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domingo, agosto 16, 2009

O silêncio de agosto

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Não era o sol em suas horas extras nos dias que dissipavam o Inverno que anunciava a chegada da Primavera. O que sempre lembrou a chegada dos aprazíveis meses primaveris eram as bandas dos colégios do meu bairro ensaiando para o 7 de Setembro.

Em especial, todos paravam para ver a charanga da Escola Técnica Diomício Freitas, o CIP, do Bairro Santo Antonio de Pádua, em Tubarão, ao Sul de Santa Catarina. A fanfarra é regida há 22 anos por Adilson Carvalho da Costa, o Da Costa.

Da Costa é um negro de porte altivo, garboso e soberano. Tem 60 anos e sua altura não esconde seu passado. O maestro da banda do CIP é ex-goleiro do Comerciário (hoje Criciúma), do Ferroviário (de Tubarão), do Grêmio, do Internacional, do Botafogo, da Portuguesa, do Guarani e do Figueirense. Se no desfile, sempre perdemos para os colégios Dehon e São José – nunca toquei na banda, mas o CIP era a minha segunda casa – em campo, Da Costa é motivo de orgulho com seus quatro títulos estaduais: um pelo Comerciário, um pelo Figueirense, um pelo Ferroviário e outro pelo Guarani. O ex-arqueiro encerrou a carreira por conta de uma hérnia de disco.

De longe, quando a luz do dia se despedia de mansinho, o repicar das caixas com suas duas peles esticadas dando o som característico das marchas militares, a batida grave do bumbo, o coração da bateria, dependurado no peito do músico por um talabarte, repercutido em ambas as membranas por duas macetas que voavam malabaristicamente de um lado a outro, o ganido metálico dos címbalos de latão, golpeados um contra o outro deixando-se vibrar livremente, o acompanhamento exato dos metais com o trombone de vara, a tuba enrolada ao aluno como uma serpente e o canto estridente do trompete, anunciavam a charanga.

Moradores da redondeza abandonavam o Professor Raimundo e sua escolinha sozinhos dentro de casa e corriam para ver por mais uma vez a banda. Uns abriam as janelas, outros iam aos portões e muros. Os vizinhos ainda conversavam. As mães eram donas de casa. Os pais haviam recém chegado do trabalho com os pés apertados nos sapatos, o suor na testa, a camisa amassado com os últimos botões já abertos.

Crianças de bicicleta e os cachorros da vizinhança seguiam a charanga pela meia dúzia de quadras em que desfilavam. Os músicos tentavam se concentrar, mas sorrisos escapavam pelos cantos dos lábios. Orgulho e vergonha andavam lado a lado nos sentimentos daqueles privilegiados.

Para quem precisava andar próximo da banda o mais complicado era não entrar no passo da marcha. O pé direito teimava em pisar mais forte, no batimento cardíaco do bumbo.

Entre as quatro fileiras de instrumentistas, Da Costa ordenava com os silvos de seu apito imperioso os toques precisos. O maestro deixava seus braços soltos em paralelo a seu corpanzil. Saltava com a leveza de um Ademir da Guia vestido com a camisa da Academia do Palmeiras e ameaçava tocar nos fios dos postes.

Neste ano infelizmente, por desgraça, a Gripe Suína não roubou apenas espaços imensuráveis nos assuntos cotidianos, furtou-me também o prazer lúdico de acompanhar os sons marciais como se eu fosse ainda um moleque, escorado com meus cotovelos imberbes no muro da casa onde passei a infância. Sem aulas, sem ensaios.

A primavera vai chegar sem alardes. Só as flores irão saudá-la.

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CONTATO
Colaboradores Ana Carla Teixeira, Anderson Paes, Camila Rufine, Carlos Karan, Deyse Zarichta, Eduardo Daniel, Emanuela Silva, Emanuelle Querino,
Emmanuel Carvalho, Fabiano Bordignon, Fabrício Espíndola, Francine de Mattos, Gabriel Guedes, Germaá Oliveira, Guilherme Marcon, Isabel Cunha, Kellen Baesso, Manuela Prá, Patrícia Martins, Thiago Antunes, Thiago Schwartz, Tiago Tavares, Valter Ziantoni,Van Luchiari, Vanessa Feltrin, Vitor S. Castelo Branco, Viviany Pfleger

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