry Potter, mas ainda assim, não consigo deixar de amá-lo.

Grande abraço
Márcia Denadi

http://marciadenardi.blogspot.com

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