Manuela Prá | www.twitter.com/manuelapra
A barba por fazer é a única coisa que remete o dono da banca de artesanato hippie, no centro de Tubarão (SC), ao movimento. A camiseta surrada e os jeans já rotos não lembram nem de longe a explosão de cores e liberdade da cultura do paz & amor.
Josué Luz tem 42 anos, e o artesanato, vendido de segunda a sexta, na banca, é a única fonte de renda dele e da mulher, também artesã.
"Já nasci em uma feira de artesanato" diz, sobre o fato de os pais terem lhe ensinado o ofício. Ninguém da família se opôs quando Josué começou a fazer e comercializar brincos e pulseiras.
Ele tem dois filhos, uma moça, hoje com 22 anos, e um garoto, de 11. Quando pergunto se ele se importaria, caso os filhos quisessem seguir a mesma carreira do pai, Josué dá de ombros. Conta que o filho mais novo adora desenhar. "O guri desenha legal, já mostra uma
veia artística, né!?".
Ao falar sobre sua filha mais velha, ele sorri saudoso. "Ela faz faculdade, não mora comigo, está em Porto Alegre". E antes de me responder que curso a moça faz, ele deixa escapar uma risada. "Ela vai ser jornalista".
Enquanto conversamos, o movimento na banca não para. E entre interrupções, como "esse é dois (reais), mas se levar três tem desconto!", Josué volta a afirmar: "se um dos meus filhos quiser trabalhar com isso não vou me importar. É gostoso, não cansa e dá uma grana legal".
Josué e a esposa são gaúchos, de Porto Alegre. O que os trouxe a Tubarão? A velha Kombi em que moravam, eles e os filhos pequenos.
"Viajávamos de Porto para São Paulo até que a Kombi quebrou, bem aqui perto, na BR-101. A pequena já estava em idade de ir para a escola, e o carro demorava a ficar pronto. Fomos ficando e ficando... e estamos aqui até hoje".
Do antigo veículo restam só as lembranças, tão fortes para a família, que acabou por adquirir uma nova Kombi. "A velha nós vendemos, mas comprei outra". Para matar as saudades, ele e a esposa ainda dormem na Kombi quando levam seus produtos para vender em rodeios e eventos religiosos, nos fins de semana.
"É um hábito nosso, e também para ganhar um extra", conta sobre o trabalho fora das calçadas tubaronenses. Josué explica que eles adaptam a produção, fazendo desde rosários com sementes até artefatos em couro para atrair o público deste tipo de festa.
Ele também revela que a mídia contribui consideravelmente para as vendas. "Novelas
e reality shows sempre geram aumento na procura pelos nossos artesanatos quando têm personagens mais alternativos. Aquela novela indiana ajudou muito, vendemos muitos brincos, anéis e pulseiras", exemplifica Josué, falando sobre o folhetim exibido no horário nobre da Rede Globo.
Na cidade, muitos se referem ao local de trabalho de Josué como "banca do hippie".
Mas quando questionado ele dispara: "Não sou hippie", e diz que o movimento nunca existiu aqui.
Em grande parte dos livros e sites que abordam o tema, o movimento é descrito como um evento que reuniu jovens norte-americanos, inicialmente, sob a mesma ideologia, de usar a paz para acabar com desigualdades encontradas nos Estados Unidos, como a segregação racial.
Acompanharam o estilo, que marcou a década de 70 e posteriormente se espalhou pelo mundo, de roupas extravagantes e assessórios artesanais, confeccionadas com materiais reaproveitados, o que reforçava o ideal da busca pela ligação com a natureza.
Mas Josué retifica: "os únicos hippies de verdade foram os jovens que se recusaram a
participar da Guerra do Vietnã. Sem documentos, eles passaram a fazer artesanato para poder se alimentar. Só esses foram realmente hippies".
Josué também desabafa. "As pessoas têm muito preconceito". Quando pergunto qual, ele hesita.
"Ah...elas sentem pena, olham diferente, mas eu nem dou bola". E faz graça ao dizer: "melhor, elas ficam com peninha e compram nossas peças para ajudar".
O artesão adora seu trabalho, e exclama que se preocupa com o futuro. "Pago previdência e até comprei uma casa".
Atualmente, a Josué e a família moram em Laguna, na Vila das Laranjeiras, uma colônia de pescadores. Ele conta que o filho estuda com os filhos dos pescadores e já
está aprendendo a pescar.
Peço uma frase para ele dizer ao mundo. Ele pensa por um momento e declara: "Matemática é poder".
E a matemática a que ele se refere é a do dinheiro, de saber contar, empregar, vender e principalmente, a de se importar com este. Algo que pode significar muito para a maioria das pessoas, mas é uma forma de poder que não interessa tanto ao Josué.
O artesão adora o que faz e revela que já fez cursos de carpintaria, que considera uma forma de artesanato em maiores dimensões. O próximo passo? Josué pretende fazer um curso de carpintaria naval.
"Meu sonho... é terminar a vida em um navio".
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quinta-feira, dezembro 09, 2010
quinta-feira, dezembro 17, 2009
Dezembrofobia
*Thiago Schwartz | www.twitter.com/perereco
Dezembro está aí, e com ele alguns (incluindo este que vos fala) são acometidos de uma doença ainda não completamente desvendada pela ciência: a Dezembrofobia.
Fases da Dezembrofobia:
Estágio inicial – A ansiedade. Geralmente manifesta-se no dia 1º. A espera do último salário do ano é angustiante. Mas lá pelo dia 10 ele chega, geralmente acompanhado de um amiguinho conveniente, o 13º.
Segundo estágio – A dor. Lá está você, com 150% do seu salário em uma das mãos, e um bolo de contas na outra. Você tem dinheiro, um dinheiro considerável. Dava até pra fazer uma mala e sair da cidade, vivendo como um riponga por alguns meses. Mas você não vai fazer isso. Vai pagar as contas.
Terceiro estágio – A culpa. Contas pagas, alívio. Não. Por causa delas – as contas –, sua sobrinha ficará sem a boneca que arrota. Por causa delas você não poderá dar um Pinot Noir pro pessoal da coleta de lixo. Eles vão ter que se contentar com o garrafão de "coquetel de uva" (aquela cachaça misturada com Q-Suco) tradicional de todo ano.
Quarto estágio – A ira. Vem o amigo secreto da firma. E você sempre tira alguém de outro setor. Que você cumprimenta 2 vezes por ano (uma delas na festa de amigo secreto, a outra por volta de maio, no corredor). Pra agradar, você dá aquele presente legal pro seu amigão, gastando algo que não gastaria para comprar um presente para sua mãe. E ganha, em contra-partida, um vale-cd da loja localizada no ponto mais distante possível em relação a sua casa.
Quinto estágio – A dúvida. Sua mulher diz que quer um presente. Mas não diz qual. Quer que você adivinhe o presente. Que olhe para o presente e pense: "Nossa, como esse presente me faz lembrar o meu amor... Que momento sublime iremos ter juntos com esse presente. Como ver ela ganhando esse presente me faz feliz". Num shopping center lotado, dia 23. E sim, você vai errar na escolha. Mas com alguma sorte, essa será a última briga do ano.
Sexto estágio – A revolta. Aparecem os itens mágicos de Natal. Um exército de Chesters, Perus e Tenders invade as prateleiras frias do supermercado. E, de acordo com sua mulher, todos são indispensáveis na ceia de Natal, mesmo que o tal do Tender fique rolando na geladeira por uns 4 dias, e acabe sendo cortado em cubinhos e colocado no "Arroz de forno" do jantar do dia 31.
Estágio final – A aceitação. É dia 26: Todos os sobrinhos já ganharam presentes (e detestaram as bonecas que não arrotam), o cara da coleta de lixo olha você com cara feia e "esquece" de pegar seu lixo por duas semanas, o vale-cd sobre a mesinha da sala, sua mulher ainda não conversa com você, você come o último pão do saquinho, recheado com um pedaço gelado de Tender (e pão agora só ano que vem, Papai Noel levou o dinheiro do mês). Dezembro está oficialmente acabando. Contagem regressiva. Amanhã eu vou pra praia, vou tirar a camiseta, passar o protetor fator 60, botar o pezinho n'água, fingir que estou lendo um livro pra poder olhar a mulherada sem levar bronca da patroa...
Ligam do escritório: Balanço anual na mesa do chefe pro dia 31. À tarde.
Dezembro está aí, e com ele alguns (incluindo este que vos fala) são acometidos de uma doença ainda não completamente desvendada pela ciência: a Dezembrofobia.
Fases da Dezembrofobia:
Estágio inicial – A ansiedade. Geralmente manifesta-se no dia 1º. A espera do último salário do ano é angustiante. Mas lá pelo dia 10 ele chega, geralmente acompanhado de um amiguinho conveniente, o 13º.
Segundo estágio – A dor. Lá está você, com 150% do seu salário em uma das mãos, e um bolo de contas na outra. Você tem dinheiro, um dinheiro considerável. Dava até pra fazer uma mala e sair da cidade, vivendo como um riponga por alguns meses. Mas você não vai fazer isso. Vai pagar as contas.
Terceiro estágio – A culpa. Contas pagas, alívio. Não. Por causa delas – as contas –, sua sobrinha ficará sem a boneca que arrota. Por causa delas você não poderá dar um Pinot Noir pro pessoal da coleta de lixo. Eles vão ter que se contentar com o garrafão de "coquetel de uva" (aquela cachaça misturada com Q-Suco) tradicional de todo ano.
Quarto estágio – A ira. Vem o amigo secreto da firma. E você sempre tira alguém de outro setor. Que você cumprimenta 2 vezes por ano (uma delas na festa de amigo secreto, a outra por volta de maio, no corredor). Pra agradar, você dá aquele presente legal pro seu amigão, gastando algo que não gastaria para comprar um presente para sua mãe. E ganha, em contra-partida, um vale-cd da loja localizada no ponto mais distante possível em relação a sua casa.
Quinto estágio – A dúvida. Sua mulher diz que quer um presente. Mas não diz qual. Quer que você adivinhe o presente. Que olhe para o presente e pense: "Nossa, como esse presente me faz lembrar o meu amor... Que momento sublime iremos ter juntos com esse presente. Como ver ela ganhando esse presente me faz feliz". Num shopping center lotado, dia 23. E sim, você vai errar na escolha. Mas com alguma sorte, essa será a última briga do ano.
Sexto estágio – A revolta. Aparecem os itens mágicos de Natal. Um exército de Chesters, Perus e Tenders invade as prateleiras frias do supermercado. E, de acordo com sua mulher, todos são indispensáveis na ceia de Natal, mesmo que o tal do Tender fique rolando na geladeira por uns 4 dias, e acabe sendo cortado em cubinhos e colocado no "Arroz de forno" do jantar do dia 31.
Estágio final – A aceitação. É dia 26: Todos os sobrinhos já ganharam presentes (e detestaram as bonecas que não arrotam), o cara da coleta de lixo olha você com cara feia e "esquece" de pegar seu lixo por duas semanas, o vale-cd sobre a mesinha da sala, sua mulher ainda não conversa com você, você come o último pão do saquinho, recheado com um pedaço gelado de Tender (e pão agora só ano que vem, Papai Noel levou o dinheiro do mês). Dezembro está oficialmente acabando. Contagem regressiva. Amanhã eu vou pra praia, vou tirar a camiseta, passar o protetor fator 60, botar o pezinho n'água, fingir que estou lendo um livro pra poder olhar a mulherada sem levar bronca da patroa...
Ligam do escritório: Balanço anual na mesa do chefe pro dia 31. À tarde.
quarta-feira, outubro 07, 2009
O suéter verde
*Camila Rufine | www.twitter.com/camilarufine
Quinta-feira foi meu primeiro dia de folga em La Grange Park.
Muito insegura e descoordenada para arriscar sozinha um trem para Chicago, decidi me aventurar pelas ruas da cidadezinha e descobrir se eu poderia gastar uns dólares, como terapia. Lembrei-me que precisava de agasalhos.
Passei por algumas lojas e tentei enxergar, do lado de fora dos estabelecimentos, se lá dentro havia alguma possibilidade de boa compra. Várias decepções, até que os manequins de outra vitrine me chamaram a atenção para uma jaqueta de couro bem bonita, com etiqueta de $30 dólares. Olhei para o lado de dentro e vi um bando de mulheres alvoroçadas. Pensei comigo: o paraíso deve ser aqui mesmo! E entrei.
Na primeira arara da loja percebi umas roupas meio retrôs demais. Achei meio estranho, mas passei direto para a arara que tinha a placa: barganhas femininas. Remexi e vi um suéter de lã verde-quase-limão. Gostei. Procurei pelo preço na peça, até que encontrei uma etiqueta que dizia "US$ 2". "Não era possível", pensei. "Achei um brechó? Mas essa loja está arrumadinha demais para ser um brechó". Na dúvida, medi as mangas da peça nos meus braços e procurei por algum defeito. Tudo certo, então agarrei o suéter com as forças que tinha e continuei a explorar a loja.
Nas outras araras, encontrei sobretudos de lã por $20 dólares. Jaquetas não tão bregas por $15. Definitivamente, aquilo era um brechó. Fiquei tão feliz. Quem me conhece pode imaginar o quanto um brechó me alegra. Depois de vasculhar muito, encontrei uma jaqueta de couro forrada com aquelas pelúcias felpudinhas, em perfeito estado, por apenas $25. Experimentei no espelho que havia em um dos pilares da loja e fui em direção ao caixa. As duas peças, com a cobrança de taxas, saíram por $29 dólares. Um verdadeiro tesouro, segundo a antendente.
Cheguei em casa e tentei ir direto ao meu quarto sem que meus hosts (meus anfitriões e patrões) percebecem por onde eu havia andado. Pendurei as minhas novas peças de vestuário no meu closet e resolvi usar meu suéter verde naquela mesma noite.
Minha host elogiou meu suéter. Eu apenas agradeci. Não contei a história para ela. Mas fiquei preocupada. Será que era dela antigamente? Será que ela sabe por onde andei? Ou será que ela só achou verde-limão demais para minha pele e não soube o que dizer?
No outro dia de manhã, usei novamente o suéter, para levar os meninos que estou cuidando passearem. E novamente, ouço da minha host:
— Eu realmente gostei do seu suéter. Adoro verde.
Agradeci novamente, mas não contei que ele me custou apenas dois dólares em um brechó. Acho que, assim como acontece com o direito e com as salsichas, ela não precisa saber como o meu guarda-roupa é feito.
Quinta-feira foi meu primeiro dia de folga em La Grange Park.
Muito insegura e descoordenada para arriscar sozinha um trem para Chicago, decidi me aventurar pelas ruas da cidadezinha e descobrir se eu poderia gastar uns dólares, como terapia. Lembrei-me que precisava de agasalhos.
Passei por algumas lojas e tentei enxergar, do lado de fora dos estabelecimentos, se lá dentro havia alguma possibilidade de boa compra. Várias decepções, até que os manequins de outra vitrine me chamaram a atenção para uma jaqueta de couro bem bonita, com etiqueta de $30 dólares. Olhei para o lado de dentro e vi um bando de mulheres alvoroçadas. Pensei comigo: o paraíso deve ser aqui mesmo! E entrei.
Na primeira arara da loja percebi umas roupas meio retrôs demais. Achei meio estranho, mas passei direto para a arara que tinha a placa: barganhas femininas. Remexi e vi um suéter de lã verde-quase-limão. Gostei. Procurei pelo preço na peça, até que encontrei uma etiqueta que dizia "US$ 2". "Não era possível", pensei. "Achei um brechó? Mas essa loja está arrumadinha demais para ser um brechó". Na dúvida, medi as mangas da peça nos meus braços e procurei por algum defeito. Tudo certo, então agarrei o suéter com as forças que tinha e continuei a explorar a loja.
Nas outras araras, encontrei sobretudos de lã por $20 dólares. Jaquetas não tão bregas por $15. Definitivamente, aquilo era um brechó. Fiquei tão feliz. Quem me conhece pode imaginar o quanto um brechó me alegra. Depois de vasculhar muito, encontrei uma jaqueta de couro forrada com aquelas pelúcias felpudinhas, em perfeito estado, por apenas $25. Experimentei no espelho que havia em um dos pilares da loja e fui em direção ao caixa. As duas peças, com a cobrança de taxas, saíram por $29 dólares. Um verdadeiro tesouro, segundo a antendente.
Cheguei em casa e tentei ir direto ao meu quarto sem que meus hosts (meus anfitriões e patrões) percebecem por onde eu havia andado. Pendurei as minhas novas peças de vestuário no meu closet e resolvi usar meu suéter verde naquela mesma noite.
Minha host elogiou meu suéter. Eu apenas agradeci. Não contei a história para ela. Mas fiquei preocupada. Será que era dela antigamente? Será que ela sabe por onde andei? Ou será que ela só achou verde-limão demais para minha pele e não soube o que dizer?
No outro dia de manhã, usei novamente o suéter, para levar os meninos que estou cuidando passearem. E novamente, ouço da minha host:
— Eu realmente gostei do seu suéter. Adoro verde.
Agradeci novamente, mas não contei que ele me custou apenas dois dólares em um brechó. Acho que, assim como acontece com o direito e com as salsichas, ela não precisa saber como o meu guarda-roupa é feito.
terça-feira, setembro 29, 2009
Eu já falei com robô?
*Fabiano Bordignon | fabiano@jornaloesporte.com
Quem costuma usar um aparelho telefonia móvel, certamente, já teve de tentar resolver algum imprevisto técnico para quem sabe dar sequência a uma conversa com a namorada – ou amante – ou mesmo chancelar a adiantada situação profissional que havia ficado praticamente decidida.
Efetivamente, a maneira do atendimento dos operadores(as) me faz dar margem a uma projeção: seria uma preliminar da robótica que se aproxima para tomar conta do que muitos já premeditam?
Nem mesmo a voz sensual ou o estilo “safada” de algumas atendentes conseguem despertar o interesse por uma interação. Mais parecem robôs falantes em circuito. Muitas vezes nem eles se entendem.
Quem costuma usar um aparelho telefonia móvel, certamente, já teve de tentar resolver algum imprevisto técnico para quem sabe dar sequência a uma conversa com a namorada – ou amante – ou mesmo chancelar a adiantada situação profissional que havia ficado praticamente decidida.
Efetivamente, a maneira do atendimento dos operadores(as) me faz dar margem a uma projeção: seria uma preliminar da robótica que se aproxima para tomar conta do que muitos já premeditam?
Nem mesmo a voz sensual ou o estilo “safada” de algumas atendentes conseguem despertar o interesse por uma interação. Mais parecem robôs falantes em circuito. Muitas vezes nem eles se entendem.
sábado, setembro 05, 2009
Minha vez de usar
*Viviany Pfleger | vivianypfleger@yahoo.com.br
Você está numa boa, navegando por diversos sites, e lá vem o seu irmão, pai, mãe, vizinho ou amigo... alguém querendo usar o PC.
É uma das coisas mais chatas, ter que ceder o computador para alguém. Seja por uma questão importante ou apenas por diversão, é algo que ninguém gosta: ser mandado embora do PC.
Antigamente – nem tanto –, esse tipo de necessidade nem existia. Hoje ainda dá pra dizer que quem não trabalha diretamente com o computador só o utiliza mesmo pra se ocupar com sites intitulados 'mídias sociais' – bobinho isso, não? Mas todo mundo tem.
A situação de ter que sair do computador quase sempre faz barulho, principalmente entre irmãos ou colegas – no caso das crianças. Experimente ficar numa lan house por uma hora para ver. Mas só vale se tiver guri pequeno usando o PC, e circulando entre uma máquina e outra.
Você pode ser o “senhor paciência”, mas se não colocar o fone, meu amigo, seus ouvidos vão sofrer. A coisa está um tanto barulhenta e agitada – pra não dizer, séria. A gurizada anda gastando dinheiro pra jogar Counter Strike e ver Orkut das menininhas nas Lan Houses por aí. É só constatar.
Fazem vaquinhas pra pagar os jogos em rede e quando brigam então...!
— Ei, minha vez de usar.
— Calma, já tô saindo.
... e demora. Quase se estapeiam na pequena sala e não se importam com quem está ao redor.
— Anda, minha vez de usar o pc.
Não importa a classe social, não importa quem, nem onde está o PC. Na Lan House ou no trabalho, e até na sua casa, pelo menos uma vez na vida alguém vai passar por essa situação.
Você já passou por isso?
Você está numa boa, navegando por diversos sites, e lá vem o seu irmão, pai, mãe, vizinho ou amigo... alguém querendo usar o PC.
É uma das coisas mais chatas, ter que ceder o computador para alguém. Seja por uma questão importante ou apenas por diversão, é algo que ninguém gosta: ser mandado embora do PC.
Antigamente – nem tanto –, esse tipo de necessidade nem existia. Hoje ainda dá pra dizer que quem não trabalha diretamente com o computador só o utiliza mesmo pra se ocupar com sites intitulados 'mídias sociais' – bobinho isso, não? Mas todo mundo tem.
A situação de ter que sair do computador quase sempre faz barulho, principalmente entre irmãos ou colegas – no caso das crianças. Experimente ficar numa lan house por uma hora para ver. Mas só vale se tiver guri pequeno usando o PC, e circulando entre uma máquina e outra.
Você pode ser o “senhor paciência”, mas se não colocar o fone, meu amigo, seus ouvidos vão sofrer. A coisa está um tanto barulhenta e agitada – pra não dizer, séria. A gurizada anda gastando dinheiro pra jogar Counter Strike e ver Orkut das menininhas nas Lan Houses por aí. É só constatar.
Fazem vaquinhas pra pagar os jogos em rede e quando brigam então...!
— Ei, minha vez de usar.
— Calma, já tô saindo.
... e demora. Quase se estapeiam na pequena sala e não se importam com quem está ao redor.
— Anda, minha vez de usar o pc.
Não importa a classe social, não importa quem, nem onde está o PC. Na Lan House ou no trabalho, e até na sua casa, pelo menos uma vez na vida alguém vai passar por essa situação.
Você já passou por isso?
segunda-feira, agosto 31, 2009
Hare baba!
*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel
Gíria de novela. Poucas coisas me aborrecem mais do que gíria de novela. Pior, só gente discutindo novela, dando previsões dos próximos capítulos porque leu em alguma revista de fofoca.
Nada mais efêmero do que gíria de novela. Talvez mais pueril do que as próprias gírias, só mesmo as novelas. Algum noveleiro assíduo, lembra, por um acaso, sem ter que forçar os neurônios, qual o nome da última novela das oito e o seu enredo? Duvide-o-dó!
É o favor que a Rede Globo nós faz ao criar no Brasil a cultura amnética. Por um lado isto é bom. Assim varremos rapidinho o lixo para debaixo do tapete, que como diria Raul Seixas, “é supostamente Persa, pra alegria do ladrão”.
Ô xente my godi; me poupe Salgadinho; felomenal; muita calma nessa hora; eu vai colocar essa prédio na chom; catiguria; cada mergulho é um flash; é justo, é muito justo, é justíssimo; epa, epa, epa; eu quero nhanhar; maledeto e Jamanta não morreu, são alguns exemplos dos bordões relâmpagos que infestam os ambientes durantes os meses de uma novela global e somem com a gota de orvalho na folha exposta ao sol da manhã.
Aonde você vê alguém bradar uma gíria dessas, com a intenção de demarcar território identificando-se como membro da tribo dos noveleiros, se observa nitidamente que livros na cabeceira daquele telespectador (se existem), só se for de auto-ajuda (que ele, por sinal, precisaria, e muita!).
Gíria para mim, é aquela da infância. Assim como a música e os ídolos. Mas o que esperar de um país em o que é sucesso hoje é descartado assim que o novo aparece? E o novo consegue ser pior que o velho, sucessivamente.
Já tivemos o forró-universitário, o pagode-universitário e agora o sertanejo-universitário. Bom seria se o conteúdo dos dramas-melacueca destes cantores tivessem uma profundidade e originalidade poética que merecesse a alcunha.
Mas tudo bem, assim como a maioria dos tele-noveleiros esqueceram em quem votaram nas últimas eleições, as, para mim, repugnantes gírias indianas também serão jogadas ao vento e queimarão no mármore do inferno. To certo, ou to errado?
Gíria de novela. Poucas coisas me aborrecem mais do que gíria de novela. Pior, só gente discutindo novela, dando previsões dos próximos capítulos porque leu em alguma revista de fofoca.
Nada mais efêmero do que gíria de novela. Talvez mais pueril do que as próprias gírias, só mesmo as novelas. Algum noveleiro assíduo, lembra, por um acaso, sem ter que forçar os neurônios, qual o nome da última novela das oito e o seu enredo? Duvide-o-dó!
É o favor que a Rede Globo nós faz ao criar no Brasil a cultura amnética. Por um lado isto é bom. Assim varremos rapidinho o lixo para debaixo do tapete, que como diria Raul Seixas, “é supostamente Persa, pra alegria do ladrão”.
Ô xente my godi; me poupe Salgadinho; felomenal; muita calma nessa hora; eu vai colocar essa prédio na chom; catiguria; cada mergulho é um flash; é justo, é muito justo, é justíssimo; epa, epa, epa; eu quero nhanhar; maledeto e Jamanta não morreu, são alguns exemplos dos bordões relâmpagos que infestam os ambientes durantes os meses de uma novela global e somem com a gota de orvalho na folha exposta ao sol da manhã.
Aonde você vê alguém bradar uma gíria dessas, com a intenção de demarcar território identificando-se como membro da tribo dos noveleiros, se observa nitidamente que livros na cabeceira daquele telespectador (se existem), só se for de auto-ajuda (que ele, por sinal, precisaria, e muita!).
Gíria para mim, é aquela da infância. Assim como a música e os ídolos. Mas o que esperar de um país em o que é sucesso hoje é descartado assim que o novo aparece? E o novo consegue ser pior que o velho, sucessivamente.
Já tivemos o forró-universitário, o pagode-universitário e agora o sertanejo-universitário. Bom seria se o conteúdo dos dramas-melacueca destes cantores tivessem uma profundidade e originalidade poética que merecesse a alcunha.
Mas tudo bem, assim como a maioria dos tele-noveleiros esqueceram em quem votaram nas últimas eleições, as, para mim, repugnantes gírias indianas também serão jogadas ao vento e queimarão no mármore do inferno. To certo, ou to errado?
sexta-feira, agosto 28, 2009
Vou para o inferno?
*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel
Eu acho que vou para o inferno. Se ele existe, do jeito que as coisas vão, é pra lá que eu vou.
Calma! Não tenho presa! Explico o teor de minha conversa com meus botões.
Não vou à missa aos domingos. Aliás, nem às segundas, terças, quartas, quintas, sextas e sábados. Também confesso que dou uma olhadinha quando passa uma mulher gostosa e nem me importo se ela é ou não a mulher do próximo.
Ira, inveja, vaidade, luxúria e avareza? É coisa pouca para um pecador do meu tipo. Gula e preguiça então, são minhas especialidades.
Na hora de votar dizem que não sou cidadão, pois anulo meu voto até em referendo e não respeito os políticos, os padres, os pastores, os bispos e o papa.
Se irritado, esbravejo sem censuras: demônio!
Não vejo muitas chances de escapar do fogo eterno. Os que entendem do assunto ainda me dizem que não existe ateu capaz de sentir compaixão pelos outros e respeito às regras. Discutem comigo que um ser humano só faz o bem se tem medo da punição.
Se vou mesmo para o inferno, sem problemas, mas há atitudes que não aceito de forma alguma. Não suporto aquele que diz que lei existe para ser contestada. Apesar de todo o meu anarquismo, para mim, lei existe é para ser cumprida.
No trânsito, dou a vez sempre que encontro-me numa situação onde dois motoristas disputam a passagem. Paro sempre para os pedestres atravessarem na faixa. Não buzino se o carro da frente demora segundos para arrancar após o sinal verde no semáforo e não desrespeito as monitoras da “área azul”.
Minhas contas estão sempre em dia. Pagas no débito automático e os cheques sempre cobertos. O fio de bigode, na minha casa, ainda vale mais que a palavra. Grávida e idosos, perto de mim, não ficam em pé se eu estiver sentado. Atravesso meio mundo para oferecer o meu lugar. Outro dia em um estacionamento de um shopping, o funcionário me ofereceu uma vaga para idosos. Recusei e estacionei no segundo piso, muito longe da porta de entrada.
Tenho vontade de avançar no pescoço daqueles que dão razão aos oportunistas que se acham no direito de usufruir de dinheiro depositado erroneamente pelo banco em sua conta. Detesto quem leva vantagem por favorecimentos indevidos, do tipo “tenho conhecidos lá dentro”. Se eu for para o inferno, acharia justo levar comigo aqueles que maltratam os animais. Ao menos esses...
A batata assa mesmo em minhas mãos quando lembro que tem muita gente que reza toda noite, vai à missa regularmente, é devota aos santos e adora os padres, diz não cometer nenhum pecado capital e seguir a risca a tábua dos dez mandamentos, vota religiosamente, nem que seja no “menos pior”, que garante ter seu lugarzinho no céu.
Não importa se elas estacionam em vagas para idosos e deficientes, deixam as grávidas de pé enquanto se resfolegam nas cadeiras, vibram com quem não devolve dinheiro alheio, não pagam as contas em dia, tratam os animais como um estorvo na face da terra a ser eliminado, querem levar vantagem em tudo e só fazem o bem com medo da caldeira e do garfo do capeta. Para elas, o lar de São Pedro será o seu lar.
Pelas tantas, um botão olhou pra mim, eu olhei para ele, e como que pensando juntos, conclui: se no inferno eu vou encontrar gente como eu, é pra lá que quero ir. Ou passarei a eternidade com ânsia de vômito, cólica intestinal e urticária.
Eu acho que vou para o inferno. Se ele existe, do jeito que as coisas vão, é pra lá que eu vou.
Calma! Não tenho presa! Explico o teor de minha conversa com meus botões.
Não vou à missa aos domingos. Aliás, nem às segundas, terças, quartas, quintas, sextas e sábados. Também confesso que dou uma olhadinha quando passa uma mulher gostosa e nem me importo se ela é ou não a mulher do próximo.
Ira, inveja, vaidade, luxúria e avareza? É coisa pouca para um pecador do meu tipo. Gula e preguiça então, são minhas especialidades.
Na hora de votar dizem que não sou cidadão, pois anulo meu voto até em referendo e não respeito os políticos, os padres, os pastores, os bispos e o papa.
Se irritado, esbravejo sem censuras: demônio!
Não vejo muitas chances de escapar do fogo eterno. Os que entendem do assunto ainda me dizem que não existe ateu capaz de sentir compaixão pelos outros e respeito às regras. Discutem comigo que um ser humano só faz o bem se tem medo da punição.
Se vou mesmo para o inferno, sem problemas, mas há atitudes que não aceito de forma alguma. Não suporto aquele que diz que lei existe para ser contestada. Apesar de todo o meu anarquismo, para mim, lei existe é para ser cumprida.
No trânsito, dou a vez sempre que encontro-me numa situação onde dois motoristas disputam a passagem. Paro sempre para os pedestres atravessarem na faixa. Não buzino se o carro da frente demora segundos para arrancar após o sinal verde no semáforo e não desrespeito as monitoras da “área azul”.
Minhas contas estão sempre em dia. Pagas no débito automático e os cheques sempre cobertos. O fio de bigode, na minha casa, ainda vale mais que a palavra. Grávida e idosos, perto de mim, não ficam em pé se eu estiver sentado. Atravesso meio mundo para oferecer o meu lugar. Outro dia em um estacionamento de um shopping, o funcionário me ofereceu uma vaga para idosos. Recusei e estacionei no segundo piso, muito longe da porta de entrada.
Tenho vontade de avançar no pescoço daqueles que dão razão aos oportunistas que se acham no direito de usufruir de dinheiro depositado erroneamente pelo banco em sua conta. Detesto quem leva vantagem por favorecimentos indevidos, do tipo “tenho conhecidos lá dentro”. Se eu for para o inferno, acharia justo levar comigo aqueles que maltratam os animais. Ao menos esses...
A batata assa mesmo em minhas mãos quando lembro que tem muita gente que reza toda noite, vai à missa regularmente, é devota aos santos e adora os padres, diz não cometer nenhum pecado capital e seguir a risca a tábua dos dez mandamentos, vota religiosamente, nem que seja no “menos pior”, que garante ter seu lugarzinho no céu.
Não importa se elas estacionam em vagas para idosos e deficientes, deixam as grávidas de pé enquanto se resfolegam nas cadeiras, vibram com quem não devolve dinheiro alheio, não pagam as contas em dia, tratam os animais como um estorvo na face da terra a ser eliminado, querem levar vantagem em tudo e só fazem o bem com medo da caldeira e do garfo do capeta. Para elas, o lar de São Pedro será o seu lar.
Pelas tantas, um botão olhou pra mim, eu olhei para ele, e como que pensando juntos, conclui: se no inferno eu vou encontrar gente como eu, é pra lá que quero ir. Ou passarei a eternidade com ânsia de vômito, cólica intestinal e urticária.
quarta-feira, agosto 26, 2009
A extinção do bicho de pé
*Thiago Schwartz | www.twitter.com/perereco
O aumento nos casos de alergia respiratória e alimentar nas últimas gerações, constatado através de diversos estudos teóricos e empíricos, revela aquilo que desconfiávamos há tempos: O excesso de limpeza afeta o desenvolvimento do sistema imunológico do ser humano.
Nas gerações atuais, existe uma espécie de ojeriza à sujeira. Os pais, quase sempre com uma visão de curto prazo a respeito do assunto, privam os filhos de certos prazeres inerentes à sujeira. Andar descalço é um sacrilégio. Jogar bola no pasto lamacento, nem pensar.
Na minha humilde opinião, essa redoma de limpeza tem início desde o nascimento da criança. Pedir para uma mãe utilizar uma fralda de pano é considerado um crime. Não imagino uma criança criada no leite com pera tomando água como fazíamos antigamente, após os joguinhos de futebol (leia uma descrição perfeita do método aqui). Hoje em dia, devem levar água numa garrafinha térmica ou num daqueles squeeze. Conheço pessoas com seus 18, 19 anos, que nunca pegaram bicho de pé. Que nunca quebraram o braço por pendurarem-se num galho podre de goiabeira. Que nunca arrancaram a unha do dedão chutando uma bola molhada.
Meu filho vai ter bicho de pé. Vai aprender a tirar o bicho de pé com uma agulha. Vai aprender que quando a bola estiver molhada, tem que bater de lado de pé, senão a unha voa. Vai aprender que mexer na terra não vai fazer ele ficar doente. Que brincar com o cachorro não é uma atividade de risco. Que antissépticos com agentes bactericidas que matam 99% dos germes não curam tão bem uma ferida quanto uma esponja com sabão e um beijo de mãe. Vai aprender a brincar sem ter que ficar se policiando sobre a coisa certa a ser feita. A sujeira sai no banho, à noite.
O aumento nos casos de alergia respiratória e alimentar nas últimas gerações, constatado através de diversos estudos teóricos e empíricos, revela aquilo que desconfiávamos há tempos: O excesso de limpeza afeta o desenvolvimento do sistema imunológico do ser humano.
Nas gerações atuais, existe uma espécie de ojeriza à sujeira. Os pais, quase sempre com uma visão de curto prazo a respeito do assunto, privam os filhos de certos prazeres inerentes à sujeira. Andar descalço é um sacrilégio. Jogar bola no pasto lamacento, nem pensar.
Na minha humilde opinião, essa redoma de limpeza tem início desde o nascimento da criança. Pedir para uma mãe utilizar uma fralda de pano é considerado um crime. Não imagino uma criança criada no leite com pera tomando água como fazíamos antigamente, após os joguinhos de futebol (leia uma descrição perfeita do método aqui). Hoje em dia, devem levar água numa garrafinha térmica ou num daqueles squeeze. Conheço pessoas com seus 18, 19 anos, que nunca pegaram bicho de pé. Que nunca quebraram o braço por pendurarem-se num galho podre de goiabeira. Que nunca arrancaram a unha do dedão chutando uma bola molhada.
Meu filho vai ter bicho de pé. Vai aprender a tirar o bicho de pé com uma agulha. Vai aprender que quando a bola estiver molhada, tem que bater de lado de pé, senão a unha voa. Vai aprender que mexer na terra não vai fazer ele ficar doente. Que brincar com o cachorro não é uma atividade de risco. Que antissépticos com agentes bactericidas que matam 99% dos germes não curam tão bem uma ferida quanto uma esponja com sabão e um beijo de mãe. Vai aprender a brincar sem ter que ficar se policiando sobre a coisa certa a ser feita. A sujeira sai no banho, à noite.
sexta-feira, julho 31, 2009
A mais perfeita mesmice, não fosse o Gardel
*Anderson Paes | www.twitter.com/andersonpaes
O sol vai se pondo e estou quase em casa. De volta a Tubarão. Nasci nessa cidade do sul de Santa Catarina, no início dos anos oitenta. De lá pra cá muita coisa mudou – mas não nos últimos anos. Foram quase dois anos fora e quando chego vejo as obras ainda atrasadas da BR-101, o excesso de carros na principal avenida da cidade e umas poucas pessoas que ainda reconheço nas ruas.
Uns três mercados, o shopping e o ex-shopping ainda figuram no centro. Nas ruas de cá, malabaristas no semáforo. Disseram-me por aqui que agora temos mais do que o velho nada para fazer a noite, mas a cidade nunca foi da noite – deve ser o mesmo lugar com novo nome. Melhor ir ver de perto – mas sem pressa. Também contaram que houve algumas mudanças na política, desde as últimas eleições. Mas a cidade também nunca foi muito disso. O que me levou a pensar: Se nem os nomes mudaram...
Tudo na mais perfeita mesmice, não fosse o fato de acordar todas as manhãs ao som Carlos Gardel – que algum vizinho colocava por volta das 9h. Um bom modo de acordar. Depois de uns dias de tango, encontrei um novo lugar para morar. No centro, agora com uma trilha mais mecânica – a das construções por perto. Muda-se a trilha e o jeitão da vizinhança. Aqui ainda é a de um bairro residencial de uma cidade pequena. Outra noite um vizinho gritava:
— Ah! Vai chover chumbinho. Cala a boca...
Tudo isso por causa de um pequeno cachorro que não parava de latir do lado de lá da rua. Pobre cachorro, apenas latia naturalmente. Algumas pessoas se incomodam com tão pouco e esquecem o que realmente pode mudar a vida. Com uma vizinhança assim, poderia esperar mudanças significativas para a terra amada e bendita Tubarão?
Quem sabe quando as pessoas começarem a ter acesso às novas culturas ou encontrarem novas identidades – sem esquecer do bom senso e tolerância que faz uma “grande” cidade. “Mas é mais fácil ir embora do que mudar as coisas” – alguns insistem. Mas... mas sempre há espaço para novas ideias, novas cabeças, para amar e mudar as coisas – como na música de Belchior –, e outras canções para se ouvir.
O sol vai se pondo e estou quase em casa. De volta a Tubarão. Nasci nessa cidade do sul de Santa Catarina, no início dos anos oitenta. De lá pra cá muita coisa mudou – mas não nos últimos anos. Foram quase dois anos fora e quando chego vejo as obras ainda atrasadas da BR-101, o excesso de carros na principal avenida da cidade e umas poucas pessoas que ainda reconheço nas ruas.
Uns três mercados, o shopping e o ex-shopping ainda figuram no centro. Nas ruas de cá, malabaristas no semáforo. Disseram-me por aqui que agora temos mais do que o velho nada para fazer a noite, mas a cidade nunca foi da noite – deve ser o mesmo lugar com novo nome. Melhor ir ver de perto – mas sem pressa. Também contaram que houve algumas mudanças na política, desde as últimas eleições. Mas a cidade também nunca foi muito disso. O que me levou a pensar: Se nem os nomes mudaram...
Tudo na mais perfeita mesmice, não fosse o fato de acordar todas as manhãs ao som Carlos Gardel – que algum vizinho colocava por volta das 9h. Um bom modo de acordar. Depois de uns dias de tango, encontrei um novo lugar para morar. No centro, agora com uma trilha mais mecânica – a das construções por perto. Muda-se a trilha e o jeitão da vizinhança. Aqui ainda é a de um bairro residencial de uma cidade pequena. Outra noite um vizinho gritava:
— Ah! Vai chover chumbinho. Cala a boca...
Tudo isso por causa de um pequeno cachorro que não parava de latir do lado de lá da rua. Pobre cachorro, apenas latia naturalmente. Algumas pessoas se incomodam com tão pouco e esquecem o que realmente pode mudar a vida. Com uma vizinhança assim, poderia esperar mudanças significativas para a terra amada e bendita Tubarão?
Quem sabe quando as pessoas começarem a ter acesso às novas culturas ou encontrarem novas identidades – sem esquecer do bom senso e tolerância que faz uma “grande” cidade. “Mas é mais fácil ir embora do que mudar as coisas” – alguns insistem. Mas... mas sempre há espaço para novas ideias, novas cabeças, para amar e mudar as coisas – como na música de Belchior –, e outras canções para se ouvir.
terça-feira, julho 21, 2009
Apocalypse now
*Gabriel Guedes | www.twitter.com/gabrielzguedes
O nome do post pode soar exagero e também nem um pouco original. Tudo bem... Ambos têm em comum uma palavra tão forte quanto as atitudes intrínsecas contidas nela: a ‘guerra’. Posso citar várias guerras de verdade, mas assim, seria fácil demais.
Desde que me conheço por gente, me considerava homem do interior, gente simples e que não precisa de muito para viver feliz. Apenas o necessário para a subsistência. Na última vez em que estive na Província (minha nova denominação para Tubarão), resolvi dar uma ‘banda’ pela Serra Catarinense. Isso foi lá pelo dia 12 de julho. Eu e minha mulher planejávamos há alguns meses uma volta por lá. O tempo feio, cinzento, sem graça e depressivo que dominou o Sul (é, o Rio Grande do Sul) por mais de sete dias, quase tirou as esperanças de que fosse haver sol naquele domingo. Mas genial como ele só, Deus nos brindou com aquele sol divino, céu azul, aquele céu azul tricolor. De brigadeiro. De resto, o dia só poderia ter sido mágico com tamanha colaboração divina. Aquela paisagem me dava sensação de paz, de dias tranqüilos. Era inspirador a isso.
Saudade. Afinal, há cinco anos deixei minha pacata vida na Província para encarar as aventuras numa selva de pedra, concreto e asfalto numa metrópole de 3 milhões de pessoas. Quando cheguei aqui, me senti um verdadeiro ‘Crocodilo Dundee’. Impressionado como a vida ia acontecendo em meio ao caos urbano (não conheço caos rural).
Passado pouco mais de uma semana da 'minha paz', tive uma terça-feira da onça. É, praticamente uma segunda-feira (embora o dia de ontem tenha corrido bem melhor). Lidei de perto com os perigos da selva urbana. Acordei antes do galo cantar, mas com os vizinhos correndo atrás de ‘intrusos’ no meu prédio. Sem medo e sem a sensação de segurança, mais tarde fui trabalhar. Ao descer do ônibus, passa um carro pela BR-116, dá uma buzinada e fica me insultando de graça, mostrando o famigerado dedo do meio. Fiquei perplexo e pensei: — Como há pessoas que gostam de estragar o dia dos outros? — mas continuei com a minha estrada. Fui trabalhar. Final de tarde, chega! Com a cabeça na lua, e um dia nada produtivo, encerro o expediente na redação. Vou buscar a mulher no trabalho dela. O ônibus atrasa. Era para chegar às 18h36. Cheguei às 18h47. A BR-116 está parada. As ruas paralelas também. Outras ruas de acesso à cidade, também. Congestionamento, buzinaço, motoristas estressados. E eu achando que o dia já estava ruim...
Mas não precisei muito para não duvidar de que algo que está ruim, pode piorar sim. Caminho umas quatros quadras até chegar em frente ao trabalho de minha ‘excelentíssima’. São 18h56. Chego e fico esperando. Às 18h59: — Pá! Pá! Pá! Pá!! — As pessoas correm. Era o tiro ‘comendo solto’. E eu lá, a menos de uma quadra do incidente. Até agora não sei o que foi, o que era. Mas nem quero saber. Mas já adianto que houve ferido (ou feridos?).
Mas para quem passou 22 anos na Província, foi uma verdadeira cena de guerra. Após tudo isso, difícil me sentir tranqüilo. Ainda que a cidade que melhor me recebeu diminuiu os índices de violência nos últimos dois anos, está longe de ser a mais tranqüila. Acho que nem a Província é tão tranqüila quanto nos meus tempos de garoto. Vivemos tempos de guerra. E nem sabemos dos ideais. Uma guerra sem ideais.
Mas não é querer ser pessimista. A semana está começando também com prognósticos meteorológicos que beiram o Apocalipse. Agosto, o mês do cachorro louco se aproxima. Some tudo isso à prevalência da intolerância, da ganância, da falta de moral e ética e da falta de amor entre as pessoas. Agora imagine o resultado.
Se a natureza nos derrotar, quem sabe nosso fim seja menos vergonhoso.
O nome do post pode soar exagero e também nem um pouco original. Tudo bem... Ambos têm em comum uma palavra tão forte quanto as atitudes intrínsecas contidas nela: a ‘guerra’. Posso citar várias guerras de verdade, mas assim, seria fácil demais.
Desde que me conheço por gente, me considerava homem do interior, gente simples e que não precisa de muito para viver feliz. Apenas o necessário para a subsistência. Na última vez em que estive na Província (minha nova denominação para Tubarão), resolvi dar uma ‘banda’ pela Serra Catarinense. Isso foi lá pelo dia 12 de julho. Eu e minha mulher planejávamos há alguns meses uma volta por lá. O tempo feio, cinzento, sem graça e depressivo que dominou o Sul (é, o Rio Grande do Sul) por mais de sete dias, quase tirou as esperanças de que fosse haver sol naquele domingo. Mas genial como ele só, Deus nos brindou com aquele sol divino, céu azul, aquele céu azul tricolor. De brigadeiro. De resto, o dia só poderia ter sido mágico com tamanha colaboração divina. Aquela paisagem me dava sensação de paz, de dias tranqüilos. Era inspirador a isso.
Saudade. Afinal, há cinco anos deixei minha pacata vida na Província para encarar as aventuras numa selva de pedra, concreto e asfalto numa metrópole de 3 milhões de pessoas. Quando cheguei aqui, me senti um verdadeiro ‘Crocodilo Dundee’. Impressionado como a vida ia acontecendo em meio ao caos urbano (não conheço caos rural).
Passado pouco mais de uma semana da 'minha paz', tive uma terça-feira da onça. É, praticamente uma segunda-feira (embora o dia de ontem tenha corrido bem melhor). Lidei de perto com os perigos da selva urbana. Acordei antes do galo cantar, mas com os vizinhos correndo atrás de ‘intrusos’ no meu prédio. Sem medo e sem a sensação de segurança, mais tarde fui trabalhar. Ao descer do ônibus, passa um carro pela BR-116, dá uma buzinada e fica me insultando de graça, mostrando o famigerado dedo do meio. Fiquei perplexo e pensei: — Como há pessoas que gostam de estragar o dia dos outros? — mas continuei com a minha estrada. Fui trabalhar. Final de tarde, chega! Com a cabeça na lua, e um dia nada produtivo, encerro o expediente na redação. Vou buscar a mulher no trabalho dela. O ônibus atrasa. Era para chegar às 18h36. Cheguei às 18h47. A BR-116 está parada. As ruas paralelas também. Outras ruas de acesso à cidade, também. Congestionamento, buzinaço, motoristas estressados. E eu achando que o dia já estava ruim...
Mas não precisei muito para não duvidar de que algo que está ruim, pode piorar sim. Caminho umas quatros quadras até chegar em frente ao trabalho de minha ‘excelentíssima’. São 18h56. Chego e fico esperando. Às 18h59: — Pá! Pá! Pá! Pá!! — As pessoas correm. Era o tiro ‘comendo solto’. E eu lá, a menos de uma quadra do incidente. Até agora não sei o que foi, o que era. Mas nem quero saber. Mas já adianto que houve ferido (ou feridos?).
Mas para quem passou 22 anos na Província, foi uma verdadeira cena de guerra. Após tudo isso, difícil me sentir tranqüilo. Ainda que a cidade que melhor me recebeu diminuiu os índices de violência nos últimos dois anos, está longe de ser a mais tranqüila. Acho que nem a Província é tão tranqüila quanto nos meus tempos de garoto. Vivemos tempos de guerra. E nem sabemos dos ideais. Uma guerra sem ideais.
Mas não é querer ser pessimista. A semana está começando também com prognósticos meteorológicos que beiram o Apocalipse. Agosto, o mês do cachorro louco se aproxima. Some tudo isso à prevalência da intolerância, da ganância, da falta de moral e ética e da falta de amor entre as pessoas. Agora imagine o resultado.
Se a natureza nos derrotar, quem sabe nosso fim seja menos vergonhoso.
quarta-feira, julho 08, 2009
O sentido (horário) da vida
*Anderson Paes | www.twitter.com/andersonpaes
As pessoas nascem, comem e enchem as fraldas. Crescem, são educadas – não importa como, são sempre educadas de forma errada; alguém disse isso uma vez. Passam a ser adolescentes, pensam só em sexo e continuam estudando. Chegam à idade adulta, depois de um período de crise entre razão e emoção, e procuram fazer algo útil para o mundo – nem que seja para o seu próprio mundo.
Adultos, percebem que nem todas as crises foram superadas. Alguns fazem terapia, outros pulam da ponte. Se apaixonam, sofrem, ficam felizes e pensam na vida a dois. Pensam em como vai ficar orçamento do lar, em se aposentar pela assistência social, no imóvel financiado na Caixa, numa vida de comercial de margarina.
Até que chegam os filhos. Que nascem, comem, enchem as fraldas, crescem, são mal educados, pensam em sexo, viram adultos, se apaixonam, sofrem, ficam felizes, têm filhos, etc. E começa tudo outra vez.
Agora as coisas se misturam e as gerações entram em conflito, com doses de harmonia. Tudo ao mesmo tempo. Nessas horas o tempo acelera. Sem volta e sem relatividade.
As pessoas nascem, comem e enchem as fraldas. Crescem, são educadas – não importa como, são sempre educadas de forma errada; alguém disse isso uma vez. Passam a ser adolescentes, pensam só em sexo e continuam estudando. Chegam à idade adulta, depois de um período de crise entre razão e emoção, e procuram fazer algo útil para o mundo – nem que seja para o seu próprio mundo.
Adultos, percebem que nem todas as crises foram superadas. Alguns fazem terapia, outros pulam da ponte. Se apaixonam, sofrem, ficam felizes e pensam na vida a dois. Pensam em como vai ficar orçamento do lar, em se aposentar pela assistência social, no imóvel financiado na Caixa, numa vida de comercial de margarina.
Até que chegam os filhos. Que nascem, comem, enchem as fraldas, crescem, são mal educados, pensam em sexo, viram adultos, se apaixonam, sofrem, ficam felizes, têm filhos, etc. E começa tudo outra vez.
Agora as coisas se misturam e as gerações entram em conflito, com doses de harmonia. Tudo ao mesmo tempo. Nessas horas o tempo acelera. Sem volta e sem relatividade.
Terra de ninguém... (ou das Empresas de Ônibus)
*Viviany Pfleger | vivianypfleger@yahoo.com.br
É mais um evento no ano, e deveria ser colocado no calendário municipal. Concordas?
Se as empresas, prefeitura e trabalhadores comemoram anualmente, é porque virou evento. O único problema é que esqueceram de incluir a opinião da população nesta festa. Ainda não aprendemos a lutar por nossos direitos, salvo os estudantes que têm dado a cara à tapa, sempre que os preços das passagens de ônibus aumentam (Movimento Passe Livre). E eles vêm por aí nos próximos dias, aguardem.
É da terrinha Florianópolis (SC), que falo. A cidade parou por três dias, posso assim dizer, e o transporte coletivo é a causa novamente.
O trânsito ficou caótico. As lojas amargaram prejuízos de fim de mês. E as metas? Ah, as metas já eram! Sem funcionário e clientes, nada de metas. Só estavam presentes aqueles que conseguiram caronas ou os que foram buscados em casa, por solicitação dos patrões.
Provas foram adiadas, crianças sem escolas, sem creche; perdidas no Centro, pois não tinham como voltar pra casa. É... geralmente eles fazem isto. Tiram as pessoas das suas casas, de manhã cedo, e as deixam desamparadas no Centro da cidade – isso não se faz, mas eles sempre repetem.
É um ciclo vicioso. As empresas precisam de arrecadação, os empregados querem aumento e garantias de emprego, o sindicato entra na história em defesa dos trabalhadores que têm direito à ‘greve’, e a prefeitura da cidade acaba intermediando a discussão, além de fornecer o subsídio para o transporte público. E onde estão os prefeitos das outras cidades da Grande Florianópolis, já que as empresas intermunicipais também aderiram à greve?
Sempre marmelada. Como o povo sempre pagará a conta, e foi o que aconteceu – aumento de R$ 0,10 nas passagens desde a última segunda-feira –, fica cômodo gerar uma greve provocada pelo sindicato, que não abre mão de nenhuma proposta proveniente dos trabalhadores – reivindicavam 72 itens. E para as empresas também é bom, já que os preços são aumentados com o consentimento da prefeitura.
Porém, apesar de se dizer que o sistema está falido, que as empresas de transporte coletivo amargam milhões por mês, uma coisa é clara: o povo não tem mais dinheiro pra cobrir os gastos caríssimos de transporte da cidade. Por trechos pequenos, cerca de dez minutos, o cidadão que vai ao centro paga os mesmos R$2,80, que alguém que se locomove para o norte da ilha, cuja viajem dura em torno de 40 minutos. Além do que, hoje em dia tem empresa que não contrata mais funcionário que mora longe, em função do preço do vale-transporte. Onde vamos parar?
Esta foi a quarta paralização em apenas dois meses, devido às inúmeras tentativas de negociação entre sindicato, empresas e a prefeitura.
Durante estes três dias de greve da última semana, eu pensei: — Espero que resolvam hoje. Então veio a quarta-feira, e nada. Dois dias sem transporte já era o caos, em uma cidade que se dizia ‘candidata a sediar a Copa do mundo’, imagina um terceiro dia sem nada. Pois veio a quinta-feira, e era um tal de o prefeito, o secretário, o fulano e o sicrano falando na mídia – e andando em círculos. Ninguém sabia o que fazer. A terra era de ninguém, mesmo. Não havia um consenso. O que parecia é que a cidade estava nas mãos de motoristas e cobradores de ônibus, pois esta foi a sensação clara, da população, que em meio a tudo isto, já estava insatisfeita com a classe e com o excesso de exigências que eles buscavam.
Era o aumento desejado de 7%, mais vale-alimentação no valor de R$310,00 pra trabalhar seis horas por dia, mais participação nos lucros, mais garantia de que os cobradores não serão demitidos – trocados por catracas eletrônicas –, e mais e mais e mais e mais...
Sabe de uma coisa? Essa história está longe de ser resolvida...
E não esqueça de anotar: ano quem vem, teremos ‘feriado’ novamente!
Até parece carnaval.
___
*Viviany Pfleger é administradora e viveu essa crise do transporte público na capital catarinense.
É mais um evento no ano, e deveria ser colocado no calendário municipal. Concordas?
Se as empresas, prefeitura e trabalhadores comemoram anualmente, é porque virou evento. O único problema é que esqueceram de incluir a opinião da população nesta festa. Ainda não aprendemos a lutar por nossos direitos, salvo os estudantes que têm dado a cara à tapa, sempre que os preços das passagens de ônibus aumentam (Movimento Passe Livre). E eles vêm por aí nos próximos dias, aguardem.
É da terrinha Florianópolis (SC), que falo. A cidade parou por três dias, posso assim dizer, e o transporte coletivo é a causa novamente.
O trânsito ficou caótico. As lojas amargaram prejuízos de fim de mês. E as metas? Ah, as metas já eram! Sem funcionário e clientes, nada de metas. Só estavam presentes aqueles que conseguiram caronas ou os que foram buscados em casa, por solicitação dos patrões.
Provas foram adiadas, crianças sem escolas, sem creche; perdidas no Centro, pois não tinham como voltar pra casa. É... geralmente eles fazem isto. Tiram as pessoas das suas casas, de manhã cedo, e as deixam desamparadas no Centro da cidade – isso não se faz, mas eles sempre repetem.
É um ciclo vicioso. As empresas precisam de arrecadação, os empregados querem aumento e garantias de emprego, o sindicato entra na história em defesa dos trabalhadores que têm direito à ‘greve’, e a prefeitura da cidade acaba intermediando a discussão, além de fornecer o subsídio para o transporte público. E onde estão os prefeitos das outras cidades da Grande Florianópolis, já que as empresas intermunicipais também aderiram à greve?
Sempre marmelada. Como o povo sempre pagará a conta, e foi o que aconteceu – aumento de R$ 0,10 nas passagens desde a última segunda-feira –, fica cômodo gerar uma greve provocada pelo sindicato, que não abre mão de nenhuma proposta proveniente dos trabalhadores – reivindicavam 72 itens. E para as empresas também é bom, já que os preços são aumentados com o consentimento da prefeitura.
Porém, apesar de se dizer que o sistema está falido, que as empresas de transporte coletivo amargam milhões por mês, uma coisa é clara: o povo não tem mais dinheiro pra cobrir os gastos caríssimos de transporte da cidade. Por trechos pequenos, cerca de dez minutos, o cidadão que vai ao centro paga os mesmos R$2,80, que alguém que se locomove para o norte da ilha, cuja viajem dura em torno de 40 minutos. Além do que, hoje em dia tem empresa que não contrata mais funcionário que mora longe, em função do preço do vale-transporte. Onde vamos parar?
Esta foi a quarta paralização em apenas dois meses, devido às inúmeras tentativas de negociação entre sindicato, empresas e a prefeitura.
Durante estes três dias de greve da última semana, eu pensei: — Espero que resolvam hoje. Então veio a quarta-feira, e nada. Dois dias sem transporte já era o caos, em uma cidade que se dizia ‘candidata a sediar a Copa do mundo’, imagina um terceiro dia sem nada. Pois veio a quinta-feira, e era um tal de o prefeito, o secretário, o fulano e o sicrano falando na mídia – e andando em círculos. Ninguém sabia o que fazer. A terra era de ninguém, mesmo. Não havia um consenso. O que parecia é que a cidade estava nas mãos de motoristas e cobradores de ônibus, pois esta foi a sensação clara, da população, que em meio a tudo isto, já estava insatisfeita com a classe e com o excesso de exigências que eles buscavam.
Era o aumento desejado de 7%, mais vale-alimentação no valor de R$310,00 pra trabalhar seis horas por dia, mais participação nos lucros, mais garantia de que os cobradores não serão demitidos – trocados por catracas eletrônicas –, e mais e mais e mais e mais...
Sabe de uma coisa? Essa história está longe de ser resolvida...
E não esqueça de anotar: ano quem vem, teremos ‘feriado’ novamente!
Até parece carnaval.
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*Viviany Pfleger é administradora e viveu essa crise do transporte público na capital catarinense.
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