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Destaque Quitandas e a volta aos tempos românticos Thiago Schwartz


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quinta-feira, outubro 01, 2009

Vila Xurupita de luto

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

A Vila Xurupita foi o cenário para a maioria das aventuras literárias da minha infância. Localidade carioca situada no Morro do Papagaio, este bairro fictício é a casa do bom malandro e boa pinta Zé Carioca. Na vila humilde, que retratava a realidade suburbana dos anos 70 e 80, Zé Carioca, Nestor e Pedrão eram os reis do pedaço. Circulavam por entre os barracos e ruas de chão com desenvoltura e sagacidade.

No mundo de hoje, onde todos se levam muito a sério, o pobre do Zé certamente não teria chances de sobrevivência. Quem sabe arrumaria um emprego para se casar com Rosinha e satisfazer Rocha Vaz, seu sogro sovina.

Eram tempos difíceis aqueles, nem por isso se deixava de sorrir. A Vila Xurupita entrava em clima de festa no carnaval com a Escola de Samba Unidos da Vila Xurupita e o Vila Xurupita Futebol Clube nos clássicos que normalmente acabavam em confusão e pancadaria.

Por detrás daquelas deliciosas histórias, estava Ivan Saindenberg, roteirista da Disney no Brasil e que de 1971 a 1978 escreveu mais de mil roteiros para personagens como Pato Donald, Peninha, Mickey, Pateta e o melhor de todos: Zé Carioca.

Quando criança não me importava com quem escrevia aqueles textos do brasileiríssimo e carioca Zé, só lamentava que em seus gibis apenas a primeira e última história eram do papagaio malandro. No recheio da revista eu apenas folheava por entre os demais personagens Disney. Passava tão rápido como o próprio Zé fugindo da Anacozeca (Associação Nacional de Cobradores do Zé Carioca).

Desde a manhã do dia 30 de setembro, a Vila Xurupita estará para sempre um pouco mais triste. As complicações da diabete e uma insuficiência arterial levaram Ivan Saindenberg aos 68 anos.

A leveza dos textos do Zé Carioca contrastava com a sisudez dos demais integrantes da trupe da Disney. Não à toa, era no cotidiano e na poesia de Carlos Drummond, de Manuel Bandeira, de Camões, de Castro Alves e de Fernando Pessoa que Ivan bebia para nos servir da filosofia simplista de Zé Carioca.

Nas histórias do Zé Carioca escritas por Ivan era perfeitamente possível sentir os cheiros do morro, ouvir a algazarra dos moleques nos becos e ruelas da favela. Dava pra sentir no rosto a maresia que a brisa trazia do mar distante, quando Zé Carioca, Nestor e Pedrão deitavam para vagabundear e curtir a paisagem do Rio de Janeiro.

Ivan nasceu em Piracicaba, interior de São Paulo e morreu em Santos. Em 1960 entrou para o universo dos quadrinhos. Foi “apresentado” por seu amigo Mauricio de Sousa (o pai da Mônica) à Editora Abril e recebeu a missão de resgatar o então esquecido e querido Zé Carioca. Na editora ficou de 1971 até 1985.

sábado, setembro 19, 2009

Prova oral

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Não existe viva alma que tenha estudado na Escola Técnica Diomício Freitas, em Tubarão, no Sul Catarinense, entre o final dos anos 80 e meados dos 90, que desconheça a história de uma professora que foi flagrada aplicando uma “prova oral” em um professor na biblioteca do colégio.

Uma lenda? Certamente jamais teremos a comprovação. De todo modo, íamos à forra quando a professora: uma morena, balzaquiana à época, baixinha, sempre com decotes provocantes, de sardas castanhas em seu peito alvo e um perfume que a seguia pelo imenso corredor da escola. Não era bonita, mas quem a visse de costas era capaz de trocar um reino por uma encostada bem dada.

Pois a pobre sofria a perseguição dos endiabrados do fundão, entre eles, este insignificante escriba. Gracejos e trocadilhos com seu nome eram proferidos por aqueles que não temiam baixar o calão nem ter seu nome eternizado na lista negra da escola.

Para nós, no auge das manifestações hormonais, pouco importava se não existia uma testemunha ocular da história para contar e comprovar ínterim por ínterim o acontecido. Todo mundo sabia e se todo mundo sabia, era verdade.

O que aconteceu naquela biblioteca entre os dois amantes professores, deve ter deixado Aurélio Buarque de Holanda sem palavras, com seu dicionário recheado de expressões adormecidas no ostracismo.

Os tomos didáticos de Geografia não descreveriam tão bem os relevos dos corpos; os de Matemática, não calculariam as chances de serem pegos; os de Língua Portuguesa, não encontrariam regras para os monossílabos emitidos em uníssono; os de Ciências, enfim, não seriam capazes de medir os níveis de adrenalina no coração do casal de docentes amantes.

Os volumes e verbetes das enciclopédias dividiram-se entre os horrorizados e os entusiasmados. Gritinhos de revolta e regozijo ecoavam das páginas mordiscadas pelas traças oportunistas.

O canhoto Machado de Assis, ao lado de Brás Cubas, Capitu, Quincas Borba e companhia, emudecidos, acompanhavam sem desgrudas os olhos do despudor no educandário.

Graciliano Ramos tivesse visto antes aquele destempero sexual, provavelmente mudaria o título de seu Memórias do Cárcere para Memórias da Biblioteca. É possível que até a cachorra Baleia, o animalzinho de estimação da família de Fabiano, flagelados pela seca, tenha sentido as faces ruborizadas com a cena.

Nem dona Flor, Tieta e Gabriela resistiram e pararam para assistir, ao lado, é claro, de Jorge Amado.

Antonio Conselheiro, seus seguidores e Euclides da Cunha, devem ter ficados estarrecidos com os descaminhos da República. Erguerem suas toscas armas e bradaram pela Monarquia uma vez mais.

Nelson Rodrigues, antes que esqueça, foi um dos poucos que se deliciou com o que viu. Só faltou para ele, um marido traído e uma vingança à bala.

O médico, diplomata e escritor Guimarães Rosa, com o sertanejo Riobaldo e o chefe dos jagunços Diadorim, teriam novidades para levar aos sertões dos muitos Brasis.

Nem a previsão fúnebre da cartomante ou a tuberculose da infeliz retirante Macabéa foram mais fortes que o choque tomado por ela e Clarice Lispector naquele instante memorável.

Dom Quixote e menos ainda Cervantes, viram tamanha fábula em todas as peripécias errantes do cavaleiro castelhano.

Talvez apenas o Senado brasileiro consiga repetir segredos que repetem aos ventos como verdade, mas ninguém prova nada, como fizeram aqueles dois professores há vinte e tantos anos. Estão aí os atos secretos que não deixam meu nariz crescer. Por debaixo dos tapetes, entre cochichos ao pé do ouvido atrás de portas trancadas, tem senador que nomeia, desnomeia, manda e desmanda.

Democracia nem sempre significa transparência. De lendas anunciadas e jamais comprovadas, apuradas ou investigadas, o Senado está cheio. Assim como com aqueles dois pobres professores que sofreram por uma carreira com piadinhas infames, vamos rindo dos políticos, sem nos preocuparmos com as verdades escondidas e o resultado do jogo, na maioria das vezes, favorável a eles, que seguem em seus atos secretos e sacanas.

domingo, agosto 23, 2009

Tapas, chutes e uma guerra perdida

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Cada uma das partes de um conflito sempre conta a história à sua maneira. Desde um arranca-rabo doméstico a um conflito mundial. Quase nada muda.

Tenho 30 anos e até hoje briguei apenas uma vez na rua. Se é que alguém pode chamar de briga aquele entrevero da saída da aula quando estava na 7ª série. Sempre fui um sujeito pacato, embora com alguns acessos de irritação corriqueiros e isolados. Naquele ano assumi de vez meu lugar na turma do fundão e dali sairia muito tempo mais tarde.

Naquela classe estudava um rapaz atarracado, o tipo baixinho metido a valentão. Frank é o nome dele. Volta e meia passo por ele nas ruas da minha pequena Tubarão, ao Sul de Santa Catarina, mas nunca mais nos cumprimentamos.

O Frank era o goleiro do time de futebol de salão da turma. Quase todo time de salão tem um arqueiro com o biotipo do Frank. É fácil imaginar. Tinha em sim uma aura que procurava encrenca em todo o canto. Andava com o peito estufado provocando todos com o olhar. Normalmente se metia com quem nada tinha que ver com o que ele pensava.

Certo dia, durante o recreio (o que hoje chamam de intervalo), mal terminei meu pastel de carne acompanhado de um Chocoleite e deixei meu instinto animal prevalecer. Fui tomar as dores de uma infeliz vítima do tal Frank.

Como contei no início da conversa, briguei apenas uma vez na vida e foi justamente naquela. Tinha tudo pra levar a maior surra. O Frank era temido por todos. Num primeiro momento fui salvo pelo gongo, quando acabaram os 15 minutos de vadiagem. Trocamos um empurrão de cada, sem ninguém da turma do deixa disso se manifestar e juramos um novo encontro na saída.

Não lembro dos minutos que antecederam o grande embate, como não faço ideia de como a notícia se espalhou por toda a escola. Admito que não queria brigar. Não sabia nem como brigar. Eu era do tipo sossegado: óculos de grau e cabelo lambido.

Apertei o passo na saída. Na esquina uma multidão já estava formada. Olhavam para mim como estivessem no Coliseu de Roma e eu fosse um pobre cristão a caminho do encontro com um leão. Não sei com quais palavras Frank me chamou, mas me fez parar e virar para trás. A roda se abriu.

A briga foi rápida. Até hoje sempre disse que eu venci. Que quebrei o relógio dele. Mas, omitia um detalhe: antes ele me deu um tapa desmoralizante nos óculos, que voaram. Fiquei sem saber o que fazer. A única reação foi um chute perdido, sem nenhuma habilidade, que por sorte minha, aterrissou meu pé direito no querido relógio do Frank.

Ele parou para verificar o estrago e eu corri atrás dos meus óculos que, pasmem, estavam intactos.

Levei esse tempo para admitir que nessa briga estapafúrdia não existiu vencedores e que levei esse tapa constrangedor. Mesmo assim, só contei para vocês, que sei, irão guardar segredo. Não sei se o Frank, algum dia confessou quase ter chorado por aquele relógio, mas certamente vangloriou-se destilando sua versão sobre a briga e elevando ao máximo o tapa que me deu.

Assim como naquela infeliz tarde em que todo o colégio parou para nos ver brigar, o mundo parou para ver os Estados Unidos contra os vietcongs. Entre 1959 e 1975 a Guerra do Vietnã tomou conta das atenções mundiais.

Cinquenta anos depois do início do conflito travado no Sudeste Asiático, entre o Vietnã do Norte e seus aliados comunistas e o Vietnã do Sul apoiado pelos Estados Unidos – que entraram na guerra em 1965 após ataques provocativos a embarcações na costa vietnamita.

A guerra para os americanos durou oito anos. Em 1973 eles retiraram suas desmanteladas e humilhadas tropas de solo asiático. O governo do Vietnã do Sul entrou em colapso e os guerrilheiros e soldados comandados por Ho Chi Minh invadiram e ocuparam Saigon em abril de 1975, provocando a rendição integral do exército sul-vietnamita.

Na nossa cultura ocidental com influência maciça do capitalismo liderado pelos Estados Unidos, as cinco décadas do início da Guerra do Vietnã certamente passaram quase que despercebidas, ao contrário dos 40 anos do festival de Woodstock realizado em 1969 e é lembrado à beça.

Os americanos em rituais discretos irão lembrar suas vítimas e os que pregaram em favor da "paz e amor" contra a Guerra do Vietnã tentarão em vão levar o tema para reflexões. No Vietnã do Norte, considerados vencedores do conflito, é certo que desfiles militares e muita exibição armamentista marcarão a passagem da data.

O costume é sempre determinar um vencedor e um derrotado em qualquer conflito e mesmo que ele não exista, sempre uma parte puxará a brasa para sua sardinha.

Na pequena briga que travei com Frank, exalto o relógio que quebrei do adversário e escondo o tapa que levei nos óculos. Ele deve narrar os fatos como meu algoz ao me arrancar os aros pretos com fundos de garrafa do rosto com um safanão. Na realidade, perderam os dois. Ele com o relógio quebrado e eu com a dignidade no chão.

Na Guerra do Vietnã, os derrotados Estados Unidos contabilizaram aproximadamente 50 mil mortos. O vencedor Vietnã do Norte, que teve seu país arrasado e parte considerável de sua população economicamente ativa morta, olhando-se no espelho atualmente não deve ter muitos motivos para se achar um vencedor.

Do lado Norte e do lado Sul, os Vietnãs perderem algo em torno de quatro milhões de vidas, além de outros dois milhões de cambojanos e laocianos, arrastados para a guerra com a propagação do conflito.

sexta-feira, agosto 21, 2009

Raul Seixas: Deixa gravar isso tudo

Raul Seixas
Imagem retirada do site http://letras.terra.com.br/ | Autor desconhecido


O esperado dia do eclipse
*Anderson Paes | www.twitter.com/andersonpaes

No dia 17 de agosto de 1989, a Lua se apagou completamente no céu. Quatro dias depois (21), Raul Seixas partiu numa viagem interestelar – como dizem alguns fãs. Coincidência ou não, no dia 25 daquele mês a sonda espacial Voyager 2 chegou ao planeta Netuno...

Raul, diferente do que as reportagens de hoje vão dizer, foi além da música. Questionou o Universo, o Homem, a Fé. Formou e informou muita gente do que é o início, meio e fim deste mundo que não quer parar. Contou das coisas que viu, leu e aprendeu – ensinou assim.

Alguns o chamaram de profeta do apocalipse, outros acusaram de todos os tipos de bruxaria. Provavelmente teria sido queimado vivo nos tempos da inquisição. Um alquimista das palavras. Raul experimentou este mundo, sem frescura. Avisou que só o entenderiam “no esperado dia do eclipse”. Talvez por algum motivo que ele já soubesse, talvez aquela tal “velocidade da luz pra alcançar”.

Hoje, 20 anos depois, Raul ainda é citado, cantado, pedido – “Toca Raul” até virou tema de música –, e continua abrindo cabeças, lembrando ideias quase esquecidas por aqui.

Naquela semana em que a Lua se apagou, seus fãs disseram “até a próxima” e até um repórter compartilhou e sentiu aquela despedida (veja o link no fim deste artigo). No dia 31, ainda em 1989, o Sol também se apagou.


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O lado B de Raul
*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Eu poderia buscar inspiração na Ilha da Fantasia, na rodoviária, na beira do pantanal, em Anarkinópolis, ou nas minas do Rei Salomão. Mas não. Gostaria mesmo era de estar no dia em que a Terra parou, enquanto pulava o muro no fundo do quintal da escola, para ler a lei das profecias e descobrir por quem os sinos dobram e o segredo do universo.

Quem sabe apanho o trem das sete, movido a álcool, até o novo aeon. Aos trancos e barrancos vou acompanhar as aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor. Se perguntares por quê? Eu respondo que sim, eu quero ir!

E se levar um tapa na cara, mando um SOS para os super-heróis, o moleque maravilho ou o cowboy fora da lei. Eu que não fico escutando conversa pra boi dormir. Antes convido Ângela ou Alice Maria para rezar uma Ave Maria da Rua com o pastor João e a Igreja invisível.

De cabeça para baixo, traço planos de papel, neste eterno Carnaval, mandando um som para Laio, atrás de você para entoar um canto para a minha morte ou uma canção do vento.

Se todo mundo explica, você ainda pode sonhar e, meu piano e minha viola, só pra variar, estão prontos para cantar, coisas do coração, uma cantiga de ninar ou um chorinho inconsequente.

Só porque você roubou meu vídeo cassete, calcei meu sapato 36, passei um DDI para Judas e fui curtir um rock das aranhas.

Vovó já dizia que ando muito dorminhoco e que o Dr. Pacheco não vê isso como uma brincadeira. Preciso fazer um check-up. Se o rádio não toca, meu amigo Pedro diz que eu sou egoísta. Mando ele parar de paranóia e pegar o trem 103.

Em uma mata virgem, nos anos 80 ou no século XXI, durante um banquete de lixo, encontro um diamante de mendigo. Esqueço Vera Verinha, Maria, e com a loba deito sob a lua cheia, fazendo o que o diabo gosta.

Ê meu pai, pagando brabo a gente leva a vida à prestação. O negócio é que é fim do mês e nem que eu faça, fuce, force, a placa de "aluga-se está na pedra do Gênesis. Não quero mais andar na contramão, mas não adianta ser um carpinteiro do universo, pois serei um canceriano sem lar.

Não adiantou aconselhar para que tente outra vez ou conserve seu medo. A areia da ampulheta acabou e tá na hora, na hora do trem passar.

Não posso ficar um minuto mais. Mesmo que acerte na loteria da Babilônia. Eu também vou reclamar e num cambalache descubro que luz é essa.

E parafraseando Raulzito na música Os números: eu falei de tanto assunto, talvez esqueci algum, mas as coisas que eu disse não são lá muito comum... quem souber que conte outro, ou que fique sem nenhum.


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Sob o signo de câncer
*Thiago Schwartz | www.twitter.com/perereco

Eu sempre gostei de Raul. Gostaria de ter presenciado mais de sua carreira em vida, mas ele nos deixou quando eu ainda tinha 5.

Quando criança, eu adorava Plunct Plact Zum e Ouro de tolo. E adorava a ideia de ser uma mosca na sopa de alguém, embora na época eu não entendesse que isso fosse algo ruim. Mas me chamava a atenção em especial a música "Canceriano sem lar".

Eu tinha uns 8 anos quando escutei essa música pela primeira vez. Achei engraçada aquela letra, praticamente um mantra do ócio ("Estou sentado em minha cama / Tomando meu café pra fumar"). Achei engraçado o fato de Raul Seixas ter o mesmo signo que eu, e sentir algumas coisas que eu também sentia. Uma melancolia subversiva, uma saudade de não-sei-o-quê misturada com a revolta por não estar onde se quer, e sempre querer estar longe dali.

Gostava das roupas, do misticismo, da bichogrilice. Gostava até de Paulo Coelho (até descobrir que ele também escrevia).

De algum modo especial, eu entendo Raul. Sinto uma espécie de orgulho, por ter nascido no mesmo dia que ele (28 de junho). Tanto orgulho que tudo o que eu escrever aqui será pequeno e inútil. E não chegará nem perto daquilo que quero dizer.

Definitivamente, hoje é feriado. É o dia da saudade.

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Links:
#1 Reportagem sobre Raul Seixas no Globo Repórter
#2 Ouça a música “O Homem”
*Os dois links levam a vídeos disponíveis no YouTube
e serão abertos numa nova janela.

quarta-feira, agosto 19, 2009

A velha!

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

O Jornal O Esporte ainda era no Edifício Iracema, na Galeria Pio XII, no Calçadão, no Centro de Tubarão, ao Sul de Santa Catarina. Eu ainda era repórter e sócio daquele querido semanário esportivo. Procurava palavras para intitular uma matéria quando Fabiano aparece mais branco que os cabelos do seu Jandir (pai dele):

— Tremedeira! – exclamou esbaforido, estica as duas mãos agitadas e espana as palavras, recém encontradas.

Abre parênteses: O Fabiano, pra quem não o conhece, é um bon vivant, que deve rezar pra Santo Antonio pedindo para continuar solteiro.

Natural de Seara, no Oeste Catarinense, veio parar na Cidade Azul para estudar Jornalismo. Cursamos juntos a faculdade. Já no primeiro dia fomos embora conversando. Eu na minha timidez e panca de revolucionário: barba e cabelo desgrenhado. Ele com pinta de maluco, gorro até a cintura. No momento do trote pulou a janela. Ganhou a turma.

No texto da formatura nos descreveram como amigos inseparáveis. “Se um dia o Fabiano for candidato a prefeito, o Eduardo certamente será o vice”. E uma médium disse que fomos irmãos em outra vida. Mas o fato concreto é que durante seis anos tocamos juntos um jornal. Fecha parênteses.

— O que foi? – perguntei, ao mesmo tempo em que ele chegava à janela para tomar um ar.
— Eu fui ao mercado e tu não imaginas o rolo que deu.

Acomodei-me melhor na cadeira. Cruzei os braços e esperei o pior.

— Quando fui passar no caixa – começou a explicar – tinha uma senhora, toda arrumada, com panca de grã-fina, na minha frente.

Pigarreei. Ele seguiu:

— Depois que a senhora passou suas compras e foi pagar, aconteceu o rolo – instigou e olhou para as mãos, como quem diz: por isso cheguei tremendo.
— Ela roubou alguma coisa? – preocupei-me.
— Não. Disse que não estava encontrando a carteira. Abriu a bolsa, tirou tudo de dentro e nada. A moça do caixa chamou um orientador. Aí a velha olha para trás e diz: “foi ele”.
— Tu? – pulei da cadeira.
— É. Ela disse que eu tinha roubado a carteira. Ainda duvidei e olhei para trás de mim. Não tinha mais ninguém. Gelei.
— Bah, que foda!
— Expliquei que nunca tinha visto aquela senhora e que ela estava enganada. Me controlei pra manter a calma. Nisso já juntou uns curiosos.

Eu não respirava. Numa prova de apneia venceria.

— Mandei então chamar o gerente. Quando ele chegou sugeri que fossemos na casa daquela senhora, que ela deveria ter esquecido lá a carteira.
— E vocês foram até lá mesmo?
— Fomos. Ela mora num prédio na Marcolino Martins Cabral.
— Sei.
— Cada um foi em seu carro. No apartamento, ela convidou para entrar, garantindo que não havia esquecido a carteira. Fiquei na sala. Ela foi para outros cômodos com o gerente e ouvi lá de dentro ela falar: achei.
— Maluca essa velha! E ainda levar vocês para o apartamento...
— Calma – disse Fabiano, mexendo num dos bolsos da jaqueta — aproveitei pra pegar um relógio antigo que estava na estante.

Endureci. Tive vontade de chamá-lo de burro. “Que otário”, pensei, “perdeu a razão”. “Logo tu, tão honesto, tão sério”. Mas ficou entalado. Ele seguiu:

— Na hora que estávamos nos despedindo o relógio despertou...
— Puta merda! – desembuchei.

Ele me olhou sério. Seu rosto se transfigurou. Algum ser parecia querer sair de suas entranhas. Não agüentou. Soltou uma gargalhada como eu nunca havia ouvido antes. Sem entender bulhufas, ele encerrou a cena lutando contra o riso que o encurvava e lhe roubava o ar:

— Aí eu acordei. Estava sonhando!

Outros parênteses para fazer justiça: essa história o próprio Fabiano publicou em sua coluna no Jornal O Esporte e, só porque nesta semana ele faz aniversário, lembrei deste momento com algumas licenças poéticas. Parabéns meu velho e caro amigo! És um monstro! Fecha parênteses.

domingo, agosto 16, 2009

O silêncio de agosto

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Não era o sol em suas horas extras nos dias que dissipavam o Inverno que anunciava a chegada da Primavera. O que sempre lembrou a chegada dos aprazíveis meses primaveris eram as bandas dos colégios do meu bairro ensaiando para o 7 de Setembro.

Em especial, todos paravam para ver a charanga da Escola Técnica Diomício Freitas, o CIP, do Bairro Santo Antonio de Pádua, em Tubarão, ao Sul de Santa Catarina. A fanfarra é regida há 22 anos por Adilson Carvalho da Costa, o Da Costa.

Da Costa é um negro de porte altivo, garboso e soberano. Tem 60 anos e sua altura não esconde seu passado. O maestro da banda do CIP é ex-goleiro do Comerciário (hoje Criciúma), do Ferroviário (de Tubarão), do Grêmio, do Internacional, do Botafogo, da Portuguesa, do Guarani e do Figueirense. Se no desfile, sempre perdemos para os colégios Dehon e São José – nunca toquei na banda, mas o CIP era a minha segunda casa – em campo, Da Costa é motivo de orgulho com seus quatro títulos estaduais: um pelo Comerciário, um pelo Figueirense, um pelo Ferroviário e outro pelo Guarani. O ex-arqueiro encerrou a carreira por conta de uma hérnia de disco.

De longe, quando a luz do dia se despedia de mansinho, o repicar das caixas com suas duas peles esticadas dando o som característico das marchas militares, a batida grave do bumbo, o coração da bateria, dependurado no peito do músico por um talabarte, repercutido em ambas as membranas por duas macetas que voavam malabaristicamente de um lado a outro, o ganido metálico dos címbalos de latão, golpeados um contra o outro deixando-se vibrar livremente, o acompanhamento exato dos metais com o trombone de vara, a tuba enrolada ao aluno como uma serpente e o canto estridente do trompete, anunciavam a charanga.

Moradores da redondeza abandonavam o Professor Raimundo e sua escolinha sozinhos dentro de casa e corriam para ver por mais uma vez a banda. Uns abriam as janelas, outros iam aos portões e muros. Os vizinhos ainda conversavam. As mães eram donas de casa. Os pais haviam recém chegado do trabalho com os pés apertados nos sapatos, o suor na testa, a camisa amassado com os últimos botões já abertos.

Crianças de bicicleta e os cachorros da vizinhança seguiam a charanga pela meia dúzia de quadras em que desfilavam. Os músicos tentavam se concentrar, mas sorrisos escapavam pelos cantos dos lábios. Orgulho e vergonha andavam lado a lado nos sentimentos daqueles privilegiados.

Para quem precisava andar próximo da banda o mais complicado era não entrar no passo da marcha. O pé direito teimava em pisar mais forte, no batimento cardíaco do bumbo.

Entre as quatro fileiras de instrumentistas, Da Costa ordenava com os silvos de seu apito imperioso os toques precisos. O maestro deixava seus braços soltos em paralelo a seu corpanzil. Saltava com a leveza de um Ademir da Guia vestido com a camisa da Academia do Palmeiras e ameaçava tocar nos fios dos postes.

Neste ano infelizmente, por desgraça, a Gripe Suína não roubou apenas espaços imensuráveis nos assuntos cotidianos, furtou-me também o prazer lúdico de acompanhar os sons marciais como se eu fosse ainda um moleque, escorado com meus cotovelos imberbes no muro da casa onde passei a infância. Sem aulas, sem ensaios.

A primavera vai chegar sem alardes. Só as flores irão saudá-la.

quinta-feira, agosto 13, 2009

Covardia

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

De tempos em tempos, hábitos costumeiros são suplantados por outros nem sonhados outrora. Ao menos dois deles de minha época de moleque hoje soam quase que absurdos: não comprávamos água mineral para beber em casa e não pagávamos para jogar futebol.

Não que a água da torneira fosse muito mais limpa há 20 anos do que é hoje. Por certo a paranóia que nos assola atualmente não era tanta. Nós tínhamos era medo do russo que guardava o botão da Bomba H e das ogivas nucleares americanas prontas para voarem sobre o planeta. Eram medos distantes do nosso mundinho sem celular e internet, eram temores de quem ainda se recuperava do resfriado da Guerra Fria.

A água, bebíamos de duas maneiras: em casa, nos filtros de barro, e na rua, na torneira, diretamente com a boca ou com as mãos imundas em forma de concha. Esta segunda modalidade de ingestão da água era muito comum após os jogos de futebol nos terrenos baldios.

As crianças de hoje jogam futebol duas vezes por semana, supervisionadas por um professor, em um campo de gramado sintético, com uniforme completo, e com hora marcada para terminar a partida, acham que são mais felizes do que nós, que dividíamos os times em com camisa e sem camisa, jogávamos descalços e gramado era pasto pra cavalo. Pobres coitados.

Os nossos campos eram de chão batido, a grama era rala e rara, a duração da partida era determinada pela luz do sol, não pagávamos para jogar e durante o horário de verão as partidas aconteciam todos os dias depois da escola dos que estudavam a tarde.

O bairro Santo Antônio de Pádua, em Tubarão, ao Sul de Santa Catarina, aonde cresci, era rico em terrenos baldios transformados em campinhos de futebol. Nenhum deles possuía qualquer estrutura. Alambrado, marcação com cal, traves, isso era um luxo para os profissionais. A lateral e a linha de fundo eram fronteiras invisíveis e bandeiras e juizes eram os próprios jogadores. Praticamente não exista falta.

Também não existam goleiros (talvez por isso o Brasil fosse tão carente nesta posição). Jogávamos com duas travinhas pequenas, com o perdão da redundância. A regra mais importante e a mais difícil de ser cumprida era a do zagueiro que ficava plantado na travinha. Não existia impedimento. Era normal que os piores jogadores de cada time fossem colocados ou na banheira (ataque) ou na defesa. Para o defensor valia mais a artimanha de ludibriar os outros e disfarçadamente se postar entre os tijolos, chinelos, paus ou pedras, que geralmente faziam o papel de traves.

Nos jogos em que eu participava, emprestava duas traves de ferro (por sinal, só jogava mesmo porque era o dono das traves e normalmente era o atacante ou o zagueiro). Com as traves de ferro o papel do defensor era ainda mais fácil: bastava sentar-se no travessão.

De todo modo os adversários alertavam para a prática ilegal. Riscávamos no chão uma área que limitava o recuo do defensor, mas num ataque eram comuns uns passinhos indevidos para trás. Briga na certa! Ou o atacante se queimava e metia um bago nos bagos do zagueiro ou soltava um pombo sem asas e a bola perdia-se no terreno de um vizinho.

Era um drama quando se enfrentava um time com um plantado na travinha. Não havia meio de fazer um gol. Ou melhor, havia: chutávamos a bola nas mãos do zagueiro desgraçado a procura de um pênalti.

Para a cobrança da penalidade, por sinal, armávamos mais brigas. A primeira para definir a forma de cobrança. Eram duas escolhas: do meio do campo, sem o defensor, ou de cinco passos de distância da meta, com o zagueiro de lado. Se a segunda era escolhida era difícil o “goleiro” ficar parado.

Podia perguntar na época se algum atacante sonhava em um dia eliminar o zagueiro plantado na travinha. Todos iriam dizer que sim.

Hoje, no futebol, depois de ter sido banida, a paradinha (quando o jogador faz que vai, não vai e depois vai) na cobrança de pênaltis voltou. Em matéria de penalidades duas coisas me chamam a atenção: jogador canhoto (hoje é o dia mundial do canhoto) raramente converte seu tento e um goleiro jamais defende um pênalti cobrado com a famigerada paradinha.

No meu tempo o zagueirão plantado na trave era o pesadelo do atacante. Uma covardia! Agora é o atacante que vai a forra em cima do goleiro com a paradinha, um verdadeiro crime consentido pela regra.

Sinais do tempo em que muitos outros crimes de toda ordem são cometidos sem que os responsáveis sejam punidos. Vide os escândalos políticos e futebolísticos...

quarta-feira, agosto 12, 2009

Sentado nas próprias mãos

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Tenho uma família materna grande. Minha mãe tem 15 irmãos! Meu saudoso avô Adolfo era um bugre com mistura portuguesa e minha avó Edite uma lusitana nata. É gente que gosta de se encontrar. Adora abraços, beijos e festas. As despedidas são longas e calorosas. Os reencontros marcados por braços estendidos ao máximo.

O Souza que herdei no nome e o Fernandes que carrego apenas no sangue não foram tão fortes para moldar parte importante de meu caráter quanto meu lado italiano Daniel, Favarin e Castelan. Ao contrário da parte materna, sempre fui introspectivo, com uma timidez acentuada e exagerada na infância.

Fugia dos afagos das tias e das primas mais velhas como o cavalo indomado foge da sela. Assim como as alcunhas pegam naqueles que a detestam, elas beijavam-me com muito mais afinco. Na sinceridade infantil, eu limpava o rosto da marca dos batons.

Os primeiros verões de minha vida foram na casa desses meus avôs, no Balneário Arroio do Silva, no extremo Sul de Santa Catarina. A residência ficava à beira-mar, separada pelo oceano pela faixa de areia da praia. A entrada era por trás e se chegava até ela após vencer um labirinto de ruas iguais umas às outras. Meu pai costumeiramente se perdia e a culpa caia para cima de minha pobre mãe, que com a paciência típica de sua família, ouvia calada os impropérios do seu Hugo.

A casa, de madeira, era recheada de quartos, beliches e sofás. Todos da família passavam ao menos alguns dias do verão ali. Nem os corredores escapavam da tarefa de servir de dormitório, com cortinas fazendo o papel de paredes e portas. Meu pai nos deixava lá – eu, minha irmã e minha mãe – e voltava para Tubarão. Alguém, desde que o mundo é mundo, tem que trabalhar para os outros vadiarem.

Dentro de casa eu era calado como uma pedra. Distraia-me apenas na rua, brincando com os primos e vizinhos e derretendo-me como todos os outros por uma vizinha uns dez anos mais velha. Guardo ainda na memória e no balcão da estante de minha biblioteca quatro dinossauros com peças de madeira imitando ossos, comprados em Arroio do Silva. Lembro também de um tombo. Dava uma de equilibrista até ser atrapalhado por uma corda de varal e cair de perna aberta no muro de salpico. Ralei do joelho à altura da virilha.

Com a minha extrema timidez criei algumas características peculiares. Uma delas era minha concentração com meus bonecos de Comandos em Ação. Brincava por horas a fio com os pensamentos em outro mundo. A outra marca lembrada até hoje nos traumatizantes e enormes encontros de família era a minha forma de sentar no sofá em minhas próprias mãos.

Curiosamente, já no carro a caminho de casa, sofria uma metamorfose e tornava-me outra criança. Tagarelava o tempo todo e contava tudo o que tinha acontecido naqueles dias.

Em tempo, no dicionário, um tímido é aquele “que tem temor; assustado, medroso, receoso, sem coragem. Que não tem desembaraço; acanhado. Incerto, débil, dúbio, fraco". Timidez no “mata-burro” é “acanhamento excessivo, fraqueza de ânimo".

Era pra ser com alegria, mas é com profundo desconforto que descobri que o meu Grêmio no Campeonato Brasileiro deste ano tem algo incrivelmente em comum com a minha infância: é desesperadamente tímido.

Se em casa o time é imbatível – dois empates e sete vitórias – fora, os números são um antônimo desanimador: dois empates e sete derrotas. O Grêmio precisa procurar um psicólogo para perder essa timidez.

O Tricolor Gaúcho tem dois caminhos: ou se torna mais solto fora de casa para almejar uma recompensa no campeonato ou segue sentado nas próprias mãos, assistindo introspectivo os outros jogarem futebol.

No domingo, o Grêmio recebe o Flamengo, em Porto Alegre.

segunda-feira, agosto 10, 2009

Quitandas e a volta aos tempos românticos

*Thiago Schwartz | www.twitter.com/perereco

Há mais ou menos dois meses, abriu na esquina da rua de casa uma quitanda. Sim, uma quitanda.

Um espaço bastante restrito, onde disputavam espaço as verduras, as frutas, os legumes, as garrafas de melado, a água, os mantimentos e o carvão. Basicamente isso. E um balcão, cheio de balas, que faz sucesso entre a garotada ali do bairro. As frutas, mirradas, não têm condição de fazer frente às grandes e bonitas frutas do supermercado. Mas todas carregam uma espécie de orgulho, próprio daqueles que se recusam a fazer parte disso tudo, em nome da tradição da quitanda.

Por volta das 18 horas, o dono da quitanda coloca algumas mesas de plástico na varandinha, para receber os senhores que estão por vir. É a transfiguração da quitanda. Senhores de meia-idade – alguns já na terceira – iniciam uma procissão casa-boteco e, uma vez lá, tem início o ritual sagrado, realizado diariamente: Pedem um aperitivo (quase sempre amendoim, por ser mais barato), uma cerveja, e começam a discutir os assuntos mais importantes do cotidiano.

Futebol, coisas do passado e futebol do passado. Quase sempre a conversa gira em torno disso. Sobre como os tempos antigos eram melhores que os de agora. É fácil ver lágrimas nos olhos de um senhor ao falar dos tempos de FerroLuz. Aquilo sim era clássico, não o Flamengo x Corinthians sofrível que passou na televisão domingo.

A quitanda que abriu na esquina da minha rua é uma espécie de portal. A vontade das pessoas que frequentam a quitanda fez com que o tempo lá corresse numa velocidade diferente do resto do mundo. Os rostos envelhecem, os corpos minguam, as línguas tropeçam – algumas por força do excesso –, mas o romance dos tempos idos, tão bem lembrados por Cartola, continua lá, somente à espera de alguém que o reviva.

quarta-feira, agosto 05, 2009

Uma fatia de pizza e uma Coca de garrafinha

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Meu paladar infantil guarda na memória um sabor inigualável: a pizza do antigo Angeloni, na margem direita, em Tubarão, no Sul de Santa Catarina. A rede de supermercados fundada na vizinha Criciúma abriu esta filial no dia 24 de agosto de 1972. Atualmente no local da loja existe um grande terreno vazio.

É muito viva a lembrança do mercado, antes de sua reforma que tirou o traçado original. Um grande pátio servia de estacionamento a céu aberto. O nome ficava acima da fachada, gravado em oito quadrados de pedra. Pequenas palmeiras nos recebiam na rampa e escada que convergiam para a porta principal.

Para chegarmos à lanchonete, pegávamos à esquerda. O ambiente em forma de meia lua deixava os clientes de costas para o corredor que fazia fronteira com as janelas, que abriam para fora, na vertical. O balcão acompanhava o formato arredondado e as banquetas davam o ar característico dos anos 80. Quem assistiu ao De Volta para o Futuro 1 que se imagine naquela lanchonete para pensar na do Angeloni.

A pizza era vendida em fatias e assim como tudo o que era pedido ali, era repassado pelo atendente para a cozinha, que também com as paredes seguindo o formato da lanchonete, ficava atrás, entrecortada por meia dúzia de pequenas janelas.

Ir com meu pai comer uma fatia de pizza era quase que um ato religioso. Não existia outra escolha: mussarela e uma Coca-Cola, de vidro, que são as melhores. Para mim nunca mais assaram uma pizza como aquela. A massa bem sequinha, o recheio caprichado. A temperatura ideal e a Coca bem gelada.

Colocando aquele mundo e o de hoje frente a frente, é possível entender a escassez de variedades como o motivo principal de minha fixação por aquela pizza. No meu reduzido universo só existia aquela.

E o mundo era muito melhor apenas com aquela fatia de pizza de mussarela e uma garrafinha de Coca-Cola.

Hoje em cada esquina se vê uma pizzaria. E o que é mais escandaloso em matéria de fartura: são rodízios! O sujeito se esbalda até não poder mais. Além dos sabores tradicionais os pizzaiolos criam e recriam novas composições. E a comodidade de uma pizza em casa, com uma Coca-Cola, pasmem, de três litros?

Dá saudades daquela simplicidade, daquela necessidade. Hoje ao sentar descompromissado para encarar a tela em branco do programa de texto, depois de visitar o endereço eletrônico de um conglomerado das comunicações, um título, infelizmente esperado, salta aos olhos:

“Presidente do Conselho de Ética arquiva ações contra Sarney e Renan” e segue com uma linha de apoio: “Paulo Duque (PMDB-RJ) alegou falta de evidências para abrir investigação. Presidente do Senado ainda responde a outras sete medidas no colegiado”.

Como se vê, os políticos também se esbaldam com a oferta gigantesca de pizza e as novidades da pizzaria mais famosa do Brasil começaram a sair do forno nesta quarta-feira.

Bom apetite e uma bela indigestão!
 

CONTATO
Colaboradores Ana Carla Teixeira, Anderson Paes, Camila Rufine, Carlos Karan, Deyse Zarichta, Eduardo Daniel, Emanuela Silva, Emanuelle Querino,
Emmanuel Carvalho, Fabiano Bordignon, Fabrício Espíndola, Francine de Mattos, Gabriel Guedes, Germaá Oliveira, Guilherme Marcon, Isabel Cunha, Kellen Baesso, Manuela Prá, Patrícia Martins, Thiago Antunes, Thiago Schwartz, Tiago Tavares, Valter Ziantoni,Van Luchiari, Vanessa Feltrin, Vitor S. Castelo Branco, Viviany Pfleger

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