Tubarão, sul de Santa Catarina. Uma cidade tranquila. O rio que corta a cidade tem nas margens árvores grandes que parecem cantar com o vento. À margem direita, na rua Lauro Müller, há uma casa de número 666.
As residências, por aqui, são numeradas de acordo com a distância que estão do início da rua. Se um prédio estiver distante 100 metros de onde a rua começa, terá o número 100 estampado em sua fachada.
No caso do número 666 tudo estaria em ordem, não fosse a coincidência de no local existir uma casa que pertence à Congregação da Divina Providência. Como sugere o nome da entidade, “Deus quis assim”.
“Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. E esse número é seiscentos e sessenta e seis” Apocalipse 13:18
É estranho pensar que uma ordem cristã aceite o número do que eles chamam de “a besta”, do oposto do seu Deus; de quem, para eles, fará mal ou até mesmo porá fim a este mundo. Estranho, também, é uma das freiras dizer que desconhecia o número da “própria” casa. “Não sabia não, meu filho! Mas vou procurar saber”, disse a velha senhora em seu hábito branco e azul acinzentado, numa conversa informal nos bastidores de um programa de rádio onde eu era o produtor.
“Mas o número marca a distância da casa (do início da rua), não é nada demais”, retrucou uma outra pessoa presente no estúdio. Em todo caso, poderiam ter trocado o simbólico número por 668. A numeração continuaria dentro dos limites do terreno, já que a casa seguinte é de número 700.
Resta a dúvida: se quem trabalha com a fé faz pouco caso do que está na Bíblia, o que vendem afinal? A mesma Congregação é responsável pelo Colégio São José e o Hospital Nossa Senhora da Conceição. Talvez o ceticismo da medicina tenha alcançado certos setores da religião. É mais lucrativo – pode-se fazer da casa um ponto turístico.
