*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel
Cada uma das partes de um conflito sempre conta a história à sua maneira. Desde um arranca-rabo doméstico a um conflito mundial. Quase nada muda.
Tenho 30 anos e até hoje briguei apenas uma vez na rua. Se é que alguém pode chamar de briga aquele entrevero da saída da aula quando estava na 7ª série. Sempre fui um sujeito pacato, embora com alguns acessos de irritação corriqueiros e isolados. Naquele ano assumi de vez meu lugar na turma do fundão e dali sairia muito tempo mais tarde.
Naquela classe estudava um rapaz atarracado, o tipo baixinho metido a valentão. Frank é o nome dele. Volta e meia passo por ele nas ruas da minha pequena Tubarão, ao Sul de Santa Catarina, mas nunca mais nos cumprimentamos.
O Frank era o goleiro do time de futebol de salão da turma. Quase todo time de salão tem um arqueiro com o biotipo do Frank. É fácil imaginar. Tinha em sim uma aura que procurava encrenca em todo o canto. Andava com o peito estufado provocando todos com o olhar. Normalmente se metia com quem nada tinha que ver com o que ele pensava.
Certo dia, durante o recreio (o que hoje chamam de intervalo), mal terminei meu pastel de carne acompanhado de um Chocoleite e deixei meu instinto animal prevalecer. Fui tomar as dores de uma infeliz vítima do tal Frank.
Como contei no início da conversa, briguei apenas uma vez na vida e foi justamente naquela. Tinha tudo pra levar a maior surra. O Frank era temido por todos. Num primeiro momento fui salvo pelo gongo, quando acabaram os 15 minutos de vadiagem. Trocamos um empurrão de cada, sem ninguém da turma do deixa disso se manifestar e juramos um novo encontro na saída.
Não lembro dos minutos que antecederam o grande embate, como não faço ideia de como a notícia se espalhou por toda a escola. Admito que não queria brigar. Não sabia nem como brigar. Eu era do tipo sossegado: óculos de grau e cabelo lambido.
Apertei o passo na saída. Na esquina uma multidão já estava formada. Olhavam para mim como estivessem no Coliseu de Roma e eu fosse um pobre cristão a caminho do encontro com um leão. Não sei com quais palavras Frank me chamou, mas me fez parar e virar para trás. A roda se abriu.
A briga foi rápida. Até hoje sempre disse que eu venci. Que quebrei o relógio dele. Mas, omitia um detalhe: antes ele me deu um tapa desmoralizante nos óculos, que voaram. Fiquei sem saber o que fazer. A única reação foi um chute perdido, sem nenhuma habilidade, que por sorte minha, aterrissou meu pé direito no querido relógio do Frank.
Ele parou para verificar o estrago e eu corri atrás dos meus óculos que, pasmem, estavam intactos.
Levei esse tempo para admitir que nessa briga estapafúrdia não existiu vencedores e que levei esse tapa constrangedor. Mesmo assim, só contei para vocês, que sei, irão guardar segredo. Não sei se o Frank, algum dia confessou quase ter chorado por aquele relógio, mas certamente vangloriou-se destilando sua versão sobre a briga e elevando ao máximo o tapa que me deu.
Assim como naquela infeliz tarde em que todo o colégio parou para nos ver brigar, o mundo parou para ver os Estados Unidos contra os vietcongs. Entre 1959 e 1975 a Guerra do Vietnã tomou conta das atenções mundiais.
Cinquenta anos depois do início do conflito travado no Sudeste Asiático, entre o Vietnã do Norte e seus aliados comunistas e o Vietnã do Sul apoiado pelos Estados Unidos – que entraram na guerra em 1965 após ataques provocativos a embarcações na costa vietnamita.
A guerra para os americanos durou oito anos. Em 1973 eles retiraram suas desmanteladas e humilhadas tropas de solo asiático. O governo do Vietnã do Sul entrou em colapso e os guerrilheiros e soldados comandados por Ho Chi Minh invadiram e ocuparam Saigon em abril de 1975, provocando a rendição integral do exército sul-vietnamita.
Na nossa cultura ocidental com influência maciça do capitalismo liderado pelos Estados Unidos, as cinco décadas do início da Guerra do Vietnã certamente passaram quase que despercebidas, ao contrário dos 40 anos do festival de Woodstock realizado em 1969 e é lembrado à beça.
Os americanos em rituais discretos irão lembrar suas vítimas e os que pregaram em favor da "paz e amor" contra a Guerra do Vietnã tentarão em vão levar o tema para reflexões. No Vietnã do Norte, considerados vencedores do conflito, é certo que desfiles militares e muita exibição armamentista marcarão a passagem da data.
O costume é sempre determinar um vencedor e um derrotado em qualquer conflito e mesmo que ele não exista, sempre uma parte puxará a brasa para sua sardinha.
Na pequena briga que travei com Frank, exalto o relógio que quebrei do adversário e escondo o tapa que levei nos óculos. Ele deve narrar os fatos como meu algoz ao me arrancar os aros pretos com fundos de garrafa do rosto com um safanão. Na realidade, perderam os dois. Ele com o relógio quebrado e eu com a dignidade no chão.
Na Guerra do Vietnã, os derrotados Estados Unidos contabilizaram aproximadamente 50 mil mortos. O vencedor Vietnã do Norte, que teve seu país arrasado e parte considerável de sua população economicamente ativa morta, olhando-se no espelho atualmente não deve ter muitos motivos para se achar um vencedor.
Do lado Norte e do lado Sul, os Vietnãs perderem algo em torno de quatro milhões de vidas, além de outros dois milhões de cambojanos e laocianos, arrastados para a guerra com a propagação do conflito.
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domingo, agosto 23, 2009
quinta-feira, agosto 06, 2009
América Latina e outro continente a sua escolha
*Anderson Paes | www.twitter.com/andersonpaes
Nos dias de chuva ou quando todos tinham vontade, alguns amigos se reuniam e continuavam uma partida de War, que começaram havia um certo tempo. Resolveram deixar os objetivos das cartas de lado e tentar dominar o mundo – mesmo sabendo que o jogo se tornaria quase interminável. Mas estavam de férias, então continuaram.
No sorteio das cartas ele havia tirado “América Latina e outro continente a sua escolha”, mas com a decisão de conquistar o mundo todo, fez pouco caso e jogou. Num lance de dados, tio Sam começa a avançar para o sul do Caribe. Era a parte que faltava para sua estratégia, pois não há mais perigo de reação do velho Kremlin – agora roncando – com suas poucas peças na Ásia.
A Europa, depois de anos lutando contra os dados que eram jogados por lá, se rebelou e acumulou peças, conquistou parte da África e hoje vive sem grandes objetivos nesse tabuleiro. Quase o mundo todo já foi vencido, pelas armas ou pelos ideais e culturas. Até a China se deixou invadir.
De vez em quando ainda se ouve reações de pequenos exércitos querendo lançar seus dados contra o sempre atento e hiperativo tio Sam. Batem na mesa e jogam sem saber que logo perderão suas últimas pedras coloridas.
A entrada do exército do Norte no território sul americano, ao que tudo indica – depois de algumas rodadas –, será pelos Andes. Ali perto, um último combatente ameaça contra-atacar. Huguito, como é chamado pelos amigos da mesa – com seu sorriso sarcástico estampado na cara –, vive reclamando das novas regras do jogo e ainda pensa em liderar a América do Sul. Os demais jogadores parecem aceitar a vitória e querem apenas cuidar do que têm, travando pequenas batalhas regionais – para que os jogadores mais exaltados não queiram acabar com o tabuleiro e recomeçar a partida.
Quando o clima começa a esquentar, a mãe de Europa, Terra, traz um lanche e suco para acalmar os jogadores. Ainda assim, de vez em quando, discutem. Foi o que aconteceu com um velho amigo chamado Hussein, que brigou com todo mundo e quase partiu para a agressão – acabou mandado embora pelos outros colegas, antes que a coisa piorasse. Depois de momentos assim, os amigos deixam o tabuleiro de lado e vão brincar com seus foguetes de água, nadar, contar piadas, jogar bola – chamam de Olimpíadas.
Dia desses, Terra chegou em casa dizendo que tinha pouca coisa para oferecer e que estava em crise. Os jogadores ficaram desanimados e resolveram ajudá-la nas tarefas do lar. “Depois a gente termina, vamos brincar”, chamou um dos mais novos jogadores, Luís.
Luís não parecia muito preocupado. “É só um jogo!”, repetia – tentando controlar seus amigos, os irmãos Álvaro e Huguito, que haviam discutido dias antes quando um quis atacar o território do outro. Álvaro, que controlava os Andes e perdeu nos dados para o tio Sam, chamou Luís para uma conversa – estava preocupado com as reações nervosas do irmão.
Sorridente e não compreendendo bem o espanhol do colega andino, Luís tratou de acalmar a todos contando que havia encontrado algo interessante em seu quintal. Tio Sam disfarçou, como se deixasse o assunto com Álvaro esfriar, e foi logo conversar com Luís. Ofereceu uns brinquedos em troca do novo achado e estão até agora conversando.
Qualquer dia eles voltam para o tabuleiro.
Nos dias de chuva ou quando todos tinham vontade, alguns amigos se reuniam e continuavam uma partida de War, que começaram havia um certo tempo. Resolveram deixar os objetivos das cartas de lado e tentar dominar o mundo – mesmo sabendo que o jogo se tornaria quase interminável. Mas estavam de férias, então continuaram.
No sorteio das cartas ele havia tirado “América Latina e outro continente a sua escolha”, mas com a decisão de conquistar o mundo todo, fez pouco caso e jogou. Num lance de dados, tio Sam começa a avançar para o sul do Caribe. Era a parte que faltava para sua estratégia, pois não há mais perigo de reação do velho Kremlin – agora roncando – com suas poucas peças na Ásia.
A Europa, depois de anos lutando contra os dados que eram jogados por lá, se rebelou e acumulou peças, conquistou parte da África e hoje vive sem grandes objetivos nesse tabuleiro. Quase o mundo todo já foi vencido, pelas armas ou pelos ideais e culturas. Até a China se deixou invadir.
De vez em quando ainda se ouve reações de pequenos exércitos querendo lançar seus dados contra o sempre atento e hiperativo tio Sam. Batem na mesa e jogam sem saber que logo perderão suas últimas pedras coloridas.
A entrada do exército do Norte no território sul americano, ao que tudo indica – depois de algumas rodadas –, será pelos Andes. Ali perto, um último combatente ameaça contra-atacar. Huguito, como é chamado pelos amigos da mesa – com seu sorriso sarcástico estampado na cara –, vive reclamando das novas regras do jogo e ainda pensa em liderar a América do Sul. Os demais jogadores parecem aceitar a vitória e querem apenas cuidar do que têm, travando pequenas batalhas regionais – para que os jogadores mais exaltados não queiram acabar com o tabuleiro e recomeçar a partida.
Quando o clima começa a esquentar, a mãe de Europa, Terra, traz um lanche e suco para acalmar os jogadores. Ainda assim, de vez em quando, discutem. Foi o que aconteceu com um velho amigo chamado Hussein, que brigou com todo mundo e quase partiu para a agressão – acabou mandado embora pelos outros colegas, antes que a coisa piorasse. Depois de momentos assim, os amigos deixam o tabuleiro de lado e vão brincar com seus foguetes de água, nadar, contar piadas, jogar bola – chamam de Olimpíadas.
Dia desses, Terra chegou em casa dizendo que tinha pouca coisa para oferecer e que estava em crise. Os jogadores ficaram desanimados e resolveram ajudá-la nas tarefas do lar. “Depois a gente termina, vamos brincar”, chamou um dos mais novos jogadores, Luís.
Luís não parecia muito preocupado. “É só um jogo!”, repetia – tentando controlar seus amigos, os irmãos Álvaro e Huguito, que haviam discutido dias antes quando um quis atacar o território do outro. Álvaro, que controlava os Andes e perdeu nos dados para o tio Sam, chamou Luís para uma conversa – estava preocupado com as reações nervosas do irmão.
Sorridente e não compreendendo bem o espanhol do colega andino, Luís tratou de acalmar a todos contando que havia encontrado algo interessante em seu quintal. Tio Sam disfarçou, como se deixasse o assunto com Álvaro esfriar, e foi logo conversar com Luís. Ofereceu uns brinquedos em troca do novo achado e estão até agora conversando.
Qualquer dia eles voltam para o tabuleiro.
terça-feira, julho 21, 2009
Apocalypse now
*Gabriel Guedes | www.twitter.com/gabrielzguedes
O nome do post pode soar exagero e também nem um pouco original. Tudo bem... Ambos têm em comum uma palavra tão forte quanto as atitudes intrínsecas contidas nela: a ‘guerra’. Posso citar várias guerras de verdade, mas assim, seria fácil demais.
Desde que me conheço por gente, me considerava homem do interior, gente simples e que não precisa de muito para viver feliz. Apenas o necessário para a subsistência. Na última vez em que estive na Província (minha nova denominação para Tubarão), resolvi dar uma ‘banda’ pela Serra Catarinense. Isso foi lá pelo dia 12 de julho. Eu e minha mulher planejávamos há alguns meses uma volta por lá. O tempo feio, cinzento, sem graça e depressivo que dominou o Sul (é, o Rio Grande do Sul) por mais de sete dias, quase tirou as esperanças de que fosse haver sol naquele domingo. Mas genial como ele só, Deus nos brindou com aquele sol divino, céu azul, aquele céu azul tricolor. De brigadeiro. De resto, o dia só poderia ter sido mágico com tamanha colaboração divina. Aquela paisagem me dava sensação de paz, de dias tranqüilos. Era inspirador a isso.
Saudade. Afinal, há cinco anos deixei minha pacata vida na Província para encarar as aventuras numa selva de pedra, concreto e asfalto numa metrópole de 3 milhões de pessoas. Quando cheguei aqui, me senti um verdadeiro ‘Crocodilo Dundee’. Impressionado como a vida ia acontecendo em meio ao caos urbano (não conheço caos rural).
Passado pouco mais de uma semana da 'minha paz', tive uma terça-feira da onça. É, praticamente uma segunda-feira (embora o dia de ontem tenha corrido bem melhor). Lidei de perto com os perigos da selva urbana. Acordei antes do galo cantar, mas com os vizinhos correndo atrás de ‘intrusos’ no meu prédio. Sem medo e sem a sensação de segurança, mais tarde fui trabalhar. Ao descer do ônibus, passa um carro pela BR-116, dá uma buzinada e fica me insultando de graça, mostrando o famigerado dedo do meio. Fiquei perplexo e pensei: — Como há pessoas que gostam de estragar o dia dos outros? — mas continuei com a minha estrada. Fui trabalhar. Final de tarde, chega! Com a cabeça na lua, e um dia nada produtivo, encerro o expediente na redação. Vou buscar a mulher no trabalho dela. O ônibus atrasa. Era para chegar às 18h36. Cheguei às 18h47. A BR-116 está parada. As ruas paralelas também. Outras ruas de acesso à cidade, também. Congestionamento, buzinaço, motoristas estressados. E eu achando que o dia já estava ruim...
Mas não precisei muito para não duvidar de que algo que está ruim, pode piorar sim. Caminho umas quatros quadras até chegar em frente ao trabalho de minha ‘excelentíssima’. São 18h56. Chego e fico esperando. Às 18h59: — Pá! Pá! Pá! Pá!! — As pessoas correm. Era o tiro ‘comendo solto’. E eu lá, a menos de uma quadra do incidente. Até agora não sei o que foi, o que era. Mas nem quero saber. Mas já adianto que houve ferido (ou feridos?).
Mas para quem passou 22 anos na Província, foi uma verdadeira cena de guerra. Após tudo isso, difícil me sentir tranqüilo. Ainda que a cidade que melhor me recebeu diminuiu os índices de violência nos últimos dois anos, está longe de ser a mais tranqüila. Acho que nem a Província é tão tranqüila quanto nos meus tempos de garoto. Vivemos tempos de guerra. E nem sabemos dos ideais. Uma guerra sem ideais.
Mas não é querer ser pessimista. A semana está começando também com prognósticos meteorológicos que beiram o Apocalipse. Agosto, o mês do cachorro louco se aproxima. Some tudo isso à prevalência da intolerância, da ganância, da falta de moral e ética e da falta de amor entre as pessoas. Agora imagine o resultado.
Se a natureza nos derrotar, quem sabe nosso fim seja menos vergonhoso.
O nome do post pode soar exagero e também nem um pouco original. Tudo bem... Ambos têm em comum uma palavra tão forte quanto as atitudes intrínsecas contidas nela: a ‘guerra’. Posso citar várias guerras de verdade, mas assim, seria fácil demais.
Desde que me conheço por gente, me considerava homem do interior, gente simples e que não precisa de muito para viver feliz. Apenas o necessário para a subsistência. Na última vez em que estive na Província (minha nova denominação para Tubarão), resolvi dar uma ‘banda’ pela Serra Catarinense. Isso foi lá pelo dia 12 de julho. Eu e minha mulher planejávamos há alguns meses uma volta por lá. O tempo feio, cinzento, sem graça e depressivo que dominou o Sul (é, o Rio Grande do Sul) por mais de sete dias, quase tirou as esperanças de que fosse haver sol naquele domingo. Mas genial como ele só, Deus nos brindou com aquele sol divino, céu azul, aquele céu azul tricolor. De brigadeiro. De resto, o dia só poderia ter sido mágico com tamanha colaboração divina. Aquela paisagem me dava sensação de paz, de dias tranqüilos. Era inspirador a isso.
Saudade. Afinal, há cinco anos deixei minha pacata vida na Província para encarar as aventuras numa selva de pedra, concreto e asfalto numa metrópole de 3 milhões de pessoas. Quando cheguei aqui, me senti um verdadeiro ‘Crocodilo Dundee’. Impressionado como a vida ia acontecendo em meio ao caos urbano (não conheço caos rural).
Passado pouco mais de uma semana da 'minha paz', tive uma terça-feira da onça. É, praticamente uma segunda-feira (embora o dia de ontem tenha corrido bem melhor). Lidei de perto com os perigos da selva urbana. Acordei antes do galo cantar, mas com os vizinhos correndo atrás de ‘intrusos’ no meu prédio. Sem medo e sem a sensação de segurança, mais tarde fui trabalhar. Ao descer do ônibus, passa um carro pela BR-116, dá uma buzinada e fica me insultando de graça, mostrando o famigerado dedo do meio. Fiquei perplexo e pensei: — Como há pessoas que gostam de estragar o dia dos outros? — mas continuei com a minha estrada. Fui trabalhar. Final de tarde, chega! Com a cabeça na lua, e um dia nada produtivo, encerro o expediente na redação. Vou buscar a mulher no trabalho dela. O ônibus atrasa. Era para chegar às 18h36. Cheguei às 18h47. A BR-116 está parada. As ruas paralelas também. Outras ruas de acesso à cidade, também. Congestionamento, buzinaço, motoristas estressados. E eu achando que o dia já estava ruim...
Mas não precisei muito para não duvidar de que algo que está ruim, pode piorar sim. Caminho umas quatros quadras até chegar em frente ao trabalho de minha ‘excelentíssima’. São 18h56. Chego e fico esperando. Às 18h59: — Pá! Pá! Pá! Pá!! — As pessoas correm. Era o tiro ‘comendo solto’. E eu lá, a menos de uma quadra do incidente. Até agora não sei o que foi, o que era. Mas nem quero saber. Mas já adianto que houve ferido (ou feridos?).
Mas para quem passou 22 anos na Província, foi uma verdadeira cena de guerra. Após tudo isso, difícil me sentir tranqüilo. Ainda que a cidade que melhor me recebeu diminuiu os índices de violência nos últimos dois anos, está longe de ser a mais tranqüila. Acho que nem a Província é tão tranqüila quanto nos meus tempos de garoto. Vivemos tempos de guerra. E nem sabemos dos ideais. Uma guerra sem ideais.
Mas não é querer ser pessimista. A semana está começando também com prognósticos meteorológicos que beiram o Apocalipse. Agosto, o mês do cachorro louco se aproxima. Some tudo isso à prevalência da intolerância, da ganância, da falta de moral e ética e da falta de amor entre as pessoas. Agora imagine o resultado.
Se a natureza nos derrotar, quem sabe nosso fim seja menos vergonhoso.
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