*Gabriel Guedes | www.twitter.com/gabrielzguedes
Publicado em 06/09/2009
Ainda da série das informações “represadas”, recordei hoje de uma história que captei na minha última estada em Tubarão, no começo de maio. Na verdade, soube desta informação durante uma rápida passagem, a negócios, em Gravatal. Vou falar de Anitápolis.
— Alguém já ouviu falar?
Anitápolis é um de vários minúsculos municípios do meu Estado que vivem praticamente isolados. Sim, por que existe mais estrada de chão do que asfalto para chegar até lá. Distante 96 quilômetros de Tubarão e outros 97 de Florianópolis, é lá que nasce o principal afluente do Rio Tubarão: o Rio Braço do Norte, que verte do encontro das encostas da Serra Geral, da Boa Vista e do Tabuleiro. Uma região de enorme beleza natural e que conta com uma das maiores áreas de mata atlântica preservada em Santa Catarina. Colonizada por imigrantes alemães, os seus 3,2 mil habitantes são gente simples e que subsistem da agricultura. Agora eles vivem um dilema: instalar ou não uma mina, a céu aberto, de fosfato para fabricação de fertilizantes?
Num lugar tão distante de qualquer grande centro urbano, é normal que se tenha uma ânsia pelo desenvolvimento econômico. Principalmente quando se fala em geração de empregos em larga escala. Soube que devem ser gerados cerca de 2 mil empregos, entre diretos e indiretos. E o prefeito Saulo Weiss (PMDB) estaria empolgadíssimo.
A primeira licença para a instalação já foi dada pela Fundação Estadual de Meio Ambiente (Fatma). Claro, isso não demorou porque se trata de um empreendimento da gigante alimentícia Bünge, por intermédio da Indústria de Fosfatados Catarinense Ltda. Onde há um forte lobby. E se tratando da Fatma, há que se desconfiar mais que duas vezes. Segundo o pessoal da Fepam (a fundação de proteção ambiental gaúcha), a Fatma tem fama de ser “frouxa”. E num governo como o de Luiz Henrique da Silveira (PMDB) – que apoiou o descarado “código florestal catarinense” –, dizem que a Fatma, assim como outros órgãos do Estado, são loteados politicamente. Logo, sem critérios racionais.
Tubarão precisa se mobilizar: o projeto prevê a construção de uma barragem de 80 metros de altura no Rio Pinheiros, afluente do Braço do Norte–Rio Tubarão, onde ficarão retidos os dejetos tóxicos da extração do fosfato.
Imagine a catástrofe: numa região em que a água já é castigada pela extração de carvão mineral, ter uma barragem gigantesca retendo resíduos tóxicos e que pode arrebentar a qualquer momento, bastando uma chuva torrencial para iniciar o desastre. Qualquer vazamento é fatal para todas as cidades que dependem do Rio Braço do Norte e Tubarão, além do Complexo Lagunar, para sobreviver.
Isso sem relevar o fato dos caminhões – em torno de 112/dia – que irão trafegar com enxofre, ácido sulfúrico e fosfato pela BR-282/BR-101 até o Porto de Imbituba e até Lages, onde a carga seguirá por ferrovia até Rio Grande do Sul e São Paulo. Os riscos de um grave acidente ambiental são enormes, segundo especialistas.
— Fica a pergunta: é isso que queremos, mesmo? Será que vale a pena o “Brasil, País do futuro” sacrificando o meio ambiente e a segurança de sobrevivência de mais de 300 mil pessoas?
Fique à vontade para conhecer as duas versões: Quem quer: www.projetoanitapolis.com.br / Quem não quer: www.montanhaviva.org.br
No próximo post digo o que isso tem a ver com a concentração populacional no litoral catarinense.
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segunda-feira, janeiro 25, 2010
terça-feira, outubro 13, 2009
SC tem muito a ganhar com a Copa e as Olimpíadas
*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel
A maioria dos catarinenses ainda não se conforma com o fato de Florianópolis ter ficado de fora da Copa do Mundo de 2014 e, a escolha do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas de 2016 parece ter reaberto as feridas mal cicatrizadas dos barrigas-verdes. Não podemos, no entanto, fechar os olhos para os lucros que Santa Catarina ainda pode obter com os dois maiores eventos do planeta.
Com a economia pujante, forte e sólida, Santa Catarina é uma marca consolidada em todo o território nacional. Os produtos, serviços e tecnologia aqui desenvolvidos e ofertados para as demais unidades federativas da nação, enchem os olhos dos compradores.
O Pan-Americano na capital fluminense em 2007 já deu provas do poderio estadual nos negócios envolvendo a construção dos centros esportivos. O Estado sulino vendeu desde impermeabilizantes para as piscinas, cadeiras para os ginásios e estádios, até copos e pratos descartáveis.
Quando as obras para a Copa do Mundo iniciarem, nossas rodovias e portos assistirão a um verdadeiro desfile de produtos para as cidades-sedes (ganham as transportadoras, os postos de combustíveis, as borracharias, as oficinas mecânicas, etc). Produzimos aqui, com excelência e qualidade de primeiro mundo praticamente tudo o que vai ser necessário: cerâmica, canos, metais, tintas, plásticos e, entre outros, alimento.
Nosso Estado tem os maiores índices de educação do país, o povo é extremamente acolhedor, as paisagens são ímpares. Cabe a divulgação e o convite para que os estrangeiros nos visitem. Estaremos, afinal de contas, entre duas sedes da Copa e, certamente, muito torcedor vai cruzar nosso estado por terra.
Santa Catarina vai ganhar muito com a Copa e as Olimpíadas. Basta descruzar os braços e seguir o trabalho. O caminho está certo e o futuro é promissor.
A maioria dos catarinenses ainda não se conforma com o fato de Florianópolis ter ficado de fora da Copa do Mundo de 2014 e, a escolha do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas de 2016 parece ter reaberto as feridas mal cicatrizadas dos barrigas-verdes. Não podemos, no entanto, fechar os olhos para os lucros que Santa Catarina ainda pode obter com os dois maiores eventos do planeta.
Com a economia pujante, forte e sólida, Santa Catarina é uma marca consolidada em todo o território nacional. Os produtos, serviços e tecnologia aqui desenvolvidos e ofertados para as demais unidades federativas da nação, enchem os olhos dos compradores.
O Pan-Americano na capital fluminense em 2007 já deu provas do poderio estadual nos negócios envolvendo a construção dos centros esportivos. O Estado sulino vendeu desde impermeabilizantes para as piscinas, cadeiras para os ginásios e estádios, até copos e pratos descartáveis.
Quando as obras para a Copa do Mundo iniciarem, nossas rodovias e portos assistirão a um verdadeiro desfile de produtos para as cidades-sedes (ganham as transportadoras, os postos de combustíveis, as borracharias, as oficinas mecânicas, etc). Produzimos aqui, com excelência e qualidade de primeiro mundo praticamente tudo o que vai ser necessário: cerâmica, canos, metais, tintas, plásticos e, entre outros, alimento.
Nosso Estado tem os maiores índices de educação do país, o povo é extremamente acolhedor, as paisagens são ímpares. Cabe a divulgação e o convite para que os estrangeiros nos visitem. Estaremos, afinal de contas, entre duas sedes da Copa e, certamente, muito torcedor vai cruzar nosso estado por terra.
Santa Catarina vai ganhar muito com a Copa e as Olimpíadas. Basta descruzar os braços e seguir o trabalho. O caminho está certo e o futuro é promissor.
quinta-feira, setembro 17, 2009
Fotografe uma Ideia #2

Autor: Francine de Mattos | www.twitter.com/fotografe
Local: Barra Velha, Santa Catarina (Brasil)
Site: www.fotografeumaideia.com.br
Deixe sua sugestão de título para a imagem.
sexta-feira, setembro 04, 2009
O número 666
*Anderson Paes | www.twitter.com/andersonpaes
Tubarão, sul de Santa Catarina. Uma cidade tranquila. O rio que corta a cidade tem nas margens árvores grandes que parecem cantar com o vento. À margem direita, na rua Lauro Müller, há uma casa de número 666.
As residências, por aqui, são numeradas de acordo com a distância que estão do início da rua. Se um prédio estiver distante 100 metros de onde a rua começa, terá o número 100 estampado em sua fachada.
No caso do número 666 tudo estaria em ordem, não fosse a coincidência de no local existir uma casa que pertence à Congregação da Divina Providência. Como sugere o nome da entidade, “Deus quis assim”.
É estranho pensar que uma ordem cristã aceite o número do que eles chamam de “a besta”, do oposto do seu Deus; de quem, para eles, fará mal ou até mesmo porá fim a este mundo. Estranho, também, é uma das freiras dizer que desconhecia o número da “própria” casa. “Não sabia não, meu filho! Mas vou procurar saber”, disse a velha senhora em seu hábito branco e azul acinzentado, numa conversa informal nos bastidores de um programa de rádio onde eu era o produtor.
“Mas o número marca a distância da casa (do início da rua), não é nada demais”, retrucou uma outra pessoa presente no estúdio. Em todo caso, poderiam ter trocado o simbólico número por 668. A numeração continuaria dentro dos limites do terreno, já que a casa seguinte é de número 700.
Resta a dúvida: se quem trabalha com a fé faz pouco caso do que está na Bíblia, o que vendem afinal? A mesma Congregação é responsável pelo Colégio São José e o Hospital Nossa Senhora da Conceição. Talvez o ceticismo da medicina tenha alcançado certos setores da religião. É mais lucrativo – pode-se fazer da casa um ponto turístico.
Tubarão, sul de Santa Catarina. Uma cidade tranquila. O rio que corta a cidade tem nas margens árvores grandes que parecem cantar com o vento. À margem direita, na rua Lauro Müller, há uma casa de número 666.
As residências, por aqui, são numeradas de acordo com a distância que estão do início da rua. Se um prédio estiver distante 100 metros de onde a rua começa, terá o número 100 estampado em sua fachada.
No caso do número 666 tudo estaria em ordem, não fosse a coincidência de no local existir uma casa que pertence à Congregação da Divina Providência. Como sugere o nome da entidade, “Deus quis assim”.
“Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. E esse número é seiscentos e sessenta e seis” Apocalipse 13:18
É estranho pensar que uma ordem cristã aceite o número do que eles chamam de “a besta”, do oposto do seu Deus; de quem, para eles, fará mal ou até mesmo porá fim a este mundo. Estranho, também, é uma das freiras dizer que desconhecia o número da “própria” casa. “Não sabia não, meu filho! Mas vou procurar saber”, disse a velha senhora em seu hábito branco e azul acinzentado, numa conversa informal nos bastidores de um programa de rádio onde eu era o produtor.
“Mas o número marca a distância da casa (do início da rua), não é nada demais”, retrucou uma outra pessoa presente no estúdio. Em todo caso, poderiam ter trocado o simbólico número por 668. A numeração continuaria dentro dos limites do terreno, já que a casa seguinte é de número 700.
Resta a dúvida: se quem trabalha com a fé faz pouco caso do que está na Bíblia, o que vendem afinal? A mesma Congregação é responsável pelo Colégio São José e o Hospital Nossa Senhora da Conceição. Talvez o ceticismo da medicina tenha alcançado certos setores da religião. É mais lucrativo – pode-se fazer da casa um ponto turístico.
quinta-feira, agosto 27, 2009
Fotografe uma Ideia #1
Autor: Francine de Mattos | www.twitter.com/fotografe
Local: Salete, Santa Catarina (Brasil)
Site: www.fotografeumaideia.com.br
A partir de hoje, toda quinta-feira uma nova foto.
Deixe sua sugestão de título para a imagem.
quinta-feira, agosto 13, 2009
H1N1, a nova peste
*Thiago Schwartz | www.twitter.com/perereco
Moro em Tubarão, Santa Catarina. Cidade pacata, mas acometida de um mal muito grande nessas últimas semanas. Não me refiro à nova gripe, e sim à paranoia que está sendo criada em torno dela na região.
Todos os dias são novas notícias que chegam. Informações desencontradas populam em todos os meios de comunicação, mas é no boca-a-boca que a tragédia se forma: parentes infectados, pessoas públicas em estado grave, qualquer tosse em público se torna uma nota de falecimento no dia seguinte. Um exemplo bem definido disso diz respeito a um médico de renome na cidade.
No Domingo, recebi de minha senhora (que trabalha no shopping) a notícia que o tal médico havia morrido, da maldita gripe suína. Como bom brasileiro, sem checar as fontes liguei para minha mãe e contei o ocorrido. Ela ficou momentaneamente chocada e desligou o telefone. No outro dia, todos sabiam que o médico tinha esticado as canelas por culpa do vilão da vez.
A balbúrdia foi tanta em cima da morte do doutor, que o mesmo se viu obrigado a ir na rádio e declarar: "Gente, eu tô vivo". Alguns pacientes seus correram para o local onde ele dava plantão, para verificar se era realmente verdade que o médico não havia sido mais uma vítima.
O médico foi sim uma vítima. Uma vítima da paranoia que se formou em torno desta questão. Uma das milhares de mortes que não foram confirmadas, mas que permeiam as conversas dos populares. Um dos que, como muitos, "teve a morte ocultada pelas autoridades, como uma forma de evitar o pânico e manter o status quo"...
Só esqueceram de avisar ao médico de que ele deveria estar morto.
Moro em Tubarão, Santa Catarina. Cidade pacata, mas acometida de um mal muito grande nessas últimas semanas. Não me refiro à nova gripe, e sim à paranoia que está sendo criada em torno dela na região.
Todos os dias são novas notícias que chegam. Informações desencontradas populam em todos os meios de comunicação, mas é no boca-a-boca que a tragédia se forma: parentes infectados, pessoas públicas em estado grave, qualquer tosse em público se torna uma nota de falecimento no dia seguinte. Um exemplo bem definido disso diz respeito a um médico de renome na cidade.
No Domingo, recebi de minha senhora (que trabalha no shopping) a notícia que o tal médico havia morrido, da maldita gripe suína. Como bom brasileiro, sem checar as fontes liguei para minha mãe e contei o ocorrido. Ela ficou momentaneamente chocada e desligou o telefone. No outro dia, todos sabiam que o médico tinha esticado as canelas por culpa do vilão da vez.
A balbúrdia foi tanta em cima da morte do doutor, que o mesmo se viu obrigado a ir na rádio e declarar: "Gente, eu tô vivo". Alguns pacientes seus correram para o local onde ele dava plantão, para verificar se era realmente verdade que o médico não havia sido mais uma vítima.
O médico foi sim uma vítima. Uma vítima da paranoia que se formou em torno desta questão. Uma das milhares de mortes que não foram confirmadas, mas que permeiam as conversas dos populares. Um dos que, como muitos, "teve a morte ocultada pelas autoridades, como uma forma de evitar o pânico e manter o status quo"...
Só esqueceram de avisar ao médico de que ele deveria estar morto.
sexta-feira, agosto 07, 2009
Feito formigas em dia de chuva
*Anderson Paes | www.twitter.com/andersonpaes
O silencio das noites de uma cidade pequena, a escuridão quebrada por um distante semáforo a piscar pode se repetir nas outras noites desta segunda semana de agosto. Durante o dia, a movimentada Avenida Marcolino Martins Cabral, no centro de Tubarão (SC), perde alguns de seus carros barulhentos e mostra seu asfalto.
A cidade não parou completamente, mas a decisão da governo municipal de suspender as aulas nas escolas públicas fez com que outras entidades particulares tomassem a mesma atitude.
Um basta na coletividade, nos cumprimentos calorosos, na preguiça de lavar as mãos. O medo real e concreto fez mudar algumas atitudes sociais. E apesar de ouvir por aí que a nova gripe mata tanto quanto a velha conhecida, as pessoas estão desconfiadas com tantos números e más notícias repetidas.
Aqui em Tubarão, cidade com menos de 100 mil habitantes, já são mais de 100 casos suspeitos, alguns confirmados – inclusive uma morte –, e outros ocultos. Sim, existem casos ocultos nessa história de pandemia. Para evitar o pânico. Afinal, gente em pânico é como uma decisão unânime do Congresso: irracional.
Nos dois hospitais da cidade e numa outra clínica particular, as pessoas recorreram à máscara. Trocam olhares desconfiados, tossem disfarçadamente. Até nos elevadores, nos prédios residenciais, parecem todos agitados, com pressa – feito formigas em dia de chuva. O medo tomou conta. Fez meio mundo parar e está nos olhares.
E a chuva, que de longe assustava, chegou.
O silencio das noites de uma cidade pequena, a escuridão quebrada por um distante semáforo a piscar pode se repetir nas outras noites desta segunda semana de agosto. Durante o dia, a movimentada Avenida Marcolino Martins Cabral, no centro de Tubarão (SC), perde alguns de seus carros barulhentos e mostra seu asfalto.
A cidade não parou completamente, mas a decisão da governo municipal de suspender as aulas nas escolas públicas fez com que outras entidades particulares tomassem a mesma atitude.
Um basta na coletividade, nos cumprimentos calorosos, na preguiça de lavar as mãos. O medo real e concreto fez mudar algumas atitudes sociais. E apesar de ouvir por aí que a nova gripe mata tanto quanto a velha conhecida, as pessoas estão desconfiadas com tantos números e más notícias repetidas.
Aqui em Tubarão, cidade com menos de 100 mil habitantes, já são mais de 100 casos suspeitos, alguns confirmados – inclusive uma morte –, e outros ocultos. Sim, existem casos ocultos nessa história de pandemia. Para evitar o pânico. Afinal, gente em pânico é como uma decisão unânime do Congresso: irracional.
Nos dois hospitais da cidade e numa outra clínica particular, as pessoas recorreram à máscara. Trocam olhares desconfiados, tossem disfarçadamente. Até nos elevadores, nos prédios residenciais, parecem todos agitados, com pressa – feito formigas em dia de chuva. O medo tomou conta. Fez meio mundo parar e está nos olhares.
E a chuva, que de longe assustava, chegou.
quarta-feira, agosto 05, 2009
Uma fatia de pizza e uma Coca de garrafinha
*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel
Meu paladar infantil guarda na memória um sabor inigualável: a pizza do antigo Angeloni, na margem direita, em Tubarão, no Sul de Santa Catarina. A rede de supermercados fundada na vizinha Criciúma abriu esta filial no dia 24 de agosto de 1972. Atualmente no local da loja existe um grande terreno vazio.
É muito viva a lembrança do mercado, antes de sua reforma que tirou o traçado original. Um grande pátio servia de estacionamento a céu aberto. O nome ficava acima da fachada, gravado em oito quadrados de pedra. Pequenas palmeiras nos recebiam na rampa e escada que convergiam para a porta principal.
Para chegarmos à lanchonete, pegávamos à esquerda. O ambiente em forma de meia lua deixava os clientes de costas para o corredor que fazia fronteira com as janelas, que abriam para fora, na vertical. O balcão acompanhava o formato arredondado e as banquetas davam o ar característico dos anos 80. Quem assistiu ao De Volta para o Futuro 1 que se imagine naquela lanchonete para pensar na do Angeloni.
A pizza era vendida em fatias e assim como tudo o que era pedido ali, era repassado pelo atendente para a cozinha, que também com as paredes seguindo o formato da lanchonete, ficava atrás, entrecortada por meia dúzia de pequenas janelas.
Ir com meu pai comer uma fatia de pizza era quase que um ato religioso. Não existia outra escolha: mussarela e uma Coca-Cola, de vidro, que são as melhores. Para mim nunca mais assaram uma pizza como aquela. A massa bem sequinha, o recheio caprichado. A temperatura ideal e a Coca bem gelada.
Colocando aquele mundo e o de hoje frente a frente, é possível entender a escassez de variedades como o motivo principal de minha fixação por aquela pizza. No meu reduzido universo só existia aquela.
E o mundo era muito melhor apenas com aquela fatia de pizza de mussarela e uma garrafinha de Coca-Cola.
Hoje em cada esquina se vê uma pizzaria. E o que é mais escandaloso em matéria de fartura: são rodízios! O sujeito se esbalda até não poder mais. Além dos sabores tradicionais os pizzaiolos criam e recriam novas composições. E a comodidade de uma pizza em casa, com uma Coca-Cola, pasmem, de três litros?
Dá saudades daquela simplicidade, daquela necessidade. Hoje ao sentar descompromissado para encarar a tela em branco do programa de texto, depois de visitar o endereço eletrônico de um conglomerado das comunicações, um título, infelizmente esperado, salta aos olhos:
Como se vê, os políticos também se esbaldam com a oferta gigantesca de pizza e as novidades da pizzaria mais famosa do Brasil começaram a sair do forno nesta quarta-feira.
Bom apetite e uma bela indigestão!
Meu paladar infantil guarda na memória um sabor inigualável: a pizza do antigo Angeloni, na margem direita, em Tubarão, no Sul de Santa Catarina. A rede de supermercados fundada na vizinha Criciúma abriu esta filial no dia 24 de agosto de 1972. Atualmente no local da loja existe um grande terreno vazio.
É muito viva a lembrança do mercado, antes de sua reforma que tirou o traçado original. Um grande pátio servia de estacionamento a céu aberto. O nome ficava acima da fachada, gravado em oito quadrados de pedra. Pequenas palmeiras nos recebiam na rampa e escada que convergiam para a porta principal.
Para chegarmos à lanchonete, pegávamos à esquerda. O ambiente em forma de meia lua deixava os clientes de costas para o corredor que fazia fronteira com as janelas, que abriam para fora, na vertical. O balcão acompanhava o formato arredondado e as banquetas davam o ar característico dos anos 80. Quem assistiu ao De Volta para o Futuro 1 que se imagine naquela lanchonete para pensar na do Angeloni.
A pizza era vendida em fatias e assim como tudo o que era pedido ali, era repassado pelo atendente para a cozinha, que também com as paredes seguindo o formato da lanchonete, ficava atrás, entrecortada por meia dúzia de pequenas janelas.
Ir com meu pai comer uma fatia de pizza era quase que um ato religioso. Não existia outra escolha: mussarela e uma Coca-Cola, de vidro, que são as melhores. Para mim nunca mais assaram uma pizza como aquela. A massa bem sequinha, o recheio caprichado. A temperatura ideal e a Coca bem gelada.
Colocando aquele mundo e o de hoje frente a frente, é possível entender a escassez de variedades como o motivo principal de minha fixação por aquela pizza. No meu reduzido universo só existia aquela.
E o mundo era muito melhor apenas com aquela fatia de pizza de mussarela e uma garrafinha de Coca-Cola.
Hoje em cada esquina se vê uma pizzaria. E o que é mais escandaloso em matéria de fartura: são rodízios! O sujeito se esbalda até não poder mais. Além dos sabores tradicionais os pizzaiolos criam e recriam novas composições. E a comodidade de uma pizza em casa, com uma Coca-Cola, pasmem, de três litros?
Dá saudades daquela simplicidade, daquela necessidade. Hoje ao sentar descompromissado para encarar a tela em branco do programa de texto, depois de visitar o endereço eletrônico de um conglomerado das comunicações, um título, infelizmente esperado, salta aos olhos:
“Presidente do Conselho de Ética arquiva ações contra Sarney e Renan” e segue com uma linha de apoio: “Paulo Duque (PMDB-RJ) alegou falta de evidências para abrir investigação. Presidente do Senado ainda responde a outras sete medidas no colegiado”.
Como se vê, os políticos também se esbaldam com a oferta gigantesca de pizza e as novidades da pizzaria mais famosa do Brasil começaram a sair do forno nesta quarta-feira.
Bom apetite e uma bela indigestão!
sexta-feira, julho 31, 2009
A mais perfeita mesmice, não fosse o Gardel
*Anderson Paes | www.twitter.com/andersonpaes
O sol vai se pondo e estou quase em casa. De volta a Tubarão. Nasci nessa cidade do sul de Santa Catarina, no início dos anos oitenta. De lá pra cá muita coisa mudou – mas não nos últimos anos. Foram quase dois anos fora e quando chego vejo as obras ainda atrasadas da BR-101, o excesso de carros na principal avenida da cidade e umas poucas pessoas que ainda reconheço nas ruas.
Uns três mercados, o shopping e o ex-shopping ainda figuram no centro. Nas ruas de cá, malabaristas no semáforo. Disseram-me por aqui que agora temos mais do que o velho nada para fazer a noite, mas a cidade nunca foi da noite – deve ser o mesmo lugar com novo nome. Melhor ir ver de perto – mas sem pressa. Também contaram que houve algumas mudanças na política, desde as últimas eleições. Mas a cidade também nunca foi muito disso. O que me levou a pensar: Se nem os nomes mudaram...
Tudo na mais perfeita mesmice, não fosse o fato de acordar todas as manhãs ao som Carlos Gardel – que algum vizinho colocava por volta das 9h. Um bom modo de acordar. Depois de uns dias de tango, encontrei um novo lugar para morar. No centro, agora com uma trilha mais mecânica – a das construções por perto. Muda-se a trilha e o jeitão da vizinhança. Aqui ainda é a de um bairro residencial de uma cidade pequena. Outra noite um vizinho gritava:
— Ah! Vai chover chumbinho. Cala a boca...
Tudo isso por causa de um pequeno cachorro que não parava de latir do lado de lá da rua. Pobre cachorro, apenas latia naturalmente. Algumas pessoas se incomodam com tão pouco e esquecem o que realmente pode mudar a vida. Com uma vizinhança assim, poderia esperar mudanças significativas para a terra amada e bendita Tubarão?
Quem sabe quando as pessoas começarem a ter acesso às novas culturas ou encontrarem novas identidades – sem esquecer do bom senso e tolerância que faz uma “grande” cidade. “Mas é mais fácil ir embora do que mudar as coisas” – alguns insistem. Mas... mas sempre há espaço para novas ideias, novas cabeças, para amar e mudar as coisas – como na música de Belchior –, e outras canções para se ouvir.
O sol vai se pondo e estou quase em casa. De volta a Tubarão. Nasci nessa cidade do sul de Santa Catarina, no início dos anos oitenta. De lá pra cá muita coisa mudou – mas não nos últimos anos. Foram quase dois anos fora e quando chego vejo as obras ainda atrasadas da BR-101, o excesso de carros na principal avenida da cidade e umas poucas pessoas que ainda reconheço nas ruas.
Uns três mercados, o shopping e o ex-shopping ainda figuram no centro. Nas ruas de cá, malabaristas no semáforo. Disseram-me por aqui que agora temos mais do que o velho nada para fazer a noite, mas a cidade nunca foi da noite – deve ser o mesmo lugar com novo nome. Melhor ir ver de perto – mas sem pressa. Também contaram que houve algumas mudanças na política, desde as últimas eleições. Mas a cidade também nunca foi muito disso. O que me levou a pensar: Se nem os nomes mudaram...
Tudo na mais perfeita mesmice, não fosse o fato de acordar todas as manhãs ao som Carlos Gardel – que algum vizinho colocava por volta das 9h. Um bom modo de acordar. Depois de uns dias de tango, encontrei um novo lugar para morar. No centro, agora com uma trilha mais mecânica – a das construções por perto. Muda-se a trilha e o jeitão da vizinhança. Aqui ainda é a de um bairro residencial de uma cidade pequena. Outra noite um vizinho gritava:
— Ah! Vai chover chumbinho. Cala a boca...
Tudo isso por causa de um pequeno cachorro que não parava de latir do lado de lá da rua. Pobre cachorro, apenas latia naturalmente. Algumas pessoas se incomodam com tão pouco e esquecem o que realmente pode mudar a vida. Com uma vizinhança assim, poderia esperar mudanças significativas para a terra amada e bendita Tubarão?
Quem sabe quando as pessoas começarem a ter acesso às novas culturas ou encontrarem novas identidades – sem esquecer do bom senso e tolerância que faz uma “grande” cidade. “Mas é mais fácil ir embora do que mudar as coisas” – alguns insistem. Mas... mas sempre há espaço para novas ideias, novas cabeças, para amar e mudar as coisas – como na música de Belchior –, e outras canções para se ouvir.
quarta-feira, julho 22, 2009
As aparências enganam
*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel
Pense em um Estado em que um governador por três vezes e senador outras três, tenha, em sua homenagem, seu nome perpetuado em colégios, aeroporto, avenidas, ruas, praças, estádio, museu, ponte, distrito, palacete, time de futebol e até ponto de táxi.
Maranhão e o coronelismo retardário da família Sarney? Não! Santa Catarina e seu ex-governador Hercílio Luz.
Hercílio Pedro da Luz nasceu na ainda Desterro. Ele mesmo alterou o nome da capital catarinense para Florianópolis, uma corruptela que faz referência ao ditador Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro, então presidente da República, com pouca aceitação na Ilha de Santa Catarina, que por pouco não se chamou Ondina (deusa protetora dos mares).
Eu iria mais longe, no vale fértil da imaginação, e penso que por pouco ela não se tornou Hercílio Luz, dado ao notável magnetismo que seu filho ilustre tinha para batizar pontes, times de futebol e afins.
Entre as inumeráveis diferenças de Sarney e Hercílio Luz está o apreço em dar cobertura a parentes, amigos e agregados. O Barriga Verde teve 14 filhos e apenas dois, Abelardo Venceslau da Luz (o município de Abelardo Luz, em Santa Catarina, é em sua homenagem) e Alfredo Felipe da Luz, seguiram o caminho da política, sem os atos secretos vergonhosos do atual presidente do senado que apadrinha um verdadeiro mundo de gente do Maranhão.
Em tempo, uma pequena lista que eterniza o falecido governador catarinense:
Uma ponte, um aeroporto, uma praça, uma casa de campo, um palacete, uma avenida e um ponto de táxi em Florianópolis; uma praça em Blumenau; um museu em Rancho Queimado; um distrito em Araranguá; o estádio do Marcílio Dias e uma rua em Itajaí; uma rua em Lages; uma rua e uma escola municipal rural em Criciúma; um time de futebol e uma escola estadual em Tubarão.
Se alguém souber de algo mais, agradeço a informação!
Pense em um Estado em que um governador por três vezes e senador outras três, tenha, em sua homenagem, seu nome perpetuado em colégios, aeroporto, avenidas, ruas, praças, estádio, museu, ponte, distrito, palacete, time de futebol e até ponto de táxi.
Maranhão e o coronelismo retardário da família Sarney? Não! Santa Catarina e seu ex-governador Hercílio Luz.
Hercílio Pedro da Luz nasceu na ainda Desterro. Ele mesmo alterou o nome da capital catarinense para Florianópolis, uma corruptela que faz referência ao ditador Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro, então presidente da República, com pouca aceitação na Ilha de Santa Catarina, que por pouco não se chamou Ondina (deusa protetora dos mares).
Eu iria mais longe, no vale fértil da imaginação, e penso que por pouco ela não se tornou Hercílio Luz, dado ao notável magnetismo que seu filho ilustre tinha para batizar pontes, times de futebol e afins.
Entre as inumeráveis diferenças de Sarney e Hercílio Luz está o apreço em dar cobertura a parentes, amigos e agregados. O Barriga Verde teve 14 filhos e apenas dois, Abelardo Venceslau da Luz (o município de Abelardo Luz, em Santa Catarina, é em sua homenagem) e Alfredo Felipe da Luz, seguiram o caminho da política, sem os atos secretos vergonhosos do atual presidente do senado que apadrinha um verdadeiro mundo de gente do Maranhão.
Em tempo, uma pequena lista que eterniza o falecido governador catarinense:
Uma ponte, um aeroporto, uma praça, uma casa de campo, um palacete, uma avenida e um ponto de táxi em Florianópolis; uma praça em Blumenau; um museu em Rancho Queimado; um distrito em Araranguá; o estádio do Marcílio Dias e uma rua em Itajaí; uma rua em Lages; uma rua e uma escola municipal rural em Criciúma; um time de futebol e uma escola estadual em Tubarão.
Se alguém souber de algo mais, agradeço a informação!
terça-feira, julho 21, 2009
Apocalypse now
*Gabriel Guedes | www.twitter.com/gabrielzguedes
O nome do post pode soar exagero e também nem um pouco original. Tudo bem... Ambos têm em comum uma palavra tão forte quanto as atitudes intrínsecas contidas nela: a ‘guerra’. Posso citar várias guerras de verdade, mas assim, seria fácil demais.
Desde que me conheço por gente, me considerava homem do interior, gente simples e que não precisa de muito para viver feliz. Apenas o necessário para a subsistência. Na última vez em que estive na Província (minha nova denominação para Tubarão), resolvi dar uma ‘banda’ pela Serra Catarinense. Isso foi lá pelo dia 12 de julho. Eu e minha mulher planejávamos há alguns meses uma volta por lá. O tempo feio, cinzento, sem graça e depressivo que dominou o Sul (é, o Rio Grande do Sul) por mais de sete dias, quase tirou as esperanças de que fosse haver sol naquele domingo. Mas genial como ele só, Deus nos brindou com aquele sol divino, céu azul, aquele céu azul tricolor. De brigadeiro. De resto, o dia só poderia ter sido mágico com tamanha colaboração divina. Aquela paisagem me dava sensação de paz, de dias tranqüilos. Era inspirador a isso.
Saudade. Afinal, há cinco anos deixei minha pacata vida na Província para encarar as aventuras numa selva de pedra, concreto e asfalto numa metrópole de 3 milhões de pessoas. Quando cheguei aqui, me senti um verdadeiro ‘Crocodilo Dundee’. Impressionado como a vida ia acontecendo em meio ao caos urbano (não conheço caos rural).
Passado pouco mais de uma semana da 'minha paz', tive uma terça-feira da onça. É, praticamente uma segunda-feira (embora o dia de ontem tenha corrido bem melhor). Lidei de perto com os perigos da selva urbana. Acordei antes do galo cantar, mas com os vizinhos correndo atrás de ‘intrusos’ no meu prédio. Sem medo e sem a sensação de segurança, mais tarde fui trabalhar. Ao descer do ônibus, passa um carro pela BR-116, dá uma buzinada e fica me insultando de graça, mostrando o famigerado dedo do meio. Fiquei perplexo e pensei: — Como há pessoas que gostam de estragar o dia dos outros? — mas continuei com a minha estrada. Fui trabalhar. Final de tarde, chega! Com a cabeça na lua, e um dia nada produtivo, encerro o expediente na redação. Vou buscar a mulher no trabalho dela. O ônibus atrasa. Era para chegar às 18h36. Cheguei às 18h47. A BR-116 está parada. As ruas paralelas também. Outras ruas de acesso à cidade, também. Congestionamento, buzinaço, motoristas estressados. E eu achando que o dia já estava ruim...
Mas não precisei muito para não duvidar de que algo que está ruim, pode piorar sim. Caminho umas quatros quadras até chegar em frente ao trabalho de minha ‘excelentíssima’. São 18h56. Chego e fico esperando. Às 18h59: — Pá! Pá! Pá! Pá!! — As pessoas correm. Era o tiro ‘comendo solto’. E eu lá, a menos de uma quadra do incidente. Até agora não sei o que foi, o que era. Mas nem quero saber. Mas já adianto que houve ferido (ou feridos?).
Mas para quem passou 22 anos na Província, foi uma verdadeira cena de guerra. Após tudo isso, difícil me sentir tranqüilo. Ainda que a cidade que melhor me recebeu diminuiu os índices de violência nos últimos dois anos, está longe de ser a mais tranqüila. Acho que nem a Província é tão tranqüila quanto nos meus tempos de garoto. Vivemos tempos de guerra. E nem sabemos dos ideais. Uma guerra sem ideais.
Mas não é querer ser pessimista. A semana está começando também com prognósticos meteorológicos que beiram o Apocalipse. Agosto, o mês do cachorro louco se aproxima. Some tudo isso à prevalência da intolerância, da ganância, da falta de moral e ética e da falta de amor entre as pessoas. Agora imagine o resultado.
Se a natureza nos derrotar, quem sabe nosso fim seja menos vergonhoso.
O nome do post pode soar exagero e também nem um pouco original. Tudo bem... Ambos têm em comum uma palavra tão forte quanto as atitudes intrínsecas contidas nela: a ‘guerra’. Posso citar várias guerras de verdade, mas assim, seria fácil demais.
Desde que me conheço por gente, me considerava homem do interior, gente simples e que não precisa de muito para viver feliz. Apenas o necessário para a subsistência. Na última vez em que estive na Província (minha nova denominação para Tubarão), resolvi dar uma ‘banda’ pela Serra Catarinense. Isso foi lá pelo dia 12 de julho. Eu e minha mulher planejávamos há alguns meses uma volta por lá. O tempo feio, cinzento, sem graça e depressivo que dominou o Sul (é, o Rio Grande do Sul) por mais de sete dias, quase tirou as esperanças de que fosse haver sol naquele domingo. Mas genial como ele só, Deus nos brindou com aquele sol divino, céu azul, aquele céu azul tricolor. De brigadeiro. De resto, o dia só poderia ter sido mágico com tamanha colaboração divina. Aquela paisagem me dava sensação de paz, de dias tranqüilos. Era inspirador a isso.
Saudade. Afinal, há cinco anos deixei minha pacata vida na Província para encarar as aventuras numa selva de pedra, concreto e asfalto numa metrópole de 3 milhões de pessoas. Quando cheguei aqui, me senti um verdadeiro ‘Crocodilo Dundee’. Impressionado como a vida ia acontecendo em meio ao caos urbano (não conheço caos rural).
Passado pouco mais de uma semana da 'minha paz', tive uma terça-feira da onça. É, praticamente uma segunda-feira (embora o dia de ontem tenha corrido bem melhor). Lidei de perto com os perigos da selva urbana. Acordei antes do galo cantar, mas com os vizinhos correndo atrás de ‘intrusos’ no meu prédio. Sem medo e sem a sensação de segurança, mais tarde fui trabalhar. Ao descer do ônibus, passa um carro pela BR-116, dá uma buzinada e fica me insultando de graça, mostrando o famigerado dedo do meio. Fiquei perplexo e pensei: — Como há pessoas que gostam de estragar o dia dos outros? — mas continuei com a minha estrada. Fui trabalhar. Final de tarde, chega! Com a cabeça na lua, e um dia nada produtivo, encerro o expediente na redação. Vou buscar a mulher no trabalho dela. O ônibus atrasa. Era para chegar às 18h36. Cheguei às 18h47. A BR-116 está parada. As ruas paralelas também. Outras ruas de acesso à cidade, também. Congestionamento, buzinaço, motoristas estressados. E eu achando que o dia já estava ruim...
Mas não precisei muito para não duvidar de que algo que está ruim, pode piorar sim. Caminho umas quatros quadras até chegar em frente ao trabalho de minha ‘excelentíssima’. São 18h56. Chego e fico esperando. Às 18h59: — Pá! Pá! Pá! Pá!! — As pessoas correm. Era o tiro ‘comendo solto’. E eu lá, a menos de uma quadra do incidente. Até agora não sei o que foi, o que era. Mas nem quero saber. Mas já adianto que houve ferido (ou feridos?).
Mas para quem passou 22 anos na Província, foi uma verdadeira cena de guerra. Após tudo isso, difícil me sentir tranqüilo. Ainda que a cidade que melhor me recebeu diminuiu os índices de violência nos últimos dois anos, está longe de ser a mais tranqüila. Acho que nem a Província é tão tranqüila quanto nos meus tempos de garoto. Vivemos tempos de guerra. E nem sabemos dos ideais. Uma guerra sem ideais.
Mas não é querer ser pessimista. A semana está começando também com prognósticos meteorológicos que beiram o Apocalipse. Agosto, o mês do cachorro louco se aproxima. Some tudo isso à prevalência da intolerância, da ganância, da falta de moral e ética e da falta de amor entre as pessoas. Agora imagine o resultado.
Se a natureza nos derrotar, quem sabe nosso fim seja menos vergonhoso.
quarta-feira, julho 08, 2009
Terra de ninguém... (ou das Empresas de Ônibus)
*Viviany Pfleger | vivianypfleger@yahoo.com.br
É mais um evento no ano, e deveria ser colocado no calendário municipal. Concordas?
Se as empresas, prefeitura e trabalhadores comemoram anualmente, é porque virou evento. O único problema é que esqueceram de incluir a opinião da população nesta festa. Ainda não aprendemos a lutar por nossos direitos, salvo os estudantes que têm dado a cara à tapa, sempre que os preços das passagens de ônibus aumentam (Movimento Passe Livre). E eles vêm por aí nos próximos dias, aguardem.
É da terrinha Florianópolis (SC), que falo. A cidade parou por três dias, posso assim dizer, e o transporte coletivo é a causa novamente.
O trânsito ficou caótico. As lojas amargaram prejuízos de fim de mês. E as metas? Ah, as metas já eram! Sem funcionário e clientes, nada de metas. Só estavam presentes aqueles que conseguiram caronas ou os que foram buscados em casa, por solicitação dos patrões.
Provas foram adiadas, crianças sem escolas, sem creche; perdidas no Centro, pois não tinham como voltar pra casa. É... geralmente eles fazem isto. Tiram as pessoas das suas casas, de manhã cedo, e as deixam desamparadas no Centro da cidade – isso não se faz, mas eles sempre repetem.
É um ciclo vicioso. As empresas precisam de arrecadação, os empregados querem aumento e garantias de emprego, o sindicato entra na história em defesa dos trabalhadores que têm direito à ‘greve’, e a prefeitura da cidade acaba intermediando a discussão, além de fornecer o subsídio para o transporte público. E onde estão os prefeitos das outras cidades da Grande Florianópolis, já que as empresas intermunicipais também aderiram à greve?
Sempre marmelada. Como o povo sempre pagará a conta, e foi o que aconteceu – aumento de R$ 0,10 nas passagens desde a última segunda-feira –, fica cômodo gerar uma greve provocada pelo sindicato, que não abre mão de nenhuma proposta proveniente dos trabalhadores – reivindicavam 72 itens. E para as empresas também é bom, já que os preços são aumentados com o consentimento da prefeitura.
Porém, apesar de se dizer que o sistema está falido, que as empresas de transporte coletivo amargam milhões por mês, uma coisa é clara: o povo não tem mais dinheiro pra cobrir os gastos caríssimos de transporte da cidade. Por trechos pequenos, cerca de dez minutos, o cidadão que vai ao centro paga os mesmos R$2,80, que alguém que se locomove para o norte da ilha, cuja viajem dura em torno de 40 minutos. Além do que, hoje em dia tem empresa que não contrata mais funcionário que mora longe, em função do preço do vale-transporte. Onde vamos parar?
Esta foi a quarta paralização em apenas dois meses, devido às inúmeras tentativas de negociação entre sindicato, empresas e a prefeitura.
Durante estes três dias de greve da última semana, eu pensei: — Espero que resolvam hoje. Então veio a quarta-feira, e nada. Dois dias sem transporte já era o caos, em uma cidade que se dizia ‘candidata a sediar a Copa do mundo’, imagina um terceiro dia sem nada. Pois veio a quinta-feira, e era um tal de o prefeito, o secretário, o fulano e o sicrano falando na mídia – e andando em círculos. Ninguém sabia o que fazer. A terra era de ninguém, mesmo. Não havia um consenso. O que parecia é que a cidade estava nas mãos de motoristas e cobradores de ônibus, pois esta foi a sensação clara, da população, que em meio a tudo isto, já estava insatisfeita com a classe e com o excesso de exigências que eles buscavam.
Era o aumento desejado de 7%, mais vale-alimentação no valor de R$310,00 pra trabalhar seis horas por dia, mais participação nos lucros, mais garantia de que os cobradores não serão demitidos – trocados por catracas eletrônicas –, e mais e mais e mais e mais...
Sabe de uma coisa? Essa história está longe de ser resolvida...
E não esqueça de anotar: ano quem vem, teremos ‘feriado’ novamente!
Até parece carnaval.
___
*Viviany Pfleger é administradora e viveu essa crise do transporte público na capital catarinense.
É mais um evento no ano, e deveria ser colocado no calendário municipal. Concordas?
Se as empresas, prefeitura e trabalhadores comemoram anualmente, é porque virou evento. O único problema é que esqueceram de incluir a opinião da população nesta festa. Ainda não aprendemos a lutar por nossos direitos, salvo os estudantes que têm dado a cara à tapa, sempre que os preços das passagens de ônibus aumentam (Movimento Passe Livre). E eles vêm por aí nos próximos dias, aguardem.
É da terrinha Florianópolis (SC), que falo. A cidade parou por três dias, posso assim dizer, e o transporte coletivo é a causa novamente.
O trânsito ficou caótico. As lojas amargaram prejuízos de fim de mês. E as metas? Ah, as metas já eram! Sem funcionário e clientes, nada de metas. Só estavam presentes aqueles que conseguiram caronas ou os que foram buscados em casa, por solicitação dos patrões.
Provas foram adiadas, crianças sem escolas, sem creche; perdidas no Centro, pois não tinham como voltar pra casa. É... geralmente eles fazem isto. Tiram as pessoas das suas casas, de manhã cedo, e as deixam desamparadas no Centro da cidade – isso não se faz, mas eles sempre repetem.
É um ciclo vicioso. As empresas precisam de arrecadação, os empregados querem aumento e garantias de emprego, o sindicato entra na história em defesa dos trabalhadores que têm direito à ‘greve’, e a prefeitura da cidade acaba intermediando a discussão, além de fornecer o subsídio para o transporte público. E onde estão os prefeitos das outras cidades da Grande Florianópolis, já que as empresas intermunicipais também aderiram à greve?
Sempre marmelada. Como o povo sempre pagará a conta, e foi o que aconteceu – aumento de R$ 0,10 nas passagens desde a última segunda-feira –, fica cômodo gerar uma greve provocada pelo sindicato, que não abre mão de nenhuma proposta proveniente dos trabalhadores – reivindicavam 72 itens. E para as empresas também é bom, já que os preços são aumentados com o consentimento da prefeitura.
Porém, apesar de se dizer que o sistema está falido, que as empresas de transporte coletivo amargam milhões por mês, uma coisa é clara: o povo não tem mais dinheiro pra cobrir os gastos caríssimos de transporte da cidade. Por trechos pequenos, cerca de dez minutos, o cidadão que vai ao centro paga os mesmos R$2,80, que alguém que se locomove para o norte da ilha, cuja viajem dura em torno de 40 minutos. Além do que, hoje em dia tem empresa que não contrata mais funcionário que mora longe, em função do preço do vale-transporte. Onde vamos parar?
Esta foi a quarta paralização em apenas dois meses, devido às inúmeras tentativas de negociação entre sindicato, empresas e a prefeitura.
Durante estes três dias de greve da última semana, eu pensei: — Espero que resolvam hoje. Então veio a quarta-feira, e nada. Dois dias sem transporte já era o caos, em uma cidade que se dizia ‘candidata a sediar a Copa do mundo’, imagina um terceiro dia sem nada. Pois veio a quinta-feira, e era um tal de o prefeito, o secretário, o fulano e o sicrano falando na mídia – e andando em círculos. Ninguém sabia o que fazer. A terra era de ninguém, mesmo. Não havia um consenso. O que parecia é que a cidade estava nas mãos de motoristas e cobradores de ônibus, pois esta foi a sensação clara, da população, que em meio a tudo isto, já estava insatisfeita com a classe e com o excesso de exigências que eles buscavam.
Era o aumento desejado de 7%, mais vale-alimentação no valor de R$310,00 pra trabalhar seis horas por dia, mais participação nos lucros, mais garantia de que os cobradores não serão demitidos – trocados por catracas eletrônicas –, e mais e mais e mais e mais...
Sabe de uma coisa? Essa história está longe de ser resolvida...
E não esqueça de anotar: ano quem vem, teremos ‘feriado’ novamente!
Até parece carnaval.
___
*Viviany Pfleger é administradora e viveu essa crise do transporte público na capital catarinense.
segunda-feira, julho 06, 2009
Dúvida cruel
*Gabriel Guedes | www.twitter.com/gabrielzguedes
Ainda da série das informações “represadas”, recordei hoje de uma história que captei na minha última estada em Tubarão, no começo de maio. Na verdade, soube desta informação durante uma rápida passagem, a negócios, em Gravatal. Vou falar de Anitápolis.
— Alguém já ouviu falar?
Anitápolis é um de vários minúsculos municípios do meu Estado que vivem praticamente isolados. Sim, por que existe mais estrada de chão do que asfalto para chegar até lá. Distante 96 quilômetros de Tubarão e outros 97 de Florianópolis, é lá que nasce o principal afluente do Rio Tubarão: o Rio Braço do Norte, que verte do encontro das encostas da Serra Geral, da Boa Vista e do Tabuleiro. Uma região de enorme beleza natural e que conta com uma das maiores áreas de mata atlântica preservada em Santa Catarina. Colonizada por imigrantes alemães, os seus 3,2 mil habitantes são gente simples e que subsistem da agricultura. Agora eles vivem um dilema: instalar ou não uma mina, a céu aberto, de fosfato para fabricação de fertilizantes?
Num lugar tão distante de qualquer grande centro urbano, é normal que se tenha uma ânsia pelo desenvolvimento econômico. Principalmente quando se fala em geração de empregos em larga escala. Soube que devem ser gerados cerca de 2 mil empregos, entre diretos e indiretos. E o prefeito Saulo Weiss (PMDB) estaria empolgadíssimo.
A primeira licença para a instalação já foi dada pela Fundação Estadual de Meio Ambiente (Fatma). Claro, isso não demorou porque se trata de um empreendimento da gigante alimentícia Bünge, por intermédio da Indústria de Fosfatados Catarinense Ltda. Onde há um forte lobby. E se tratando da Fatma, há que se desconfiar mais que duas vezes. Segundo o pessoal da Fepam (a fundação de proteção ambiental gaúcha), a Fatma tem fama de ser “frouxa”. E num governo como o de Luiz Henrique da Silveira (PMDB) – que apoiou o descarado “código florestal catarinense” –, dizem que a Fatma, assim como outros órgãos do Estado, são loteados politicamente. Logo, sem critérios racionais.
Tubarão precisa se mobilizar: o projeto prevê a construção de uma barragem de 80 metros de altura no Rio Pinheiros, afluente do Braço do Norte–Rio Tubarão, onde ficarão retidos os dejetos tóxicos da extração do fosfato.
Imagine a catástrofe: numa região em que a água já é castigada pela extração de carvão mineral, ter uma barragem gigantesca retendo resíduos tóxicos e que pode arrebentar a qualquer momento, bastando uma chuva torrencial para iniciar o desastre. Qualquer vazamento é fatal para todas as cidades que dependem do Rio Braço do Norte e Tubarão, além do Complexo Lagunar, para sobreviver.
Isso sem relevar o fato dos caminhões – em torno de 112/dia – que irão trafegar com enxofre, ácido sulfúrico e fosfato pela BR-282/BR-101 até o Porto de Imbituba e até Lages, onde a carga seguirá por ferrovia até Rio Grande do Sul e São Paulo. Os riscos de um grave acidente ambiental são enormes, segundo especialistas.
— Fica a pergunta: é isso que queremos, mesmo? Será que vale a pena o “Brasil, País do futuro” sacrificando o meio ambiente e a segurança de sobrevivência de mais de 300 mil pessoas?
Fique à vontade para conhecer as duas versões: Quem quer: www.projetoanitapolis.com.br / Quem não quer: www.montanhaviva.org.br
No próximo post digo o que isso tem a ver com a concentração populacional no litoral catarinense.
Ainda da série das informações “represadas”, recordei hoje de uma história que captei na minha última estada em Tubarão, no começo de maio. Na verdade, soube desta informação durante uma rápida passagem, a negócios, em Gravatal. Vou falar de Anitápolis.
— Alguém já ouviu falar?
Anitápolis é um de vários minúsculos municípios do meu Estado que vivem praticamente isolados. Sim, por que existe mais estrada de chão do que asfalto para chegar até lá. Distante 96 quilômetros de Tubarão e outros 97 de Florianópolis, é lá que nasce o principal afluente do Rio Tubarão: o Rio Braço do Norte, que verte do encontro das encostas da Serra Geral, da Boa Vista e do Tabuleiro. Uma região de enorme beleza natural e que conta com uma das maiores áreas de mata atlântica preservada em Santa Catarina. Colonizada por imigrantes alemães, os seus 3,2 mil habitantes são gente simples e que subsistem da agricultura. Agora eles vivem um dilema: instalar ou não uma mina, a céu aberto, de fosfato para fabricação de fertilizantes?
Num lugar tão distante de qualquer grande centro urbano, é normal que se tenha uma ânsia pelo desenvolvimento econômico. Principalmente quando se fala em geração de empregos em larga escala. Soube que devem ser gerados cerca de 2 mil empregos, entre diretos e indiretos. E o prefeito Saulo Weiss (PMDB) estaria empolgadíssimo.
A primeira licença para a instalação já foi dada pela Fundação Estadual de Meio Ambiente (Fatma). Claro, isso não demorou porque se trata de um empreendimento da gigante alimentícia Bünge, por intermédio da Indústria de Fosfatados Catarinense Ltda. Onde há um forte lobby. E se tratando da Fatma, há que se desconfiar mais que duas vezes. Segundo o pessoal da Fepam (a fundação de proteção ambiental gaúcha), a Fatma tem fama de ser “frouxa”. E num governo como o de Luiz Henrique da Silveira (PMDB) – que apoiou o descarado “código florestal catarinense” –, dizem que a Fatma, assim como outros órgãos do Estado, são loteados politicamente. Logo, sem critérios racionais.
Tubarão precisa se mobilizar: o projeto prevê a construção de uma barragem de 80 metros de altura no Rio Pinheiros, afluente do Braço do Norte–Rio Tubarão, onde ficarão retidos os dejetos tóxicos da extração do fosfato.
Imagine a catástrofe: numa região em que a água já é castigada pela extração de carvão mineral, ter uma barragem gigantesca retendo resíduos tóxicos e que pode arrebentar a qualquer momento, bastando uma chuva torrencial para iniciar o desastre. Qualquer vazamento é fatal para todas as cidades que dependem do Rio Braço do Norte e Tubarão, além do Complexo Lagunar, para sobreviver.
Isso sem relevar o fato dos caminhões – em torno de 112/dia – que irão trafegar com enxofre, ácido sulfúrico e fosfato pela BR-282/BR-101 até o Porto de Imbituba e até Lages, onde a carga seguirá por ferrovia até Rio Grande do Sul e São Paulo. Os riscos de um grave acidente ambiental são enormes, segundo especialistas.
— Fica a pergunta: é isso que queremos, mesmo? Será que vale a pena o “Brasil, País do futuro” sacrificando o meio ambiente e a segurança de sobrevivência de mais de 300 mil pessoas?
Fique à vontade para conhecer as duas versões: Quem quer: www.projetoanitapolis.com.br / Quem não quer: www.montanhaviva.org.br
No próximo post digo o que isso tem a ver com a concentração populacional no litoral catarinense.
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