*Camila Rufine | www.twitter.com/camilarufine
Ontem me senti muito discriminada aqui. De novo.
Da primeira vez, eu e mais duas Au Pairs estávamos com dificuldade para compreender os detalhes sobre o pedido de mudança de endereço da conta do celular de uma delas. Depois de muito custo e repetição, entendemos o que a atendente-número-um queria dizer. Foi quando a atendente-número-dois resolveu perguntar há quanto tempo estávamos aqui. Respondi, toda simpática, que fazia quatro meses. Ela fez um sinal negativo com a cabeça, como quem não quer se conformar com algum caso perdido. Muito inocente, perguntei para ela se nosso inglês estava tão ruim e ela só deu de ombros, provavelmente agradecendo a Deus, em pensamento, por ter compensado a sua feiura com a naturalidade norte-americana. Eu não fui madura a ponto de não me afetar e fiquei o resto do dia inconformada com a minha falta de progressos no Inglês.
O segundo episódio da série 'Discriminados' aconteceu no mesmo shopping. Eu e mais três amigas estávamos sentadas em dois dos bancos do corredor com nossas várias sacolas de compras, esperando outra Au Pair chegar para irmos a um barzinho. Nesse meio tempo, passou um xerife boa pinta e uma das minhas comentou em voz baixa - e em Português: "Que policial bonito!". Demos uma risadinha silenciosa, mas logo continuamos nossos assuntos anteriores, também em Português. Foi quando o xerife, que já estava longe, voltou para a nossa direção, perguntando se a gente estava ali à espera de alguma carona. A gente respondeu que não. Ele disse então que era pra gente sair de lá. Ainda sem entender nada, perguntamos se o shopping estava fechando. Ele falou que não, mas que era pra gente encontrar o nosso carro e ir embora, naquele momento. Intimidadas, dissemos que tudo bem e ele saiu de perto da gente.
Depois de uns 10 minutos paralisadas e tentando descobrir qual teria sido o motivo daquela cena, concordamos que ele só poderia ser um desses americanos xenofóbicos com síndrome de superioridade e que, quando ouviu a palavra 'policial', bem parecida com 'policeman', em Inglês, deduziu que estávamos falando mal dele. Achamos melhor sair de lá, pois se o xerife decidisse dizer que nos ouviu combinando queimar uma bandeira americana gritando por Alá, todo mundo poderia acreditar.
Nunca esperei chegar aqui no país dos egocentrismo paranóico e receber tratamento especial. Mas tem dias que é dificil achar inteligente a minha decisão de ter vindo pra cá.
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sábado, fevereiro 06, 2010
sábado, janeiro 23, 2010
O inv(f)erno de cada um
*Camila Rufine | www.twitter.com/camilarufine
Existem algumas coisas que preciso salientar sobre o meu inverno em Illinois.
No começo foi tudo legal. Eu aprendendo a converter Fahrenheits em Celsius. Eu contando vantagem para meus amigos sobre os graus negativos. Eu emocionada ao ver a neve pela primeira vez. Eu tirando muitas fotos. Eu prometendo fazer um boneco de neve. Eu comprando um arsenal de artigos de proteção térmica. Eu aguentando uma hora de fila, sob a sensação térmica de -25ºC, para patinar (e cair de cabeça) no gelo.
Ainda dois meses longe do final dessa brincadeira de Pólo Norte, já chega. Acabou a graça. Existem conversores de Fahrenheit para Celsius na internet. Não é nenhum trunfo aguentar a temperatura hostil quando todas as casas, carros e comércio possuem aquecimento interno (passei muito mais frio em Guarapuava, no Brasil). A neve, depois de uns dias, fica suja, nojenta, escorregadia. As fotos saem todas iguais. A não ser que você queira tirar foto na neve suja. Minha única bota de inverno é horrível, só tenho um casaco que aguenta o tranco e eu não quis comprar uma luva de 50 dólares (logo, não posso fazer um boneco de neve sem antes perder as mãos).
É sempre uma missa para sair de casa. Você coloca 4 camadas de roupa e ainda passa frio. E quem diz que inverno é chique não conhece realmente o que é inverno. Tente combinar Luvas, Gorro, Cachecol, casaco, calça e bota. Sem contar que é triste. Faz mais de uma semana que a temperatura não é menor que zero, mas quando o mercúrio do termômetro sobe os dias são cinzas, sem sol.
É por isso que a partir de hoje, não tiro mais nenhuma foto contendo neve. Não compro mais nenhuma peça de inverno. Nem em liquidação. E olha que eu virei Maria-Liquidação. Não darei mais gargalhada quando ver alguém escorrengando pelas calçadas. Não vou fazer mais nenhum esporte ou brincadeira de inverno. Não baterei mais o queixo. Vou tentar me divertir só em atividades indoor.
Vou dar um gelo no inverno. Só para ver se esse imenso sorvete sem sabor se toca e pede penico.
Existem algumas coisas que preciso salientar sobre o meu inverno em Illinois.
No começo foi tudo legal. Eu aprendendo a converter Fahrenheits em Celsius. Eu contando vantagem para meus amigos sobre os graus negativos. Eu emocionada ao ver a neve pela primeira vez. Eu tirando muitas fotos. Eu prometendo fazer um boneco de neve. Eu comprando um arsenal de artigos de proteção térmica. Eu aguentando uma hora de fila, sob a sensação térmica de -25ºC, para patinar (e cair de cabeça) no gelo.
Ainda dois meses longe do final dessa brincadeira de Pólo Norte, já chega. Acabou a graça. Existem conversores de Fahrenheit para Celsius na internet. Não é nenhum trunfo aguentar a temperatura hostil quando todas as casas, carros e comércio possuem aquecimento interno (passei muito mais frio em Guarapuava, no Brasil). A neve, depois de uns dias, fica suja, nojenta, escorregadia. As fotos saem todas iguais. A não ser que você queira tirar foto na neve suja. Minha única bota de inverno é horrível, só tenho um casaco que aguenta o tranco e eu não quis comprar uma luva de 50 dólares (logo, não posso fazer um boneco de neve sem antes perder as mãos).
É sempre uma missa para sair de casa. Você coloca 4 camadas de roupa e ainda passa frio. E quem diz que inverno é chique não conhece realmente o que é inverno. Tente combinar Luvas, Gorro, Cachecol, casaco, calça e bota. Sem contar que é triste. Faz mais de uma semana que a temperatura não é menor que zero, mas quando o mercúrio do termômetro sobe os dias são cinzas, sem sol.
É por isso que a partir de hoje, não tiro mais nenhuma foto contendo neve. Não compro mais nenhuma peça de inverno. Nem em liquidação. E olha que eu virei Maria-Liquidação. Não darei mais gargalhada quando ver alguém escorrengando pelas calçadas. Não vou fazer mais nenhum esporte ou brincadeira de inverno. Não baterei mais o queixo. Vou tentar me divertir só em atividades indoor.
Vou dar um gelo no inverno. Só para ver se esse imenso sorvete sem sabor se toca e pede penico.
sábado, dezembro 26, 2009
Salva pela farofa
*Camila Rufine | www.twitter.com/camilarufine
Acho que herdei uma maldição genética. Assim como minha mãe, empolgo-me com a propaganda que os outros fazem sobre determinada coisa e sempre me decepciono. É assim com filmes, músicas e comidas, etc. E foi quase exatamente assim com o dia posterior ao natal americano.
Cega pelos comentários sobre o absurdo que são as promoções pós-hollidays feitos pela minha host-mãe, convenci duas amigas (também au pairs e brasileiras) a nesse sábado (26) de manhãzinha deixarem o conforto e comodidade dos respectivos edredons para praticar o consumismo em uma temperatura de 6 graus negativos.
Fiz até as contas pra não gastar das minhas economias mais do que o suficiente para deixar na conta apenas o dinheiro para pagar as aulas de ESL (English as a Second Language) em janeiro, levando em consideração os salários que eu ainda iria receber, é claro.
Bobagem.
Devido a uma mistura do que acredito ser o contraste da minha pobreza com o poder aquisitivo do americano médio, não consegui gastar. Porque ao meu bolso quase tudo continuava incomprável. Pois aquilo que estava razoavelmente barato era dispensável e o que era absurdamente barato era medonhamente demodé.
Para não dizer que não comprei nada, achei em uma das tantas lojas que entramos, lá na arara que tinha a placa de 90% de desconto, duas blusinhas básicas de verão por pouco menos de 3 dólares cada.
O que não permitiu que meu final de ano consumista não se resumisse em frustração foi a decisão de contrarias as forças malígnas do GPS e irmos para a delicatessen de produtos brasileiros - que não estava em promoção.
Achei lindo pagar 2 dólares por um pacotinho de polenta instantânea que nem de marca boa é. Foi mágico ver Maguary de maracujá. Quase me belisquei quando encontrei a tão sonhada farofa temperada. E o feijão carioquinha, então!? Hmmm...
Minha host que me desculpe, mas só de lembrar o que tem ali na minha sacola de compras, não sinto nem vontade de ir até a cozinha buscar a caçarola de vagem que ela fez para a janta. E olha que eu costumo adorar aquela caçarola.
Acho que herdei uma maldição genética. Assim como minha mãe, empolgo-me com a propaganda que os outros fazem sobre determinada coisa e sempre me decepciono. É assim com filmes, músicas e comidas, etc. E foi quase exatamente assim com o dia posterior ao natal americano.
Cega pelos comentários sobre o absurdo que são as promoções pós-hollidays feitos pela minha host-mãe, convenci duas amigas (também au pairs e brasileiras) a nesse sábado (26) de manhãzinha deixarem o conforto e comodidade dos respectivos edredons para praticar o consumismo em uma temperatura de 6 graus negativos.
Fiz até as contas pra não gastar das minhas economias mais do que o suficiente para deixar na conta apenas o dinheiro para pagar as aulas de ESL (English as a Second Language) em janeiro, levando em consideração os salários que eu ainda iria receber, é claro.
Bobagem.
Devido a uma mistura do que acredito ser o contraste da minha pobreza com o poder aquisitivo do americano médio, não consegui gastar. Porque ao meu bolso quase tudo continuava incomprável. Pois aquilo que estava razoavelmente barato era dispensável e o que era absurdamente barato era medonhamente demodé.
Para não dizer que não comprei nada, achei em uma das tantas lojas que entramos, lá na arara que tinha a placa de 90% de desconto, duas blusinhas básicas de verão por pouco menos de 3 dólares cada.
O que não permitiu que meu final de ano consumista não se resumisse em frustração foi a decisão de contrarias as forças malígnas do GPS e irmos para a delicatessen de produtos brasileiros - que não estava em promoção.
Achei lindo pagar 2 dólares por um pacotinho de polenta instantânea que nem de marca boa é. Foi mágico ver Maguary de maracujá. Quase me belisquei quando encontrei a tão sonhada farofa temperada. E o feijão carioquinha, então!? Hmmm...
Minha host que me desculpe, mas só de lembrar o que tem ali na minha sacola de compras, não sinto nem vontade de ir até a cozinha buscar a caçarola de vagem que ela fez para a janta. E olha que eu costumo adorar aquela caçarola.
terça-feira, dezembro 22, 2009
Clássico de Natal
*Camila Rufine | www.twitter.com/camilarufine
Enquanto eu cuidava dos meninos na sala, a minha host me chamou da cozinha. A propósito, eu trabalho como au pair em Chicago.
— Camila?!
— Yes?
— Do you guys have some kind of Christmas songs in Brazil?
— Sure. Most of them are translations or versions of the American ones.
— Really? Which ones?
— Silent Night, Jingle Bells...
— Oh! Can you sing Jingle Bells for me?
— Oh, well... [putz grila, e agora? Bom, que se lasque, ela não sabe Português mesmo e eu não lembro a versão bonitinha] Jingle bells, jingle bells, acabou o papel. Não faz mal, não faz mal, limpa com jornal... [que ridícula que eu sou, quero morrer!]
— Hahaha nice. Can you teach Jake?
— Sure! [Foi ela quem pediu, né?!]
Tecla SAP:
— Camila?!
— Sim?
— Vocês têm algum tipo de música natalina no Brasil?
— Claro. A maioria delas são traduções ou versões das músicas americanas.
— Sério? Quais delas?
— Noite Feliz, Jingle Bells...
— Ah! Você poderia cantar Jingle Bells para mim?
— Bom, hãã... [putz grila, e agora? Bom, que se lasque, ela não sabe Português mesmo e eu não lembro a versão bonitinha] Jingle bells, jingle bells, acabou o papel. Não faz mal, não faz mal, limpa com jornal... [que ridícula que eu sou, quero morrer!]
— Hahaha legal. Você pode ensinar o Jake?
— Claro! [Foi ela quem pediu, né?!]
Enquanto eu cuidava dos meninos na sala, a minha host me chamou da cozinha. A propósito, eu trabalho como au pair em Chicago.
— Camila?!
— Yes?
— Do you guys have some kind of Christmas songs in Brazil?
— Sure. Most of them are translations or versions of the American ones.
— Really? Which ones?
— Silent Night, Jingle Bells...
— Oh! Can you sing Jingle Bells for me?
— Oh, well... [putz grila, e agora? Bom, que se lasque, ela não sabe Português mesmo e eu não lembro a versão bonitinha] Jingle bells, jingle bells, acabou o papel. Não faz mal, não faz mal, limpa com jornal... [que ridícula que eu sou, quero morrer!]
— Hahaha nice. Can you teach Jake?
— Sure! [Foi ela quem pediu, né?!]
Tecla SAP:
— Camila?!
— Sim?
— Vocês têm algum tipo de música natalina no Brasil?
— Claro. A maioria delas são traduções ou versões das músicas americanas.
— Sério? Quais delas?
— Noite Feliz, Jingle Bells...
— Ah! Você poderia cantar Jingle Bells para mim?
— Bom, hãã... [putz grila, e agora? Bom, que se lasque, ela não sabe Português mesmo e eu não lembro a versão bonitinha] Jingle bells, jingle bells, acabou o papel. Não faz mal, não faz mal, limpa com jornal... [que ridícula que eu sou, quero morrer!]
— Hahaha legal. Você pode ensinar o Jake?
— Claro! [Foi ela quem pediu, né?!]
sexta-feira, dezembro 18, 2009
Com fuso
*Camila Rufine | www.twitter.com/camilarufine
Desde o começo de novembro, são quatro horas que me separam da minha vida real, lá no Brasil.
Todo dia que acordo para tomar água ou ir ao banheiro, lá pelas três da madrugada, penso: já são sete da manhã lá. Todo mundo deve estar acordando e eu ainda posso dormir mais quatro horas. Oba. Mas a parte boa do fuso para por aí.
Pois depois que o dia de trabalho começa, não consigo fazer outra coisa a não ser fitar meu relógio e lamentar, pois enquanto aqui ainda é meio dia e eu ainda tenho seis horas de trabalho pela frente, está todo mundo em clima de fim de expediente lá no Brasil.
Também é difícil manter amigos online, quando eu acordo na hora que eles estão indo almoçar ou se quando estou livre do trabalho muitos deles já foram dormir. E é triste ter apenas uma opção de horário decente para ligar para a família. E é deprimente que às cinco da tarde já esteja noite gelada aqui, enquanto no Brasil tem gente tomando banho de sol às sete.
Mas ganhando disparado no quesito chatice em relação a fuso-horário, vem o fator ano novo. Vou ter que ligar às oito da noite para dar feliz ano novo para todos lá de casa e esperar mais quatro para que esse ano de 2009 vá embora de uma vez. Com o agravante de que aqui ninguém dá a mínima para as viradas de ano. Só eu e outras amigas brazucas que estão na mesma que eu.
Desde o começo de novembro, são quatro horas que me separam da minha vida real, lá no Brasil.
Todo dia que acordo para tomar água ou ir ao banheiro, lá pelas três da madrugada, penso: já são sete da manhã lá. Todo mundo deve estar acordando e eu ainda posso dormir mais quatro horas. Oba. Mas a parte boa do fuso para por aí.
Pois depois que o dia de trabalho começa, não consigo fazer outra coisa a não ser fitar meu relógio e lamentar, pois enquanto aqui ainda é meio dia e eu ainda tenho seis horas de trabalho pela frente, está todo mundo em clima de fim de expediente lá no Brasil.
Também é difícil manter amigos online, quando eu acordo na hora que eles estão indo almoçar ou se quando estou livre do trabalho muitos deles já foram dormir. E é triste ter apenas uma opção de horário decente para ligar para a família. E é deprimente que às cinco da tarde já esteja noite gelada aqui, enquanto no Brasil tem gente tomando banho de sol às sete.
Mas ganhando disparado no quesito chatice em relação a fuso-horário, vem o fator ano novo. Vou ter que ligar às oito da noite para dar feliz ano novo para todos lá de casa e esperar mais quatro para que esse ano de 2009 vá embora de uma vez. Com o agravante de que aqui ninguém dá a mínima para as viradas de ano. Só eu e outras amigas brazucas que estão na mesma que eu.
segunda-feira, dezembro 14, 2009
Filósofa de geladeira
*Camila Rufine | www.twitter.com/camilarufine
Caminhar na neve é como pisar em grandes montes de polvilho.
Não pela cor, nem pela textura.
Mas pelo barulho que ela faz.
Caminhar na neve é como pisar em grandes montes de polvilho.
Não pela cor, nem pela textura.
Mas pelo barulho que ela faz.
segunda-feira, dezembro 07, 2009
Trilogia
*Camila Rufine | www.twitter.com/camilarufine
Outubro, novembro e dezembro. Abóbora, peru e Papai Noel. Exatamente nessa ordem.
E é melhor não falar em outra coisa em cada período, pois algo pode dar muito errado. Digo isso com a experiência de quem passou menos de três meses aqui e a perspicácia de qualquer asno. Pois não é preciso ser Eienstein para notar que os americanos levam mesmo a sério os seus feriados.
Quando cheguei aqui, no finalzinho de setembro, já pude notar o excesso de adornos macabros nas casas. Meu host me explicou que já eram para o Halloween, festa que seria comemorada apenas um mês a diante. Nesse período, as lojas se abarrotaram de fantasias, guloseimas em versão mini (para os doces ou travessuras) estoques de maquiagem a la Família Adams e sangue feito de glucose. No dia 31 de outubro, ao se andar pelas ruas, era quase impossivel se deparar com alguém que não estivesse fantasiado de alguma coisa. E pasmem, os americanos podem ser muito criativos.
Já na primeira semana de novembro, assustei-me ao ver que os adornos macabros tinham desaparecido, dando lugar a perus infláveis (que não deixam de ser macabros), índios e peregrinos. Nas lojas, perus de tamanhos naturalmente inconcebíveis e adornos campestres passaram a ser expostos com destaque, juntamente aos ingredientes da torta de abóbora e da caçarola de vagens, que são duas das comidas típicas do feriado. Assim foi até o dia 25, quando as famílias se reuniram para comemorar a festa em agradecimento às coisas boas que aconteceram durante o ano e para a janta, que é servida às 2h da tarde. No dia de Thanksgiving decidi que os americanos podem ser também muito óbvios, pois na casa das outras au pairs, foram servidos exatamente os mesmos pratos que na minha.
Interessante que nos dias seguintes os adornos típicos do novembro não tinham sumido. Pois era a Black Friday (Sexta-Feira Negra), dia em que todas as grandes lojas abrem de madrugada oferencendo promoções absurdas. E ninguém tem tempo de desenfeitar a casa quando um computador que custava 700 dólares está sendo vendido a 300. Mas tudo voltou ao normal a partir de terça-feira, dia primeiro. Hoje, quase todo mundo já colocou luzinhas, guirlandas e trenós na frente de casa (ou dos carros), já tirou dos armários os agasalhos típicos de natal e começou a visitar lojas com frequência a fim de consumir presentes para seus entes e amigos queridos.
E nessa brincadeira, eu vou entrando na onda. Comendo comidas pra lá de industrializadas e gastando minhas economias em fantasias que não usarei mais ou em presentes que serão colocados de canto no dia seguinte. Fiquei curiosa para saber qual será o feriado-febre de Janeiro. Mas minha host-mãe garantiu que depois do natal, aqui na América só se vive a Cabin Fever (Febre da Cabana), termo que eles usam para designar o desespero que dá nas pessoas trancafiadas em casa por causa do inverno.
Nada mais justo, pois qualquer trilogia que se preze é composta apenas de três edições, né não?
Outubro, novembro e dezembro. Abóbora, peru e Papai Noel. Exatamente nessa ordem.
E é melhor não falar em outra coisa em cada período, pois algo pode dar muito errado. Digo isso com a experiência de quem passou menos de três meses aqui e a perspicácia de qualquer asno. Pois não é preciso ser Eienstein para notar que os americanos levam mesmo a sério os seus feriados.
Quando cheguei aqui, no finalzinho de setembro, já pude notar o excesso de adornos macabros nas casas. Meu host me explicou que já eram para o Halloween, festa que seria comemorada apenas um mês a diante. Nesse período, as lojas se abarrotaram de fantasias, guloseimas em versão mini (para os doces ou travessuras) estoques de maquiagem a la Família Adams e sangue feito de glucose. No dia 31 de outubro, ao se andar pelas ruas, era quase impossivel se deparar com alguém que não estivesse fantasiado de alguma coisa. E pasmem, os americanos podem ser muito criativos.
Já na primeira semana de novembro, assustei-me ao ver que os adornos macabros tinham desaparecido, dando lugar a perus infláveis (que não deixam de ser macabros), índios e peregrinos. Nas lojas, perus de tamanhos naturalmente inconcebíveis e adornos campestres passaram a ser expostos com destaque, juntamente aos ingredientes da torta de abóbora e da caçarola de vagens, que são duas das comidas típicas do feriado. Assim foi até o dia 25, quando as famílias se reuniram para comemorar a festa em agradecimento às coisas boas que aconteceram durante o ano e para a janta, que é servida às 2h da tarde. No dia de Thanksgiving decidi que os americanos podem ser também muito óbvios, pois na casa das outras au pairs, foram servidos exatamente os mesmos pratos que na minha.
Interessante que nos dias seguintes os adornos típicos do novembro não tinham sumido. Pois era a Black Friday (Sexta-Feira Negra), dia em que todas as grandes lojas abrem de madrugada oferencendo promoções absurdas. E ninguém tem tempo de desenfeitar a casa quando um computador que custava 700 dólares está sendo vendido a 300. Mas tudo voltou ao normal a partir de terça-feira, dia primeiro. Hoje, quase todo mundo já colocou luzinhas, guirlandas e trenós na frente de casa (ou dos carros), já tirou dos armários os agasalhos típicos de natal e começou a visitar lojas com frequência a fim de consumir presentes para seus entes e amigos queridos.
E nessa brincadeira, eu vou entrando na onda. Comendo comidas pra lá de industrializadas e gastando minhas economias em fantasias que não usarei mais ou em presentes que serão colocados de canto no dia seguinte. Fiquei curiosa para saber qual será o feriado-febre de Janeiro. Mas minha host-mãe garantiu que depois do natal, aqui na América só se vive a Cabin Fever (Febre da Cabana), termo que eles usam para designar o desespero que dá nas pessoas trancafiadas em casa por causa do inverno.
Nada mais justo, pois qualquer trilogia que se preze é composta apenas de três edições, né não?
terça-feira, novembro 24, 2009
Um Calvin para chamar de meu
*Camila Rufine | www.twitter.com/camilarufine
Quem conhece as tiras de Calvin e Haroldo (Calvin & Hobbes), de Tim Watterson, sabe que Calvin é um menino de 6 anos de idade dotado de uma imaginação ultra fértil, que odeia legumes e lição de casa e que divide seus questionamentos filosóficos com o melhor amigo: um sábio tigre de pelúcia chamado Haroldo.
E quem conhece Calvin e Haroldo deve achar que eu tenho problemas mentais por ver no menino mais velho que cuido um pouquinho do personagem. Ele só tem só dois anos de idade. Não fala nada além de algumas sílabas como 'dó' (dog) quando vê cachorros e um persistente 'ogdan' que ele usa para tudo e que ninguém descobriu o que significa. Ele adora frutas e legumes, ainda não estuda e a maior preocupação é não ir trocar a fralda sem levar o balão de gás hélio a tiracolo. Ele nem sequer tem um tigre de pelúcia... a única coisa em comum entre os dois seja a cor do cabelo.
Mas eu não consigo deixar de comparar. Ainda mais depois do último domingo, na hora de ele dormir.
A rotina foi quase a mesma de sempre. O menino deu boa noite para o balão, para o irmão e a cachorra antes de subir para o banho. Gritou como se tivesse entrado em contato com ácido sulfúrico quando molhei o seu cabelo. Se debateu como sempre para vestir o pijama. Cantou o mesmo lalalá fora de ritmo (sua canção de ninar) abraçado ao meu pescoço. Mas quando dei o beijo de boa noite e fui encostando a porta do quarto, voltei meus olhos para o berço e me deparei com o menino pegando o urso (que é um cobertor peludo parecido com aqueles tapetes de urso dos desenhos animados, mas fofo e não assustador), trazendo para perto de si e começado um diálogo indecifrável, quase alienígena, com entonações de surpresa, carinho, curiosidade e até de bronca, como em qualquer conversa adulta.

Talvez ele e o urso estejam tramando alguma coisa para dominar o mundo. Ou, quem sabe, desenvolvendo uma nova teoria sobre o sentido da vida. Pode ser que estejam falando mal de mim. Pensando melhor, é possível que eu esteja apenas ounvindo choro de criança por horas consecutivas demais e falando bobagem. Mas oras... se ele pode dialogar qualquer coisa que seja com um objeto inanimado, eu também me acho no direito de compará-lo ao meu personagem de quadrinhos favorito.
Quem conhece as tiras de Calvin e Haroldo (Calvin & Hobbes), de Tim Watterson, sabe que Calvin é um menino de 6 anos de idade dotado de uma imaginação ultra fértil, que odeia legumes e lição de casa e que divide seus questionamentos filosóficos com o melhor amigo: um sábio tigre de pelúcia chamado Haroldo.
E quem conhece Calvin e Haroldo deve achar que eu tenho problemas mentais por ver no menino mais velho que cuido um pouquinho do personagem. Ele só tem só dois anos de idade. Não fala nada além de algumas sílabas como 'dó' (dog) quando vê cachorros e um persistente 'ogdan' que ele usa para tudo e que ninguém descobriu o que significa. Ele adora frutas e legumes, ainda não estuda e a maior preocupação é não ir trocar a fralda sem levar o balão de gás hélio a tiracolo. Ele nem sequer tem um tigre de pelúcia... a única coisa em comum entre os dois seja a cor do cabelo.
Mas eu não consigo deixar de comparar. Ainda mais depois do último domingo, na hora de ele dormir.
A rotina foi quase a mesma de sempre. O menino deu boa noite para o balão, para o irmão e a cachorra antes de subir para o banho. Gritou como se tivesse entrado em contato com ácido sulfúrico quando molhei o seu cabelo. Se debateu como sempre para vestir o pijama. Cantou o mesmo lalalá fora de ritmo (sua canção de ninar) abraçado ao meu pescoço. Mas quando dei o beijo de boa noite e fui encostando a porta do quarto, voltei meus olhos para o berço e me deparei com o menino pegando o urso (que é um cobertor peludo parecido com aqueles tapetes de urso dos desenhos animados, mas fofo e não assustador), trazendo para perto de si e começado um diálogo indecifrável, quase alienígena, com entonações de surpresa, carinho, curiosidade e até de bronca, como em qualquer conversa adulta.

Talvez ele e o urso estejam tramando alguma coisa para dominar o mundo. Ou, quem sabe, desenvolvendo uma nova teoria sobre o sentido da vida. Pode ser que estejam falando mal de mim. Pensando melhor, é possível que eu esteja apenas ounvindo choro de criança por horas consecutivas demais e falando bobagem. Mas oras... se ele pode dialogar qualquer coisa que seja com um objeto inanimado, eu também me acho no direito de compará-lo ao meu personagem de quadrinhos favorito.
quarta-feira, novembro 18, 2009
Queridos, encolhi o pijama
*Camila Rufine | www.twitter.com/camilarufine
Logo nas primeiras semanas aqui levei um susto ao recolocar um jeans. Estava apertando em todos os lugares possíveis. Maldito Subway, Mc Donald's, Pizza Hut, Dunkin Donnuts ou seja lá qual for a franquia que vende comida barata e deliciosamente calórica. Não podia ser possível que um lanchinho no sábado, após tanta andança pelo centro de Chicago e pelo Millenium Park (programação repetida durante uns 4 sábados consecutivos), fizesse tanto estrago em tão pouco tempo.
Comentei com tristeza o fato para uma menina que mora aqui há mais tempo. Ela, por sabedoria ou dó, disse que era pra eu ficar tranquila, pois a calça poderia ter encolhido na secadora de roupas, já que com as dela sempre acontecia isso. Para quem não sabe, aqui nos Estados Unidos não existe varal, roupa secando no gramado. Não que eu saiba. Talvez nos bairros pobres. Ou só nos filmes campestres. Mas ate onde eu sei, na vida real aqui as roupas sao jogadas na maquina todas misturadas e depois jogadas na secadora. E ponto. A propósito, passar roupa também não precisa.
Desculpa de gorda preguiçosa ou não, coincidiu de aquela calça realmente ser a única que eu já tinha lavado e secado no American Way. Ufa! Espalhei a notícia para todas au pairs que eu conheço aqui e comecei a evitar de secar as roupas mais justas na máquina, dando um jeito de estendê-las pelo quarto em algum lugar escondido, para não ficar parecendo um cortiço indoor, e sempre culpando a secadora pelos reajustes que eu vinha sentindo nas pecas mais largas.
Hoje fiz a minha laundry (maneira mais legal de dizer que lavei a roupa suja) decidida que essa história de encolher roupa seria apenas lenda e que eu teria que me conformar por ter ganhado umas libras. Joguei todas as roupas direto na secadora. Peguei todas as roupas na máquina e separei o pijama que iria colocar após tomar banho. Quando vesti meu pijama de pinguim de todo santo dia, senti uma vertigem. Ele estava curto nas pernas, justo no corpo, curto na barriga e as mangas, que eram longas, estavam quase nos cotovelos. Me senti a Alice depois do pedaço errado de cogumelo.
Quero só ver amanhã quando for colocar as roupas que uso para trabalhar. Calça de agasalho que virou capri, cacharrel-bolero, moletom-babylook... preciso começar a reforçar o controle nas calorias e arranjar umas pílulas de nanicolina se não quiser ficar magra de bolso. Não quero gastar meu salário com roupas de trabalho extra-grandes que terei que doar quando eu voltar para o Brasil. Preciso poupar dólares para encher minhas malas com um estoque bem grande de importados que tentarei revender pelo dobro do preço para meus amigos consumistas.
Logo nas primeiras semanas aqui levei um susto ao recolocar um jeans. Estava apertando em todos os lugares possíveis. Maldito Subway, Mc Donald's, Pizza Hut, Dunkin Donnuts ou seja lá qual for a franquia que vende comida barata e deliciosamente calórica. Não podia ser possível que um lanchinho no sábado, após tanta andança pelo centro de Chicago e pelo Millenium Park (programação repetida durante uns 4 sábados consecutivos), fizesse tanto estrago em tão pouco tempo.
Comentei com tristeza o fato para uma menina que mora aqui há mais tempo. Ela, por sabedoria ou dó, disse que era pra eu ficar tranquila, pois a calça poderia ter encolhido na secadora de roupas, já que com as dela sempre acontecia isso. Para quem não sabe, aqui nos Estados Unidos não existe varal, roupa secando no gramado. Não que eu saiba. Talvez nos bairros pobres. Ou só nos filmes campestres. Mas ate onde eu sei, na vida real aqui as roupas sao jogadas na maquina todas misturadas e depois jogadas na secadora. E ponto. A propósito, passar roupa também não precisa.
Desculpa de gorda preguiçosa ou não, coincidiu de aquela calça realmente ser a única que eu já tinha lavado e secado no American Way. Ufa! Espalhei a notícia para todas au pairs que eu conheço aqui e comecei a evitar de secar as roupas mais justas na máquina, dando um jeito de estendê-las pelo quarto em algum lugar escondido, para não ficar parecendo um cortiço indoor, e sempre culpando a secadora pelos reajustes que eu vinha sentindo nas pecas mais largas.
Hoje fiz a minha laundry (maneira mais legal de dizer que lavei a roupa suja) decidida que essa história de encolher roupa seria apenas lenda e que eu teria que me conformar por ter ganhado umas libras. Joguei todas as roupas direto na secadora. Peguei todas as roupas na máquina e separei o pijama que iria colocar após tomar banho. Quando vesti meu pijama de pinguim de todo santo dia, senti uma vertigem. Ele estava curto nas pernas, justo no corpo, curto na barriga e as mangas, que eram longas, estavam quase nos cotovelos. Me senti a Alice depois do pedaço errado de cogumelo.
Quero só ver amanhã quando for colocar as roupas que uso para trabalhar. Calça de agasalho que virou capri, cacharrel-bolero, moletom-babylook... preciso começar a reforçar o controle nas calorias e arranjar umas pílulas de nanicolina se não quiser ficar magra de bolso. Não quero gastar meu salário com roupas de trabalho extra-grandes que terei que doar quando eu voltar para o Brasil. Preciso poupar dólares para encher minhas malas com um estoque bem grande de importados que tentarei revender pelo dobro do preço para meus amigos consumistas.
sexta-feira, outubro 30, 2009
Curriculum Vitae
*Camila Rufine | www.twitter.com/camilarufine
O inverno ainda nem ameaçou começar, e já fui obrigada a decidir que não vou estudar até que o último floco de neve derreta. E não é só por causa do medo do frio de -35 graus. Além do fator térmico, existe o geográfico: a universidade mais próxima fica há mais ou menos uns 30 quilômetros (não sei exatamente nenhuma medida de peso, comprimento ou volume aqui. Tudo eu multiplico ou divido por 2 e adiciono o 'mais ou menos' na frente) e minha host já disse que não me deixa dirigir na neve, já que nem ela tem coragem.
No entanto, o tempo não para de passar e faz um mês e meio que estou aqui, me preocupando se vou atingir meu objetivo principal: dar um up no currículo, que continua tão pobre como estava antes de eu embarcar. Nem posso colocar nele que meu inglês é fluente, pois ainda me comunico como os índios dos filmes. Mim quer isso, você pegar aquilo. Pode ser que eu nunca venha a falar ingles fluentemente.
Será que para uma vaga como jornalista ou secretaria executiva, vale incluir nas habilidades algo como saber disfarçar ervilha no meio do morango? Ou então, poder trocar perfeitamente a fralda de uma criança que se contorce como se estivesse pegando fogo?
O inverno ainda nem ameaçou começar, e já fui obrigada a decidir que não vou estudar até que o último floco de neve derreta. E não é só por causa do medo do frio de -35 graus. Além do fator térmico, existe o geográfico: a universidade mais próxima fica há mais ou menos uns 30 quilômetros (não sei exatamente nenhuma medida de peso, comprimento ou volume aqui. Tudo eu multiplico ou divido por 2 e adiciono o 'mais ou menos' na frente) e minha host já disse que não me deixa dirigir na neve, já que nem ela tem coragem.
No entanto, o tempo não para de passar e faz um mês e meio que estou aqui, me preocupando se vou atingir meu objetivo principal: dar um up no currículo, que continua tão pobre como estava antes de eu embarcar. Nem posso colocar nele que meu inglês é fluente, pois ainda me comunico como os índios dos filmes. Mim quer isso, você pegar aquilo. Pode ser que eu nunca venha a falar ingles fluentemente.
Será que para uma vaga como jornalista ou secretaria executiva, vale incluir nas habilidades algo como saber disfarçar ervilha no meio do morango? Ou então, poder trocar perfeitamente a fralda de uma criança que se contorce como se estivesse pegando fogo?
quarta-feira, outubro 28, 2009
Evite ser loura
*Camila Rufine | www.twitter.com/camilarufine
— Você não parece nada com brasileiros.
Depois de ouvir essa e outras 20 variações dessa frase - em inglês, of course - e de responder "todo mundo me diz a mesma coisa" e suas tantas variantes, decidi que quando eu for fodona e tiver poder de persuasão sobre o mundo inteiro, sobretudo os americanos, escreverei um belo texto sobre o Brasil. Você sabe, só para lembrar a todos que temos bananas sim, mas não só isso.
Salientar que nem tudo é Amazônia. Que temos inverno em algumas regiões. Sabemos o que é eletricidade, internet wireless, disk entrega e shopping center. Conhecemos lavadora louça e carros automáticos. Que não jogamos só futebol. Não dançamos só samba. E que temos gente alta e loura também, oras bolas.
Acontece que eu ainda não sou fodona. Tampouco sou capaz de escrever um texto e passar para o inglês em qualquer tradutor online e mandar um spam assinando Paulo Coelho, por exemplo, que é brazuca e faz um sucessão por aqui. Não tenho coragem mesmo essa receita sendo infalível, como comprovei hoje ao ver na minha caixa de entrada três e-mails encaminhando o texto "Evite ser traído", atribuído falsamente a Arnaldo Jabor.
Não tenho prova nenhuma para afirmar a falsidade ideológica e nem sequer consegui ler um parágrafo inteiro do tal e-mail. Mesmo assim penso que as chances de Jabor escrever e publicar um texto tão feminista e clichê são as mesmas da heterossexualidade voltar a ser moda.
O jeito é pintar o cabelo. Ou mentir a nacionalidade. Mas isso também seria falsidade ideológica, não é mesmo?
— Você não parece nada com brasileiros.
Depois de ouvir essa e outras 20 variações dessa frase - em inglês, of course - e de responder "todo mundo me diz a mesma coisa" e suas tantas variantes, decidi que quando eu for fodona e tiver poder de persuasão sobre o mundo inteiro, sobretudo os americanos, escreverei um belo texto sobre o Brasil. Você sabe, só para lembrar a todos que temos bananas sim, mas não só isso.
Salientar que nem tudo é Amazônia. Que temos inverno em algumas regiões. Sabemos o que é eletricidade, internet wireless, disk entrega e shopping center. Conhecemos lavadora louça e carros automáticos. Que não jogamos só futebol. Não dançamos só samba. E que temos gente alta e loura também, oras bolas.
Acontece que eu ainda não sou fodona. Tampouco sou capaz de escrever um texto e passar para o inglês em qualquer tradutor online e mandar um spam assinando Paulo Coelho, por exemplo, que é brazuca e faz um sucessão por aqui. Não tenho coragem mesmo essa receita sendo infalível, como comprovei hoje ao ver na minha caixa de entrada três e-mails encaminhando o texto "Evite ser traído", atribuído falsamente a Arnaldo Jabor.
Não tenho prova nenhuma para afirmar a falsidade ideológica e nem sequer consegui ler um parágrafo inteiro do tal e-mail. Mesmo assim penso que as chances de Jabor escrever e publicar um texto tão feminista e clichê são as mesmas da heterossexualidade voltar a ser moda.
O jeito é pintar o cabelo. Ou mentir a nacionalidade. Mas isso também seria falsidade ideológica, não é mesmo?
quarta-feira, outubro 14, 2009
Olha o esquilo!
*Camila Rufine | www.twitter.com/camilarufine
Passada mais de uma semana na casa dos meus hosts, já coleciono algumas táticas de ludibriação infantil.
Para quem ainda não sabe, sou Au Pair de dois garotos. Um de um ano e sete meses e outro de quatro meses. O mais velho só diz algumas palavras monossílabas (ainda assim incompletas), mas é muito ativo e entende tudo o que você diz – tanto que já temos que usar com ele o artifício da soletração. O mais novo é muito desenvolvido para a idade, mas só faz chorar, sorrir, mamar, sujar fraldas, querer colo e dormir.
Cuidar de duas crianças em momentos tão diferentes está sendo mais difícil do que imaginei. Quando o mais novo está calmo no meu colo, vem o mais velho fazer birra (a la novela mexicana, com direito a se jogar no chão e tudo), e vice versa. Eu pensava que estava imune a esse drama, já que ajudei durante alguns meses duas educadoras a monitorar mais de 20 crianças, de uma só vez, na creche na qual fui voluntária. Tolice.
Maldita a hora que, na entrevista por telefone com os hosts, tentei ser a engraçadinha conhecedora dos ditos americanos e disse que achava que cuidar dos dois seria ‘piece of cake’.
Mas nem tudo está perdido e estou exercitando meu poder de copiação. Com o menino mais velho, pelo menos.
Um dia, enquanto tomava meus cereais no café da manhã, ele cismou que não queria mais o café da manhã dele e, sim, o meu. O pai dele olhou para mim e me ensinou o truque: pegou o pedaço de maçã do prato do menino e fingiu que tirava da minha tigela de cereais. O menino viu toda a cena, mas foi o suficiente: deduziu que eu estava comendo o mesmo que ele e terminou a refeição sem mais um 'a'. Agora, todo café da manhã é a mesma história, e ele sempre cai.
Já para os momentos de manha, quem me ensinou o truque foi a avó dos meninos. Um dia ela estava aqui me ajudando a familiarizar com os hábitos da casa e novamente o garoto mais velho começou um episódio de birra gratuita. Ela só gritou ‘Look at the squirl, boy!’. Foi como presenciar um milagre. O rosto deixou de ficar vermelho, as lágrimas secaram e ele foi correndo apontar para a rua, gritando 'uh, uh, uh' (ele só usa esse linguajar quando vê três coisas: caminhões grandes, balões de gás hélio e esquilos).
Aqui, aonde estou morando, você cruza com uma dúzia de esquilos a cada volta no quarteirão. Isso faz o artifício ter validade, pois as probabilidades são altas de que, na hora exata em que eu disser ‘olha o esquilo!’ realmente haja um na rua.
Fico pensando o que será de mim quando essas táticas perderem o efeito. Só saberei realmente do que sou capaz quando for obrigada a inventar meus próprios artifícios de distração. Mas ontem a avó do menino me deu outra dica: ele gosta mais de coelhos do que de esquilos.
Passada mais de uma semana na casa dos meus hosts, já coleciono algumas táticas de ludibriação infantil.
Para quem ainda não sabe, sou Au Pair de dois garotos. Um de um ano e sete meses e outro de quatro meses. O mais velho só diz algumas palavras monossílabas (ainda assim incompletas), mas é muito ativo e entende tudo o que você diz – tanto que já temos que usar com ele o artifício da soletração. O mais novo é muito desenvolvido para a idade, mas só faz chorar, sorrir, mamar, sujar fraldas, querer colo e dormir.
Cuidar de duas crianças em momentos tão diferentes está sendo mais difícil do que imaginei. Quando o mais novo está calmo no meu colo, vem o mais velho fazer birra (a la novela mexicana, com direito a se jogar no chão e tudo), e vice versa. Eu pensava que estava imune a esse drama, já que ajudei durante alguns meses duas educadoras a monitorar mais de 20 crianças, de uma só vez, na creche na qual fui voluntária. Tolice.
Maldita a hora que, na entrevista por telefone com os hosts, tentei ser a engraçadinha conhecedora dos ditos americanos e disse que achava que cuidar dos dois seria ‘piece of cake’.
Mas nem tudo está perdido e estou exercitando meu poder de copiação. Com o menino mais velho, pelo menos.
Um dia, enquanto tomava meus cereais no café da manhã, ele cismou que não queria mais o café da manhã dele e, sim, o meu. O pai dele olhou para mim e me ensinou o truque: pegou o pedaço de maçã do prato do menino e fingiu que tirava da minha tigela de cereais. O menino viu toda a cena, mas foi o suficiente: deduziu que eu estava comendo o mesmo que ele e terminou a refeição sem mais um 'a'. Agora, todo café da manhã é a mesma história, e ele sempre cai.
Já para os momentos de manha, quem me ensinou o truque foi a avó dos meninos. Um dia ela estava aqui me ajudando a familiarizar com os hábitos da casa e novamente o garoto mais velho começou um episódio de birra gratuita. Ela só gritou ‘Look at the squirl, boy!’. Foi como presenciar um milagre. O rosto deixou de ficar vermelho, as lágrimas secaram e ele foi correndo apontar para a rua, gritando 'uh, uh, uh' (ele só usa esse linguajar quando vê três coisas: caminhões grandes, balões de gás hélio e esquilos).
Aqui, aonde estou morando, você cruza com uma dúzia de esquilos a cada volta no quarteirão. Isso faz o artifício ter validade, pois as probabilidades são altas de que, na hora exata em que eu disser ‘olha o esquilo!’ realmente haja um na rua.
Fico pensando o que será de mim quando essas táticas perderem o efeito. Só saberei realmente do que sou capaz quando for obrigada a inventar meus próprios artifícios de distração. Mas ontem a avó do menino me deu outra dica: ele gosta mais de coelhos do que de esquilos.
quarta-feira, outubro 07, 2009
O suéter verde
*Camila Rufine | www.twitter.com/camilarufine
Quinta-feira foi meu primeiro dia de folga em La Grange Park.
Muito insegura e descoordenada para arriscar sozinha um trem para Chicago, decidi me aventurar pelas ruas da cidadezinha e descobrir se eu poderia gastar uns dólares, como terapia. Lembrei-me que precisava de agasalhos.
Passei por algumas lojas e tentei enxergar, do lado de fora dos estabelecimentos, se lá dentro havia alguma possibilidade de boa compra. Várias decepções, até que os manequins de outra vitrine me chamaram a atenção para uma jaqueta de couro bem bonita, com etiqueta de $30 dólares. Olhei para o lado de dentro e vi um bando de mulheres alvoroçadas. Pensei comigo: o paraíso deve ser aqui mesmo! E entrei.
Na primeira arara da loja percebi umas roupas meio retrôs demais. Achei meio estranho, mas passei direto para a arara que tinha a placa: barganhas femininas. Remexi e vi um suéter de lã verde-quase-limão. Gostei. Procurei pelo preço na peça, até que encontrei uma etiqueta que dizia "US$ 2". "Não era possível", pensei. "Achei um brechó? Mas essa loja está arrumadinha demais para ser um brechó". Na dúvida, medi as mangas da peça nos meus braços e procurei por algum defeito. Tudo certo, então agarrei o suéter com as forças que tinha e continuei a explorar a loja.
Nas outras araras, encontrei sobretudos de lã por $20 dólares. Jaquetas não tão bregas por $15. Definitivamente, aquilo era um brechó. Fiquei tão feliz. Quem me conhece pode imaginar o quanto um brechó me alegra. Depois de vasculhar muito, encontrei uma jaqueta de couro forrada com aquelas pelúcias felpudinhas, em perfeito estado, por apenas $25. Experimentei no espelho que havia em um dos pilares da loja e fui em direção ao caixa. As duas peças, com a cobrança de taxas, saíram por $29 dólares. Um verdadeiro tesouro, segundo a antendente.
Cheguei em casa e tentei ir direto ao meu quarto sem que meus hosts (meus anfitriões e patrões) percebecem por onde eu havia andado. Pendurei as minhas novas peças de vestuário no meu closet e resolvi usar meu suéter verde naquela mesma noite.
Minha host elogiou meu suéter. Eu apenas agradeci. Não contei a história para ela. Mas fiquei preocupada. Será que era dela antigamente? Será que ela sabe por onde andei? Ou será que ela só achou verde-limão demais para minha pele e não soube o que dizer?
No outro dia de manhã, usei novamente o suéter, para levar os meninos que estou cuidando passearem. E novamente, ouço da minha host:
— Eu realmente gostei do seu suéter. Adoro verde.
Agradeci novamente, mas não contei que ele me custou apenas dois dólares em um brechó. Acho que, assim como acontece com o direito e com as salsichas, ela não precisa saber como o meu guarda-roupa é feito.
Quinta-feira foi meu primeiro dia de folga em La Grange Park.
Muito insegura e descoordenada para arriscar sozinha um trem para Chicago, decidi me aventurar pelas ruas da cidadezinha e descobrir se eu poderia gastar uns dólares, como terapia. Lembrei-me que precisava de agasalhos.
Passei por algumas lojas e tentei enxergar, do lado de fora dos estabelecimentos, se lá dentro havia alguma possibilidade de boa compra. Várias decepções, até que os manequins de outra vitrine me chamaram a atenção para uma jaqueta de couro bem bonita, com etiqueta de $30 dólares. Olhei para o lado de dentro e vi um bando de mulheres alvoroçadas. Pensei comigo: o paraíso deve ser aqui mesmo! E entrei.
Na primeira arara da loja percebi umas roupas meio retrôs demais. Achei meio estranho, mas passei direto para a arara que tinha a placa: barganhas femininas. Remexi e vi um suéter de lã verde-quase-limão. Gostei. Procurei pelo preço na peça, até que encontrei uma etiqueta que dizia "US$ 2". "Não era possível", pensei. "Achei um brechó? Mas essa loja está arrumadinha demais para ser um brechó". Na dúvida, medi as mangas da peça nos meus braços e procurei por algum defeito. Tudo certo, então agarrei o suéter com as forças que tinha e continuei a explorar a loja.
Nas outras araras, encontrei sobretudos de lã por $20 dólares. Jaquetas não tão bregas por $15. Definitivamente, aquilo era um brechó. Fiquei tão feliz. Quem me conhece pode imaginar o quanto um brechó me alegra. Depois de vasculhar muito, encontrei uma jaqueta de couro forrada com aquelas pelúcias felpudinhas, em perfeito estado, por apenas $25. Experimentei no espelho que havia em um dos pilares da loja e fui em direção ao caixa. As duas peças, com a cobrança de taxas, saíram por $29 dólares. Um verdadeiro tesouro, segundo a antendente.
Cheguei em casa e tentei ir direto ao meu quarto sem que meus hosts (meus anfitriões e patrões) percebecem por onde eu havia andado. Pendurei as minhas novas peças de vestuário no meu closet e resolvi usar meu suéter verde naquela mesma noite.
Minha host elogiou meu suéter. Eu apenas agradeci. Não contei a história para ela. Mas fiquei preocupada. Será que era dela antigamente? Será que ela sabe por onde andei? Ou será que ela só achou verde-limão demais para minha pele e não soube o que dizer?
No outro dia de manhã, usei novamente o suéter, para levar os meninos que estou cuidando passearem. E novamente, ouço da minha host:
— Eu realmente gostei do seu suéter. Adoro verde.
Agradeci novamente, mas não contei que ele me custou apenas dois dólares em um brechó. Acho que, assim como acontece com o direito e com as salsichas, ela não precisa saber como o meu guarda-roupa é feito.
segunda-feira, outubro 05, 2009
Mugir ou não mugir...
*Camila Rufine | www.twitter.com/camilarufine
Eis a questão.
Ao me despedir da minha avó em Mamborê (PR), horas antes de pegar o ônibus rumo à São Paulo, ela me mandou ter cuidado e finalizou, dizendo:
— Lembre-se sempre que touro em pasto alheio é vaca.
E essas palavras não saíram mais da minha cabeça. Dona Lídia pode até ter suas ideias malucas, mas essa foi uma que fez todo o sentido. Não que eu estivesse com sonhos encantados de ser amada e respeitada aqui nos Unáitidisteits, mas também não tinha pensado tão seriamente sob essa ótica.
Que diabos eu tenho na cabeça de vir para outro país limpar bumbum de bebê?
Sábado passado, foi exatamente isso que o cobrador do trem em Chicago me perguntou. Respondi educadamente que aqui poderia estudar o que queria. Ele não sentiu firmeza na minha resposta, mas fez que aham com a cabeça. E era balela minha mesmo. Eu não menti para ele, mas ainda não tinha vocaulário e segurança suficientes para explicar que não era por eu achar que merda americana cheirasse a flores. Que na verdade eu estava desempregada e sem currículo e essa foi a alternativa mais diferente e barata que encontrei para dar um up geral. Que era para eu colocar fotos legais no Orkut. Que era pra tentar recomeçar – outra vez.
Decidi largar a segurança do meu pasto por uma porção de razões coerentes e outras bem sem noção. Pode ser que aqui eu seja apenas a vaquinha mais mixuruca do pasto. Mas, quem sabe, só de poder pastar nesse gramado de cá por um ano, eu possa entender porque é que touros de todo o mundo querem tanto ser vacas nesse rebanho.
Eis a questão.
Ao me despedir da minha avó em Mamborê (PR), horas antes de pegar o ônibus rumo à São Paulo, ela me mandou ter cuidado e finalizou, dizendo:
— Lembre-se sempre que touro em pasto alheio é vaca.
E essas palavras não saíram mais da minha cabeça. Dona Lídia pode até ter suas ideias malucas, mas essa foi uma que fez todo o sentido. Não que eu estivesse com sonhos encantados de ser amada e respeitada aqui nos Unáitidisteits, mas também não tinha pensado tão seriamente sob essa ótica.
Que diabos eu tenho na cabeça de vir para outro país limpar bumbum de bebê?
Sábado passado, foi exatamente isso que o cobrador do trem em Chicago me perguntou. Respondi educadamente que aqui poderia estudar o que queria. Ele não sentiu firmeza na minha resposta, mas fez que aham com a cabeça. E era balela minha mesmo. Eu não menti para ele, mas ainda não tinha vocaulário e segurança suficientes para explicar que não era por eu achar que merda americana cheirasse a flores. Que na verdade eu estava desempregada e sem currículo e essa foi a alternativa mais diferente e barata que encontrei para dar um up geral. Que era para eu colocar fotos legais no Orkut. Que era pra tentar recomeçar – outra vez.
Decidi largar a segurança do meu pasto por uma porção de razões coerentes e outras bem sem noção. Pode ser que aqui eu seja apenas a vaquinha mais mixuruca do pasto. Mas, quem sabe, só de poder pastar nesse gramado de cá por um ano, eu possa entender porque é que touros de todo o mundo querem tanto ser vacas nesse rebanho.
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