*Emanuelle Querino | www.twitter.com/manuquerino
Querido Papai Noel,
acho que cresci. Mas mesmo assim tenho vontade de conversar com o Senhor. Essa, acredito, é minha primeira carta, conscientemente escrita, sabendo que não será para um concurso de cartas para o Papai Noel. Então peço que leia até o final porque em cada linha tem um pedacinho de mim e da minha história, além do(s) meu(s) pedido(s), é claro. Como fui uma boa moça, passei de ano na faculdade e respeitei meus coleguinhas, resolvi escrever.
Eu não lembro de acreditar no Sr., mas acreditava cegamente no Coelhinho da Páscoa (ele deixou um ovo de chocolate, daqueles com brinquedo, junto com o meu coelho de pelúcia rosa, como não acreditar?). Acho que minha mãe sempre me explicou que o verdadeiro sentido do Natal era o nascimento de Jesus e que o bom velhinho era bem novo, não tinha cabelos brancos e trabalhava como eletricista, numa indústria de cerâmica. Era casado com uma professora de primário de escola pública e eles tinham uma filha: eu.
Mas mesmo assim gostaria de conversar. Lembro de um Natal em que cada parente me deu alguma coisa da Barbie. Eu não ganhava sempre o que eu queria, mas sempre ficava muito feliz com o que ganhava. Parecia um sonho: camping, cristaleira, guarda roupas, trailer, banheiro/academia, piscina. Pra mim eu tinha tudo da Barbie. Eu estava tão feliz que a memória disso está viva até hoje.
Fui crescendo, aprendi que era feio não dizer obrigada ao ganhar um presente. Inconscientemente, criei o hábito de sempre dizer, com um sorriso (sincero, ok?) de orelha a orelha: “Obrigada! Eu estava precisando...” Eu falei isso tantas vezes durante meus 19 anos de vida, que quando minha madrinha me dá alguma coisa ela pergunta se eu estava precisando.
Minha infância
Nessa vida já ganhei Barbie noiva, que tinha um cabelo que não dava pra pentear por causa do glitter; Barbie ginasta, que não usava os sapatinhos de salto porque os pés eram chatos pra entrar no tênis; Barbie grávida (que tinha o cabelo verde); um Ken, apenas um, loiro de olhos azuis, por qual todas as anteriores eram apaixonadas.
A história, dá pra imaginar. Ken rejeita Barbie ginasta, porque ela não usa salto (acho que por isso não vivo sem meus saltos), para se casar com... Barbie noiva! E no casamento aparece a... Barbie grávida! Sim. Eu assistia novelas mexicanas. Mas esses detalhes são só para que o Sr. faça alguns ajustes nos detalhes desse tipo de brinquedo. Influenciou muito na minha vida e personalidade e imagino que na de milhões de crianças pelo mundo também.
Nunca tive uma Barbie morena como eu, mas sei que hoje elas já existem. Minha última foi a Top Model (do vestido curto que ficava comprido) e eu nunca tive jeito pra ser modelo. Sabe aquelas coisas de projeção que estudei em Psicologia da comunicação? Acho que foi mais ou menos isso.
Aproveito para reclamar sobre sua falta de comunicação com Deus. Isso mesmo. No ano em que ganhei uma piscina de 3 mil litros no Natal, “fico moçinha” um dia depois. Caramba! Não deu pra aproveitar nada até o fim daquela semana, incluindo meu aniversário, no dia 29. Podiam, ao menos, ter mandado algo seco. Porém, no ano passado, acertaram em cheio, analisaram meu momento e me deram uma filmadora, meu sonho de criança, que meu Papai Noel, hoje já grisalho, conseguiu trazer em suaves prestações.
Meu pedido
Esse ano eu podia pedir um namorado, uma bateria mais durável pra filmadora, uns quilos a menos, uma ideia de tema para os meus projetos de rádio, tv e jornal e pra monografia, além, é claro de paz para toda a humanidade e a saciedade da fome dos necessitados. Tudo muito nobre. Então, achei que podia juntar os pedidos “namorado” e “quilos a menos” em um palpável aparelho de ginástica 3 em 1, que ta passando aí na TV, com um ex jogador de vôlei de garoto propaganda.
Que fique bem esclarecido que não quero ficar loira que nem a Barbie, amo ser morena, mas uma enxugada ia bem. Ah, e esqueci de dizer que só não pedi livros de presente porque peguei 10 na biblioteca da faculdade, comprei dois (sim, saí do castigo de não poder comprar livros, no qual entrei depois de gastar muito com este item da cesta básica) e acho que vou ganhar aquele do William Bonner – de um parente aí – de Natal e aniversário. Dois em um. Uma beleza, quando vale a pena.
Chamei minha Mamãe Noel pra ver o preço do aparelho de ginástica e achamos que o Papai Noel não vai poder trazer esse, nem em suaves prestações. Então, acho que terei meu primeiro Natal como adulta. Pedi, com toda a sinceridade do meu coração, que simplesmente assumissem uma determinada conta em conjunto com a minha mãe, que fiz há pouco tempo.
Assim, não precisam se preocupar com um presente especial (apesar de eu já saber que minha mãe comprou “duas coisinhas” como diz ela) e eu tiro o peso da consciência de não poder dividir o peso das parcelas, pelo meu atual desemprego. Coisa de pobre? Pode até ser, mas nada do que eu disse ali em cima, que quero, eles podem me dar (especialmente o namorado).
Minha mãe veio com aquela história que não vai cobrar de mim, e blá, blá, blá. Meu pai já trouxe a opção de um aparelho de ginástica mais simples, mais barato e eu disse que tudo bem. Afinal, está tudo bem. Não tem nada material que vá encher meu coração de alegria, como quando vejo minha família reunida e feliz.
Se o Sr. pode me dar presentes imateriais, então eu peço saúde para ela. Que ninguém precise ser hospitalizado no próximo ano e não sofra nenhum acidente. Que diminua o número de remédios da mamãe e o número do colesterol do papai. Que vovó, mãe de papai, continue forte e que o vovô, que já foi pro céu há 45 anos continue cuidando de nós. E também para os avós, pai e mãe de mamãe, recebam essa saúde, porque eles precisam muito.
Se essa foi minha primeira carta, agora o Sr. me conhece. Fui uma criança feliz sem o seu mito e cresci com o sentido religioso do feriado mais lucrativo do ano. Mas se o Sr. estiver lendo essa cartinha (escolhi a Internet porque todo mundo usa e o Sr. também, né?) peço que desculpe minha descrença e que me atenda em ao menos um dos pedidos.
Fica a seu critério.
Com carinho,
Emanuelle Querino
P.S.: Também vou ficar feliz se o Sr. mandar o namorado...
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terça-feira, dezembro 15, 2009
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