PRIMEIRA PÁGINA | FOTOGRAFIA | SÉRIES | TWITTER | FACEBOOK
Destaque Quitandas e a volta aos tempos românticos Thiago Schwartz


Blog •
Mostrando postagens com marcador Futebol. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Futebol. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, junho 16, 2010

As conclusões precipitadas da Copa

*Guilherme Marcon | http://www.twitter.com/guimmarcon

A primeira rodada da copa do mundo não deixou uma boa impressão. E penso que impressão é o máximo que se pode extrair dela. Digo isso porque vi muitas pessoas na TV e na internet concluindo destinos de várias seleções na competição apenas com base no primeiro jogo e pior, que esta é a pior Copa de todos os tempos.



Esta imagem ilustra bem o que quero dizer. Um dos colunistas afirma que a Argentina tem time, o outro, afirma que ela não tem. Qual deles tem razão? A meu ver, nenhum dos dois. Em apenas uma partida não podemos concluir que a Argentina é só Messi, que não é só Messi, tampouco que Messi não é jogador "de seleção".

Do mesmo modo, não podemos afirmar que a Espanha "não é tudo o que dizem", que "amarela em Copas", que isso é histórico e etc, só porque perdeu hoje. Como disse Mano Menezes em seu blog, a Suíça teve sucesso no que se propôs a fazer, teve méritos e merece os parabéns, todavia, como Mano salientou: "Os suíços têm plena consciência de que só poderiam tentar vencer os espanhóis jogando da maneira como jogaram. Provavelmente, ao se enfrentarem dez vezes, irão perder oito – mas continuarão pensando da mesma maneira, por saberem de suas características e limitações".

De outro lado, a Alemanha surpreendeu a todos pelo futebol vistoso e envolvente, algo raramente visto em jogos dos alemães há um bom tempo. Entretanto, essa seleção foi alvo de duas conclusões precipitadas. Antes do jogo, a equipe de transmissão da Globo falou e repetiu: "essa é a pior Alemanha dos últimos tempos, ainda mais sem o Ballack. Sempre teve dificuldades nas últimas Copas e nessa terá ainda mais.

Durante o jogo, Galvão e Casagrande ficaram surpresos - e nós também, é verdade – devido ao bom futebol apresentado. O problema é que de patinho feio da copa a Alemanha passou – em apenas uma partida – a grande favorita, a ponto de o Galvão, mais tarde, dizer "surgiu a primeira finalista da Copa. Será que eu acerto esta?".

Quanto ao Brasil, infelizmente não me surpreendi. O problema do time em jogar contra equipes retrancadas é ressaltado há muito tempo pela imprensa, foi visto e revisto durante as eliminatórias. Furar retrancas não é fácil pra nenhum time, mas para essa equipe, com Gilberto Silva, Elano e Felipe Melo no meio campo, fica ainda mais difícil. Ainda mais se jogarem com pouca movimentação, como ontem. Soma-se a isso o fato de o Kaká não ser um armador e ainda não estar nas melhores condições físicas e técnicas nesta temporada, sobretudo no que diz respeito ao ritmo de jogo.

Nem por isso podemos dizer que o time é uma droga – embora não jogue bonito como todo torcedor brasileiro sonha. Creio que essa impressão mudará nas próximas partidas, pois os outros times do Grupo têm mais recurso técnico e não deverão ficar na retranca, o que possibilitará mais espaços pra jogar, principalmente no contragolpe, arma muito forte desse time do Dunga.

Por fim, enfatizo a impossibilidade de se antecipar o destino dos times na competição com apenas uma rodada utilizando o jogo de abertura da segunda. Na primeira rodada do Grupo A, a África do Sul jogou bem, não venceu devido aos erros de finalização e há também quem reclame de um pênalti (pra mim não houve). Muitos externaram opiniões no sentido de que eles tinham muitas chances de se classificar, tendo em vista o futebol apresentado. Em Contrapartida, o Uruguai fez um jogo ruim contra a França, ambos foram muito criticados. No entanto, no jogo de hoje, Uruguai jogou bem e a África do Sul não manteve o nível da primeira rodada. 3x0. Já ouvi e li pessoas dizendo que o Uruguai "vai chegar".

Quer dizer então que se a Alemanha jogar mal a próxima partida torna a ser o patinho feio? Se a Espanha golear será favorita novamente? Se Messi e os demais hermanos derem show amanhã serão imbatíveis e se perderem serão só Messi ou "nem Messi"? E, por último, se todos – ou a maioria – dos jogos da segunda rodada forem como o de hoje teremos uma ótima Copa? É Assim?

Tenhamos mais prudência, impressões e opiniões não se confundem com conclusões e sentenças. A Copa pode melhorar.

quarta-feira, junho 09, 2010

Próprio rabo

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Acostumados a Copas do Mundo no continente europeu, nos espantam os problemas escancarados na África do Sul às vésperas do décimo nono campeonato mundial de futebol.

Nós brasileiros demonstramos profunda preocupação quanto ao sucesso deste mundial no que se diz respeito à segurança, transporte e organização.

Quando lemos notícias da segregação sul africana e dos bairros de extrema pobreza, nos esquecemos de nossas mazelas expostas em favelas e periferias de todas as sedes da Copa de 2014, a ser realizada no Brasil.

A África do Sul, ao contrário dos países europeus, não cultiva a utilização dos trens. É previsível então que os aeroportos se tornem verdadeiros purgatórios para os turistas e jornalistas presentes na Copa.

Fitamos este cenário que se demonstra caótico com distanciamento incorreto, uma vez que, em um país muitas vezes maior que a África do Sul, temos estradas péssimas e as ferrovias para passageiros não ligam mais do que meros quilômetros em estradas de ferro históricas e interioranas. Além de termos problemas crônicos em nossos aeroportos.

Ouvimos falar de violência, roubos, assaltos e mortes na África do Sul, como se a próxima Copa do Mundo fosse ser realizada na Suiça e não aqui, no Brasil. Como se nossas capitais fossem exemplares Vienas, Oslos e Bernas.

Falamos do racismo na África do Sul como quem não convive com o preconceito e a desigualdade diariamente à porta. Nos indignamos com Soweto e esquecemos das Rocinhas, Mangueiras, Morros do Alemão e Cidades de Deus espalhados por todo o Brasil.

Nossa imprensa nos informa dos desvios de dinheiro e atrasos nas obras da Copa na África do Sul e parecemos esquecer que em nossa Copa este será mais um recorde a ser batido facilmente no país da falcatrua e do jogo sujo do rabo preso.

Se nós olhamos para esta Copa com desconfiança, imagino como os europeus a analisam. E, já aguardo temeroso, pela forma com a qual irão tratar de assuntos como segurança, transporte e organização no país do Carnaval e do samba em 2014...

quarta-feira, novembro 25, 2009

Não devemos odiar o São Paulo, devemos seguir o seu exemplo

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Quem, nesta reta final de Campeonato Brasileiro, que não seja são-paulino, e está torcendo para o São Paulo? Aposto minhas cuecas que são poucos, quiçá, não tenha ninguém.

Certamente apenas os vascaínos, botafoguenses e tricolores estão secando o Flamengo nesta batalha palmo a palmo contra o São Paulo.

É o São Paulo, com toda a sua estrutura européia, contra o Flamengo tipicamente brasileiro, carioca suburbano, com tudo o que há de bom e de ruim no Brasil ao mesmo tempo.

Dói ver a grama do vizinho mais verde do que a nossa. Da mesma forma, dói ver o São Paulo imbatível nos pontos corridos. Aí dissemos que esta forma de disputa está perdendo a graça, quando na realidade estamos apenas destilando inveja ao time do Morumbi. Se em todo o ano tivéssemos um campeão diferente, a conversa seria outra.

Esta má vontade que temos em relação ao São Paulo, talvez confirme a nossa síndrome de vira-latas. Enquanto os são-paulinos têm um grande estádio, planejamento, contas em dia, um centro médico de referência internacional, o Flamengo joga em um estádio do governo, pouco olha para sua casa e vem de um patrocínio envolto em mistério, que perdurou por décadas, com uma estatal.

Querer o Flamengo campeão é seguir a onda vintage. Torcer pelo Flamengo em detrimento do São Paulo, é olhar para trás. É patinar no tempo em que o nosso futebol era gerido com o coronelismo apaixonado dos cartolas.

Por outro lado, se um torcedor de outro clube admitir simpatia pelo São Paulo, vai ser achincalhado em praça pública. De visionário vai passar por segregador social e elitista.

Não sou nem flamenguista, nem são-paulino, mas, se uma mea culpa ainda cabe neste texto, admito a tendência retrô e a torcida pelo Flamengo, que mais do que nunca tem hoje quase o tamanho do Brasil.

quinta-feira, outubro 08, 2009

Argentina, cuidado com o Peru!

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Pensei – pode não parecer, mas eu penso – em começar este texto com a batida expressão: “a vingança é um prato que se come frio”. Mas, porém, todavia, quem sabe, “vingança” propriamente dita não seria o sentimento do Peru em relação à Argentina desde aquela Copa do Mundo de 1978. Um acerto de contas com o passado para tirar um peso das costas, talvez se enquadre melhor.

Amiúde os deuses do esporte vivem pregando peças em todo mundo.

A Argentina vivia em 1978 uma das mais brutais ditaduras da América Latina. Sob o comando do presidente militar, o tenente-general Jorge Rafael Videla, o regime totalitário platino viu naquela copa uma oportunidade de anestesiar o país e desviar o foco das violações dos direitos humanos cometidos contra los hermanos opositores ao governo.

Diferente de hoje, a Copa de 1978 não teve semifinal. Dois grupos com quatro seleções cada, duelaram entre si. O primeiro de cada chave disputou a final. No grupo um, a Holanda ficou à frente de Itália, Alemanha Ocidental e Áustria. Pelo grupo dois, de uma forma obscura, deu Argentina

Na última rodada o Brasil venceu a Polônia por 3x1 e colocou um pé na final. Os argentinos precisavam vencer o Peru por uma diferença de quatro gols. Na escolha dos horários dos jogos a história começou a ser moldada em favor da Seleção Argentina. A Fifa, de uma hora para outra, resolveu adiantar o jogo dos brasileiros para a tarde, atendendo pedidos das emissoras de TV locais, que alegavam estarem se adaptando a transmissão em cores. Os argentinos entraram em campo a noite, já sabendo de quanto precisariam vencer.

E em uma atuação vexatória do goleiro Quiroga – argentino naturalizado peruano – o Peru levou seis, não marcou nenhum e a vaga ficou com os argentinos. Esta história mal contada é alvo até hoje das mais inventivas teorias. Desde subornos entre dirigentes e jogadores, ao envolvimento dos mais altos quadros governamentais de Argentina e Peru em colaboração militar. Não bastasse, o jornal inglês Sunday Times denunciou uma fraude nos testes antidoping dos argentinos. Segundo o periódico um homem teria sido contratado apenas para urinar.

Moralmente, para os brasileiros, o Brasil foi o campeão, por ter sido eliminado invicto da Copa. Na final, a Argentina venceu a Holanda – sem o craque Johan Cruijff, que não foi ao torneio em protesto contra a ditadura – por 3x1.

E lá se foram sete Copas do Mundo. Muita coisa mudou. Tudo parecia resolvido. Aí aqueles benditos deuses do futebol resolvem colocar de novo o Peru no caminho da Argentina. Para Freud é um prato cheio!

Sábado às 19h (horário de Brasília) a Argentina pega – no bom sentido – o Peru mais uma vez em um momento delicado. O Peru vem atrás de todo mundo – no bom sentido novamente, é o lanterna das Eliminatórias –, mas promete dar de tudo para vencer a seleção de Maradona. Se perder, os argentinos praticamente dão adeus à Copa da África do Sul.

A imprensa peruana diz que os jogadores e a população querem resgatar a honra perdida em 1978. E mais, querem repetir um feito histórico: a última vez que os argentinos ficaram fora de uma Copa do Mundo foi em 1970 e, adivinhem quem os eliminou? "Piiiiiiiiiiruuuu!? Glu, glu, glu, glu!"

quarta-feira, setembro 30, 2009

"Você não faz uma limonada sem limão"

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Em agosto de 2007 Paulo César Carpegiani acabava uma curta e conturbada passagem pelo Corinthians: seis vitórias em 24 jogos. O jogo derradeiro: uma derrota em casa para o Cruzeiro por 3x0. Dias depois, ele procurou e encontrou refúgio em Gravatal, no Sul de Santa Catarina.

Este escriba que traça umas linhas tortas neste blogue, ainda era repórter do Jornal O Esporte e, junto com o colega Fabiano Bordignon, encontrou um Carpegiani à vontade, de chinelo e bermuda, no hotel em que descansava com a esposa e nos aguardava para a primeira entrevista do ex-jogador de Flamengo e Internacional após a demissão do Corinthians.


Um time com um bom técnico, mas com jogadores fracos, dá certo?
Você não faz uma limonada sem limão não é tchê? – indagou.

E vice-versa: com jogadores bons e com técnico fraco, o time dá certo?
O técnico é 20, 30% no time. É uma complexidade muito grande a relação treinador com jogador. Você tem que administrar tudo quanto é tipo de problemas sem desestabilizar o grupo.


Mas por que diabos, afinal, eu desenterrei esta entrevista? Não, não é um delírio da febre que me atingiu há alguns dias. É que o Muricy Ramalho tem tudo para ser campeão brasileiro pelo quarto ano seguido, com um segundo time.

Quando a equipe vai mal o primeiro a ter a cabeça guilhotinada é o treinador. A oferta no mercado de treinadores é grande. Entende-se. O próprio Carpegiani, abusando mais um pouco daquela entrevista, alerta para a falta de união da classe.


Treinador assume o lugar do colega demitido rapidamente. Falta união?
Nossa classe é muito desunida, não tem jeito. É cada um por si. Eu tive dois convites de times que tem treinador e o presidente fez o contato. Eu nem aceitei conversar.


Trabalhar com toda essa pressão e responsabilidade de levar nos ombros os louros da vitória e os espinhos da derrota não é fácil. Que diga o técnico Dunga, classificado com folga para a Copa do Mundo, com títulos expressivos pela Seleção e mesmo assim sofrendo críticas pesadas da imprensa. Ô raça, diria Tutty Vasquez.

Depois é a vida de goleiro que é dura, não é?

Mas cheguemos de tocar a bola de lado no meio-de-campo e partamos logo para o ataque, que ninguém tem tempo pra perder com lengalenga.

No final do primeiro turno do Campeonato Brasileiro do ano passado, o Grêmio aparecia na tábua com 41 pontos, seguido por Cruzeiro, 36, Palmeiras, 34 e São Paulo, 33. Eis que no returno a trupe comandada por Muricy Ramalho perdeu apenas na abertura da segunda parte do certame – justo para o Grêmio – e depois não foi mais derrotada. Resultado? São Paulo campeão com 75 pontos, Grêmio em segundo com 72, Cruzeiro em terceiro com 67 e Palmeiras em quarto com 65.

Técnico ganha jogo? Pode até não ganhar, mas eu nunca vi um time ser campeão com treinador medíocre.

No Brasileiro deste ano, Muricy trocou de casa. Saiu do São Paulo e foi para o rival Palmeiras, que dispensou o também campeão Vanderlei Luxemburgo. O Palestra terminou o primeiro turno em segundo, empatado com o Internacional com 37 pontos, seguido por Goiás, 35 e São Paulo, 33.

O Tricolor Paulista apostou em Ricardo Gomes e está vivo no campeonato. Ricardo Gomes é discreto, mas já treinou vários times brasileiros e conquistou títulos como técnico na Europa.

O campeão Muricy assumiu um Palmeiras sem favoritismo e prepara aos poucos uma doce limonada. Ricardo Gomes, a procura de afirmação no Brasil, pegou um São Paulo acostumado aos títulos, com água gelada, limões maduros e o melhor açúcar. Tudo na mão para um suco daqueles!

As cartas estão na mesa. Goiás, Internacional e Atlético Mineiro também estão na briga. Mas o que chama a atenção é a disputa entre o atual campeão São Paulo e o atual campeão Muricy Ramalho. Quem vai ficar com a limonada? Quem vai se consolar com a amargura do limão?

Ah! O Carpegiani? Depois daquele maldito agosto para ele, só foi conseguir emprego como treinador novamente em abril deste ano, quando foi contratado pelo Vitória. Foi campeão baiano. No Brasileiro arrancou muito bem e ficou muitas rodadas na liderança. Aí o filme se repetiu quando rubro-negro começou a despencar pelas tabelas e as criticas aos improvisos do treinador gaúcho voltaram.

Novamente em um agosto ele foi demitido quando o Vitória já ocupava a 10ª posição no Campeonato Brasileiro.

sábado, setembro 12, 2009

O que houve com o futebol argentino

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

A Revista Super Interessante deste mês trás dados de pesquisadores que apontam uma redução considerável no número de mortes decorrentes de conflitos armados. No século 21, aproximadamente 250 mil pessoas morrem por ano em conseqüência destes entraves. Na segunda metade do século 20, morriam cerca de 800 mil por ano, vítimas de escaramuças e até 1950 morreram 3,8 milhões por ano em função das guerras.

Para o psicólogo da Universidade Harvard, Steven Pinker, o que ajudou para a diminuição destes números foi o aumento da democracia, a nossa saúde – com uma expectativa de vida maior, temos menos ímpeto de morrermos jovens – e a globalização. “Um mundo mais integrado é um mundo mais tolerante”, destaca Pinker.

Os jogos dos argentinos contra Brasil e Paraguai foram demonstrações tristes de um futebol decadente e essa corrosão é em grande parte, devido à globalização. Hoje os jogadores rioplatenses jogam com os demais em grandes clubes da Europa, incluindo-se aí, para desgosto dos platinos mais garridos, times ingleses.

Essa amizade e influência fizeram extinguir-se do futebol o jogador cabeludo, mascarado e mal-encarado. Em dois clássicos do futebol latino de suma importância para uma vaga à próxima Copa do Mundo, a Seleção Argentina se comportou como um time de dondocas. Não fez catimba, não cuspiu e nem chutou nenhum adversário.

Nossos vizinhos já não são mais um mistério latino com perfume europeu. Os brasileiros agora retribuem as visitas que eles nos fazem lotando voos para Buenos Aires e Bariloche. No verão, não vemos mais aquela invasão de carros caindo aos pedaços. Sua frota melhorou. Nem parecem os mesmos.

Com essas mudanças o futebol argentino foi perdendo a graça. Aquele futebol de guerrilha, de torcida fanática, de jogador puro sangue, foi guilhotinado em nome da globalização. São apenas os clubes da república do Rio da Prata que continuam intocáveis em sua raça.

O futebol argentino tem que ser como um fado de Amália Rodrigues, um tango de Gardel, um choro de Pixinguinha, um lamento de Nelson Gonçalves, um conto de Nelson Rodrigues, uma poesia de Baudelaire ou um samba de Vinicius. Tem que ser pesado como o direto do boxeador e leve como o plié da bailarina. Triste para ser bonito. Tem que sofrer para vencer.

A eliminação da Argentina para a próxima Copa do Mundo, pode servir como o exorcismo de dois fantasmas: a conquista do Mundial de 1978 com a suspeita goleada de 6x0 contra um eliminado Peru, tirando as chances do Brasil ir à final e a Copa de 86, com o célebre gol de Maradona e “la mano de Dios”.

Não pensem, porém, que seria o fim para los hermanos. A Copa de 2014 será aqui e não tenho a menor dúvida de que eles fariam das tripas coração para ir à forra em terras tupiniquins.

quarta-feira, setembro 02, 2009

Brasil e Argentina: "Já tá chato!"

*Anderson Paes | www.twitter.com/andersonpaes

A imprensa brasileira insiste na velha rivalidade e polêmica elaborada especialmente para um Brasil e Argentina no futebol. Repórteres de TV seguem com suas gracinhas enquanto os jogadores brasileiros desconversam e consideram que o assunto “já tá chato”.

Outros profissionais que acompanham a Seleção Brasileira relevam os comentários vindos do lado de lá da fronteira como se Diego Maradona e seus comandados fossem só provocação.

No site da revista Placar: “Brasil planeja transformar pressão argentina em motivação”; na matéria falam em “clima de guerra” – clima de guerra? Se falam da vontade de vencer... sabe-se que isso os argentinos sempre tiveram – não fazem como o Brasil em alguns jogos. Bom, ainda de acordo com a revista, Maradona disse que considera sua equipe superior e aposta na vitória de sua seleção. Mas nada mais lógico que um treinador elogiar seu grupo e apostar em si mesmo, não?

Numa breve passagem pelo site de esportes Olé, da Argentina, vê-se até uma entrevista com o atacante brasileiro Luís Fabiano, onde diz que espera “que a Argentina se classifique” para a Copa do Mundo de 2010; e há ainda uma realista e otimista frase do experiente Claudio Cannigia, dizendo que sua seleção “está por baixo (em relação à Seleção Brasileira), mas que vencerá no sábado”.

Essa polêmica por Brasil e Argentina no futebol fica apenas na imprensa – principalmente na de cá – e já incomoda mais do que contribui. Afinal, os jogadores se conhecem e costumam se encontrar nos clubes pela Europa – alguns até são amigos.

Enquanto do lado de lá informam mais e julgam menos, aqui a imprensa parece querer estimular uma antiga rivalidade com muito “disse-que-disse” – e tem gente que acredita em tudo o que vê na telinha. Que vejam a partida e que seja um bom jogo! Porque o extra-campo que é noticiado “tá chato” mesmo.

quinta-feira, agosto 13, 2009

Covardia

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

De tempos em tempos, hábitos costumeiros são suplantados por outros nem sonhados outrora. Ao menos dois deles de minha época de moleque hoje soam quase que absurdos: não comprávamos água mineral para beber em casa e não pagávamos para jogar futebol.

Não que a água da torneira fosse muito mais limpa há 20 anos do que é hoje. Por certo a paranóia que nos assola atualmente não era tanta. Nós tínhamos era medo do russo que guardava o botão da Bomba H e das ogivas nucleares americanas prontas para voarem sobre o planeta. Eram medos distantes do nosso mundinho sem celular e internet, eram temores de quem ainda se recuperava do resfriado da Guerra Fria.

A água, bebíamos de duas maneiras: em casa, nos filtros de barro, e na rua, na torneira, diretamente com a boca ou com as mãos imundas em forma de concha. Esta segunda modalidade de ingestão da água era muito comum após os jogos de futebol nos terrenos baldios.

As crianças de hoje jogam futebol duas vezes por semana, supervisionadas por um professor, em um campo de gramado sintético, com uniforme completo, e com hora marcada para terminar a partida, acham que são mais felizes do que nós, que dividíamos os times em com camisa e sem camisa, jogávamos descalços e gramado era pasto pra cavalo. Pobres coitados.

Os nossos campos eram de chão batido, a grama era rala e rara, a duração da partida era determinada pela luz do sol, não pagávamos para jogar e durante o horário de verão as partidas aconteciam todos os dias depois da escola dos que estudavam a tarde.

O bairro Santo Antônio de Pádua, em Tubarão, ao Sul de Santa Catarina, aonde cresci, era rico em terrenos baldios transformados em campinhos de futebol. Nenhum deles possuía qualquer estrutura. Alambrado, marcação com cal, traves, isso era um luxo para os profissionais. A lateral e a linha de fundo eram fronteiras invisíveis e bandeiras e juizes eram os próprios jogadores. Praticamente não exista falta.

Também não existam goleiros (talvez por isso o Brasil fosse tão carente nesta posição). Jogávamos com duas travinhas pequenas, com o perdão da redundância. A regra mais importante e a mais difícil de ser cumprida era a do zagueiro que ficava plantado na travinha. Não existia impedimento. Era normal que os piores jogadores de cada time fossem colocados ou na banheira (ataque) ou na defesa. Para o defensor valia mais a artimanha de ludibriar os outros e disfarçadamente se postar entre os tijolos, chinelos, paus ou pedras, que geralmente faziam o papel de traves.

Nos jogos em que eu participava, emprestava duas traves de ferro (por sinal, só jogava mesmo porque era o dono das traves e normalmente era o atacante ou o zagueiro). Com as traves de ferro o papel do defensor era ainda mais fácil: bastava sentar-se no travessão.

De todo modo os adversários alertavam para a prática ilegal. Riscávamos no chão uma área que limitava o recuo do defensor, mas num ataque eram comuns uns passinhos indevidos para trás. Briga na certa! Ou o atacante se queimava e metia um bago nos bagos do zagueiro ou soltava um pombo sem asas e a bola perdia-se no terreno de um vizinho.

Era um drama quando se enfrentava um time com um plantado na travinha. Não havia meio de fazer um gol. Ou melhor, havia: chutávamos a bola nas mãos do zagueiro desgraçado a procura de um pênalti.

Para a cobrança da penalidade, por sinal, armávamos mais brigas. A primeira para definir a forma de cobrança. Eram duas escolhas: do meio do campo, sem o defensor, ou de cinco passos de distância da meta, com o zagueiro de lado. Se a segunda era escolhida era difícil o “goleiro” ficar parado.

Podia perguntar na época se algum atacante sonhava em um dia eliminar o zagueiro plantado na travinha. Todos iriam dizer que sim.

Hoje, no futebol, depois de ter sido banida, a paradinha (quando o jogador faz que vai, não vai e depois vai) na cobrança de pênaltis voltou. Em matéria de penalidades duas coisas me chamam a atenção: jogador canhoto (hoje é o dia mundial do canhoto) raramente converte seu tento e um goleiro jamais defende um pênalti cobrado com a famigerada paradinha.

No meu tempo o zagueirão plantado na trave era o pesadelo do atacante. Uma covardia! Agora é o atacante que vai a forra em cima do goleiro com a paradinha, um verdadeiro crime consentido pela regra.

Sinais do tempo em que muitos outros crimes de toda ordem são cometidos sem que os responsáveis sejam punidos. Vide os escândalos políticos e futebolísticos...

quarta-feira, agosto 12, 2009

Sentado nas próprias mãos

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Tenho uma família materna grande. Minha mãe tem 15 irmãos! Meu saudoso avô Adolfo era um bugre com mistura portuguesa e minha avó Edite uma lusitana nata. É gente que gosta de se encontrar. Adora abraços, beijos e festas. As despedidas são longas e calorosas. Os reencontros marcados por braços estendidos ao máximo.

O Souza que herdei no nome e o Fernandes que carrego apenas no sangue não foram tão fortes para moldar parte importante de meu caráter quanto meu lado italiano Daniel, Favarin e Castelan. Ao contrário da parte materna, sempre fui introspectivo, com uma timidez acentuada e exagerada na infância.

Fugia dos afagos das tias e das primas mais velhas como o cavalo indomado foge da sela. Assim como as alcunhas pegam naqueles que a detestam, elas beijavam-me com muito mais afinco. Na sinceridade infantil, eu limpava o rosto da marca dos batons.

Os primeiros verões de minha vida foram na casa desses meus avôs, no Balneário Arroio do Silva, no extremo Sul de Santa Catarina. A residência ficava à beira-mar, separada pelo oceano pela faixa de areia da praia. A entrada era por trás e se chegava até ela após vencer um labirinto de ruas iguais umas às outras. Meu pai costumeiramente se perdia e a culpa caia para cima de minha pobre mãe, que com a paciência típica de sua família, ouvia calada os impropérios do seu Hugo.

A casa, de madeira, era recheada de quartos, beliches e sofás. Todos da família passavam ao menos alguns dias do verão ali. Nem os corredores escapavam da tarefa de servir de dormitório, com cortinas fazendo o papel de paredes e portas. Meu pai nos deixava lá – eu, minha irmã e minha mãe – e voltava para Tubarão. Alguém, desde que o mundo é mundo, tem que trabalhar para os outros vadiarem.

Dentro de casa eu era calado como uma pedra. Distraia-me apenas na rua, brincando com os primos e vizinhos e derretendo-me como todos os outros por uma vizinha uns dez anos mais velha. Guardo ainda na memória e no balcão da estante de minha biblioteca quatro dinossauros com peças de madeira imitando ossos, comprados em Arroio do Silva. Lembro também de um tombo. Dava uma de equilibrista até ser atrapalhado por uma corda de varal e cair de perna aberta no muro de salpico. Ralei do joelho à altura da virilha.

Com a minha extrema timidez criei algumas características peculiares. Uma delas era minha concentração com meus bonecos de Comandos em Ação. Brincava por horas a fio com os pensamentos em outro mundo. A outra marca lembrada até hoje nos traumatizantes e enormes encontros de família era a minha forma de sentar no sofá em minhas próprias mãos.

Curiosamente, já no carro a caminho de casa, sofria uma metamorfose e tornava-me outra criança. Tagarelava o tempo todo e contava tudo o que tinha acontecido naqueles dias.

Em tempo, no dicionário, um tímido é aquele “que tem temor; assustado, medroso, receoso, sem coragem. Que não tem desembaraço; acanhado. Incerto, débil, dúbio, fraco". Timidez no “mata-burro” é “acanhamento excessivo, fraqueza de ânimo".

Era pra ser com alegria, mas é com profundo desconforto que descobri que o meu Grêmio no Campeonato Brasileiro deste ano tem algo incrivelmente em comum com a minha infância: é desesperadamente tímido.

Se em casa o time é imbatível – dois empates e sete vitórias – fora, os números são um antônimo desanimador: dois empates e sete derrotas. O Grêmio precisa procurar um psicólogo para perder essa timidez.

O Tricolor Gaúcho tem dois caminhos: ou se torna mais solto fora de casa para almejar uma recompensa no campeonato ou segue sentado nas próprias mãos, assistindo introspectivo os outros jogarem futebol.

No domingo, o Grêmio recebe o Flamengo, em Porto Alegre.

segunda-feira, agosto 10, 2009

Quitandas e a volta aos tempos românticos

*Thiago Schwartz | www.twitter.com/perereco

Há mais ou menos dois meses, abriu na esquina da rua de casa uma quitanda. Sim, uma quitanda.

Um espaço bastante restrito, onde disputavam espaço as verduras, as frutas, os legumes, as garrafas de melado, a água, os mantimentos e o carvão. Basicamente isso. E um balcão, cheio de balas, que faz sucesso entre a garotada ali do bairro. As frutas, mirradas, não têm condição de fazer frente às grandes e bonitas frutas do supermercado. Mas todas carregam uma espécie de orgulho, próprio daqueles que se recusam a fazer parte disso tudo, em nome da tradição da quitanda.

Por volta das 18 horas, o dono da quitanda coloca algumas mesas de plástico na varandinha, para receber os senhores que estão por vir. É a transfiguração da quitanda. Senhores de meia-idade – alguns já na terceira – iniciam uma procissão casa-boteco e, uma vez lá, tem início o ritual sagrado, realizado diariamente: Pedem um aperitivo (quase sempre amendoim, por ser mais barato), uma cerveja, e começam a discutir os assuntos mais importantes do cotidiano.

Futebol, coisas do passado e futebol do passado. Quase sempre a conversa gira em torno disso. Sobre como os tempos antigos eram melhores que os de agora. É fácil ver lágrimas nos olhos de um senhor ao falar dos tempos de FerroLuz. Aquilo sim era clássico, não o Flamengo x Corinthians sofrível que passou na televisão domingo.

A quitanda que abriu na esquina da minha rua é uma espécie de portal. A vontade das pessoas que frequentam a quitanda fez com que o tempo lá corresse numa velocidade diferente do resto do mundo. Os rostos envelhecem, os corpos minguam, as línguas tropeçam – algumas por força do excesso –, mas o romance dos tempos idos, tão bem lembrados por Cartola, continua lá, somente à espera de alguém que o reviva.

sábado, agosto 08, 2009

Envelhecemos, Ronaldo

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Foi em Brusque, cidade catarinense localizada no Vale do Itajaí, distante 218 quilômetros da minha Tubarão, ao Sul do Estado, durante uma curta viagem a serviço, que eu tive a inadiável constatação: estou ficando velho.

Eram os primeiros meses do ano e aquele sol de verão contra meu rosto que refletia no espelho do banheiro de um shopping me pregou uma peça:

– Quem plantou estes pinheiros cobertos de neve em minhas frontes? Quantos cabelos brancos!

Embora este início pareça um fútil comercial de pintura capilar, o assunto é mais sério e acredite: se você não passou, vai passar por isso.

Sempre achei que eu aparentava ter menos idade do que registra impiedosamente meus documentos. Aquela descoberta que me fez conferir por mais duas vezes cada lado da minha grande cabeça, mostrou que a natureza veio cobrar rápido o que demorou pra exigir antes.

Aos trinta anos, parece que a areia da ampulheta se tornou mais fina.

De lá para cá foram dois ouvidos inflamados (coisa que nunca tive), uma micro-cirurgia para retirada de um cisto-sebáceo com biopsia (quadro histopatológico compatível com epitelioma calcificante de malherbe (pilomatrima)), uma suspeita de infarto com um eletrocardiograma (distúrbio da condução em ramo direito e alteração da repolarização ventricular em parede inferior), uma ressonância magnética, que detectou um início de hérnia de disco (sinais de degeneração no disco de D10-D11, com desidratação; abaulamento de redução de altura e degeneração gordurosa focal no corpo vertebral de L2). Sem contabilizar um tratamento contra minha fiel acompanhante enxaqueca, que se estende por mais de um ano e deve se prolongar por meses infindáveis.

Como de costume e por não restar outra alternativa, escrevo a noite, antes de dormir. Logo a dor nas costas vai me tirar da cama antes do despertador tocar. Coisa de velho.

Quando menos esperamos, lê-se nos obituários e nas notícias de jornais, sobre a morte de gente com uma idade próxima da nossa, sem que isso provoque comoção. Começamos a ser atendidos por médicos da nossa faixa etária, sem que nos admiremos com a sua precocidade.

Ainda lembro quando o Ronaldo, ainda Ronaldinho, mais dentuço, muito mais magrinho, apareceu no Cruzeiro. O primeiro craque que, com apenas dois anos há mais que eu, vi arrebentar. Eu tinha 15 e ele 17.

Quem com pelo menos 30 anos não lembra quando Ronaldinho aproveitou o descuido do experiente goleiro Rodolfo Rodrigues, do Bahia, e numa travessura com requinte de gênio, escondeu-se atrás do arqueiro, que ajoelhado de frente para a trave, largou a bola? Milésimos de segundos foram necessários para o menino dar um toque na gorduchinha e marcar uns dos cinco naquela vitória do Cruzeiro.

Depois veio a Europa no PSV Eindhoven, Barcelona, Internazionale, Real Madrid e Milan, até o retorno ao Brasil no Corinthians. Sem contar as Copas do Mundo, de 94, que não entrou em campo, de 98 que teve problemas na final, a de 2002 que brilhou e a de 2006, apagado como todo o resto da Seleção Brasileira.

Todos aqueles bons momentos passaram. Ronaldo está ficando velho e me levando junto (no bom sentido).

Ronaldo já passou por quatro cirurgias nos joelhos e mais recentemente implantou placas nos metacarpos e 12 pinos na mão esquerda para corrigir uma fratura. Aproveitou e já retirou 700 mililitros de gordura da região da barriga (semelhante a minha) em uma lipoaspiração.

Quando os meninos que se tornam heróis ao mesmo tempo em que ganhamos os primeiros pelos de barba, envelhecem, é sinal de que não somos tão imortais quanto acreditávamos que fôssemos.

sexta-feira, julho 03, 2009

Um pensador no calçadão

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

De repente a estátua se mexeu. Ajeitou sua túnica, que assim como todo o resto em seu corpo, está pintada de cinza e desceu do banquinho. Apanhou a caixa de sapatos que utiliza como ofertório, guardou as poucas moedas e cuidadosamente contou alguns trocados em cédulas amassadas.

Deu alguns passos diante dos olhos perplexos de algumas pobres crianças e foi ao bar do calçadão. Também tinha o direito de se refrescar à sombra. Suava às bicas. Pediu uma cerveja. Pagou com um orgulho mal disfarçado. O dinheiro era dele. Trabalhou por ele. Que importa se umas velhas carolas passavam e lhe lançavam olhares raivosos?

Entre o zunzunzum da lanchonete, a estátua maltrapilha conseguiu se concentrar na TV enquanto tomava sem pressa sua cerveja barata.

Viu, sem demonstrar surpresa, o presidente Lula receber a visita do capitão da Seleção Brasileira campeão da Copa das Confederações, depois de já ter pedido pessoalmente a presença do Corinthians, campeão da Copa do Brasil, na Capital Federal.

— É bom brincar de dono do mundo – matutou a estátua (que não era a obra prima de Auguste Rodin), mas também pensava.

Terminou o seu refresco em goles lentos no intervalo vespertino, limpou um bigode de cerveja que se formou acima da boca, retocou a maquiagem e voltou para seu banquinho.

Enquanto se esforçava para manter o equilíbrio e a postura, seguiu com seus botões, cada vez mais introspectivo:

— O engraçado é que nos anos da ditadura essa mesma turma que agora recebe jogador de futebol e a Seleção Brasileira, deve ter torcido contra a esquadra nacional na Copa do Mundo de 1970 e malhado de alienado quem torcia a favor do Brasil.

E a estátua indaga:

— Que militante de esquerda não torcia o nariz diante da propaganda que os milicos faziam com o ufanismo causado pelo sucesso do futebol aqui na Terra de Vera Cruz? É verdade que mesmo entre os mais radicais, aquela Copa serviu de anestésico e quer queira, quer não queira, assoviavam o “90 milhões em ação, pra frente Brasil, salve a Seleção”, enquanto se arrepiavam ao ouvir a Internacional Comunista.

Quando os pensamentos da estátua estavam prestes a desaparecer feito nuvem passageira, um transeunte com a camisa do Corinthians, aparentando ser mais miserável que ele próprio, deixou umas moedas na caixinha e despertou um último suspiro no solitário artista:

— Enquanto o Lula recebe jogadores de futebol ele não deu nem uma passadinha na Flip. Aliás, ele sabe que está acontecendo? Sabe o que é? Precisa avisar que é Flip e não Felipe, o goleiro do seu Corinthians...
 

CONTATO
Colaboradores Ana Carla Teixeira, Anderson Paes, Camila Rufine, Carlos Karan, Deyse Zarichta, Eduardo Daniel, Emanuela Silva, Emanuelle Querino,
Emmanuel Carvalho, Fabiano Bordignon, Fabrício Espíndola, Francine de Mattos, Gabriel Guedes, Germaá Oliveira, Guilherme Marcon, Isabel Cunha, Kellen Baesso, Manuela Prá, Patrícia Martins, Thiago Antunes, Thiago Schwartz, Tiago Tavares, Valter Ziantoni,Van Luchiari, Vanessa Feltrin, Vitor S. Castelo Branco, Viviany Pfleger

©2010 GeloEmMarte.com Todos os direitos reservados. As opiniões aqui expressas são de responsabilidade de seus respectivos autores.