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Destaque Quitandas e a volta aos tempos românticos Thiago Schwartz


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quarta-feira, agosto 05, 2009

Uma fatia de pizza e uma Coca de garrafinha

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel

Meu paladar infantil guarda na memória um sabor inigualável: a pizza do antigo Angeloni, na margem direita, em Tubarão, no Sul de Santa Catarina. A rede de supermercados fundada na vizinha Criciúma abriu esta filial no dia 24 de agosto de 1972. Atualmente no local da loja existe um grande terreno vazio.

É muito viva a lembrança do mercado, antes de sua reforma que tirou o traçado original. Um grande pátio servia de estacionamento a céu aberto. O nome ficava acima da fachada, gravado em oito quadrados de pedra. Pequenas palmeiras nos recebiam na rampa e escada que convergiam para a porta principal.

Para chegarmos à lanchonete, pegávamos à esquerda. O ambiente em forma de meia lua deixava os clientes de costas para o corredor que fazia fronteira com as janelas, que abriam para fora, na vertical. O balcão acompanhava o formato arredondado e as banquetas davam o ar característico dos anos 80. Quem assistiu ao De Volta para o Futuro 1 que se imagine naquela lanchonete para pensar na do Angeloni.

A pizza era vendida em fatias e assim como tudo o que era pedido ali, era repassado pelo atendente para a cozinha, que também com as paredes seguindo o formato da lanchonete, ficava atrás, entrecortada por meia dúzia de pequenas janelas.

Ir com meu pai comer uma fatia de pizza era quase que um ato religioso. Não existia outra escolha: mussarela e uma Coca-Cola, de vidro, que são as melhores. Para mim nunca mais assaram uma pizza como aquela. A massa bem sequinha, o recheio caprichado. A temperatura ideal e a Coca bem gelada.

Colocando aquele mundo e o de hoje frente a frente, é possível entender a escassez de variedades como o motivo principal de minha fixação por aquela pizza. No meu reduzido universo só existia aquela.

E o mundo era muito melhor apenas com aquela fatia de pizza de mussarela e uma garrafinha de Coca-Cola.

Hoje em cada esquina se vê uma pizzaria. E o que é mais escandaloso em matéria de fartura: são rodízios! O sujeito se esbalda até não poder mais. Além dos sabores tradicionais os pizzaiolos criam e recriam novas composições. E a comodidade de uma pizza em casa, com uma Coca-Cola, pasmem, de três litros?

Dá saudades daquela simplicidade, daquela necessidade. Hoje ao sentar descompromissado para encarar a tela em branco do programa de texto, depois de visitar o endereço eletrônico de um conglomerado das comunicações, um título, infelizmente esperado, salta aos olhos:

“Presidente do Conselho de Ética arquiva ações contra Sarney e Renan” e segue com uma linha de apoio: “Paulo Duque (PMDB-RJ) alegou falta de evidências para abrir investigação. Presidente do Senado ainda responde a outras sete medidas no colegiado”.

Como se vê, os políticos também se esbaldam com a oferta gigantesca de pizza e as novidades da pizzaria mais famosa do Brasil começaram a sair do forno nesta quarta-feira.

Bom apetite e uma bela indigestão!

quinta-feira, julho 30, 2009

As tetas do senador

*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel


Detalhe da Lupa Capitolina, loba que supostamente
amamentou Rômulo e Remo


As figuras de túnicas, togas e chinelos retratadas nos filmes épicos sobre o Império Romano, nos permitem uma transmutação ao, em latim, senatus. O senado mater, que teve como origem os conselhos dos anciões, é a mais antiga assembléia política de Roma. A etimologia da palavra senado tem na genética o termo senex, que significa: velho, idoso.

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Enéas foge da Guerra de Tróia e vai matar sua sede por mulheres desposando a filha do rei do Lácio. Desta investida nasce Ascânio, fundador de Alba Longa. Anos mais tarde, é seu filho, Numitor, quem reina no império até ser deposto pelo irmão Amúlio.

Amúlio obriga a princesa Réia Sílvia a tornar-se uma Vestal (sacerdotisa virgem) e a fazer o voto de castidade. Enamorada de alguém ao qual a mitologia romana suspeitosamente chama de deus Marte, Réia Sílvia comete um decoro e quebra os votos virginais.

Deste ato secreto e sacana nascem os gêmeos Rômulo e Remo. O rei Amúlio, possesso, ordena a morte dos pequenos italianinhos, mas o servo destinado ao sacrifício tem pena das crianças e antecipando algum conto de fadas moderno, as lança nas águas do Rio Tibre. Entre os montes Palatino e Capitolino, nas margens do Rio Velabro, a cesta com os irmãos é encontrada.

Ao contrário do que nos ensina a história maquiada, é provavelmente uma prostituta e não uma loba que amamenta Rômulo e Remo. Na época, as donas da profissão mais antiga da humanidade eram chamadas de lupa, expressão retirada de lupanar (bordel). É possível, portanto, que tenha sido uma meretriz a oferecer suas tetas fartas para os irmãos se locupletarem. Curiosamente, o nome da estátua da loba com Rômulo e Remo é Lupa Capitolina.

Depois desta calorosa e tentadora acolhida, o pastor Fáustulo os encontra e junto com a esposa Aca Larência cria Rômulo e Remo como filhos.

Quando os gêmeos descobrem a nobre origem, retornam a Alba Longa, matam Amúlio e devolvem o trono ao avô Numitor. No local, os irmãos decidem fundar outra cidade. Após uma disputa terrível, Rômulo derrota Remo e batiza de Roma, uma corruptela do seu próprio nome, a capital da Itália.

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Cerca de três milênios se passaram, mas os velhinhos e vovôs continuam com a política patriarcal no senado brasileiro, tal como era nos primórdios romanos.

Cerca de três mil anos depois, tem um senador imortal, dono de muitas tetas e protetor de muitos Rômulos e Remos, acusado de desviar recursos, empregar protegidos e parentes, que batiza ruas, cidades, hospitais, praças, etc, com o seu sobrenome, imune e tranquilo em um Estado nordestino aonde sua família milionária é dona de quase tudo e a unidade federativa é a líder nacional em subdesenvolvimento.

Coincidentemente, a pizza tão apreciada ao final de toda CPI (Calabresa, Portuguesa, Italiana, como diria Zé Simão), é outra herança marcante que os habitantes da “velha bota” trouxeram para o paraíso subequatorial.
 

CONTATO
Colaboradores Ana Carla Teixeira, Anderson Paes, Camila Rufine, Carlos Karan, Deyse Zarichta, Eduardo Daniel, Emanuela Silva, Emanuelle Querino,
Emmanuel Carvalho, Fabiano Bordignon, Fabrício Espíndola, Francine de Mattos, Gabriel Guedes, Germaá Oliveira, Guilherme Marcon, Isabel Cunha, Kellen Baesso, Manuela Prá, Patrícia Martins, Thiago Antunes, Thiago Schwartz, Tiago Tavares, Valter Ziantoni,Van Luchiari, Vanessa Feltrin, Vitor S. Castelo Branco, Viviany Pfleger

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