Anderson Paes | www.twitter.com/andersonpaes
No último domingo (28) o site Wikileaks revelou informações confidenciais trocadas entre embaixadas e o governo dos Estados Unidos. O que deixou muita gente mal na foto e gerou um clima constrangedor para outros – principalmente para os americanos.
O Irã se viu cercado de gente que finge não querer uma intervenção militar ou invasão, quando na verdade muitos pedem por isso.
A China, até então grande aliado da Coreia do Norte, cogita a união da península coreana com ventos que sopram do Sul.
Do Brasil falam de um jogo duplo, de um jeitinho diante do terrorismo para não prejudicar a imagem do país – eis o interesse nacional? Até de uma chamada "paranoia" que envolve Amazônia e ONGs.
Mas o caso todo vai além da diplomacia e da "fofoca internacional", como alguns já dizem que se tornou.
O responsável pelo Wikileaks, Julian Assange, é agora procurado pela Interpol por um suposto crime cometido na Suécia. O site tem sido atacado constantemente e ora até fica offline. Há até quem peça o assassinato de Assange.
No fim parece que estão a escrever o roteiro de um filme, ironicamente americano, com toques de "Inimigo do Estado" (1998). Com tantos segredos por vazar, todos são capazes de tudo – o que também pode vir à luz futuramente. Como alguém disse certa vez: segredo entre três, só com os outros dois mortos.
• • •
"Não consideres que valha a pena proceder escondendo evidências, pois as evidências inevitavelmente virão à luz" (Bertrand Russell)
Das revelações do Wikileaks até hoje, uma das que mais chamaram a atenção foi o vídeo onde jornalistas são assassinados por militares na guerra do Iraque.
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quarta-feira, dezembro 01, 2010
quinta-feira, março 25, 2010
Qual novela você prefere?
*Fabrício Espíndola | www.twitter.com/xompi
Ao ver esse título, muitos intelectuais já nem lerão o que estará escrito abaixo, afinal, diriam estes: “o que eu quero saber de novela? Não assisto, não gosto, tenho vergonha de dizer o nome de um personagem, ou alguma trama que esteja em exibição hoje, então não lerei isso.”
Mas quem ler tudo, até o fim, entenderá que quero dizer. Vamos à contextualização:
Qual assunto está mais em evidência hoje na editoria (isso pra usar termo jornalístico) de polícia? Caso Isabella Nardoni, não? Por quê?
Como em uma novela, o caso da menina assassinada no início de 2008, brutalmente, pelo pai e pela madrasta está constantemente na TV. Tem um vilão, ou melhor, dois. Tem a mocinha, Ana Carolina, mãe da menina, e tem, claro, a personagem que todo mundo se apaixonou após morta, ao ver relatos de como era dócil, meiga e feliz com sua mãe.
Repórteres e telejornais fizeram o que faria um Manoel Carlos da vida (com a diferença que teria uma Helena junto), elegeram logo os vilões, sem a imparcialidade que pedia a faculdade. Também, em um caso destes, com tantas evidências, tem como ser imparcial?
Assim, o público começou a assistir o Jornal Nacional, com a mesma intensidade que assiste ao programa que vem antes, ou o a seguir, ou o das 14h, ou então o das 18h. Hoje, o julgamento faz o caso voltar à tona, após um esquecimento, claro, nenhuma novela dura para sempre, mas sempre tem seu Vale a Pena Ver de Novo. E todos estão atraídos, até intelectuais que, dessa novela, não têm vergonha ao admitir que assistem.
E na editoria de política? Opa, caso Arruda. Aliás, o ex-governador do Distrito Federal, ex-DEM, ainda DEMO, deve estar agradecido à família Nardoni, que tirou o foco de sua cassação e sua prisão. Pois é, mais um vilão, alguns heróis, daqueles de filme americano que faz justiça num país que quase não tem isso e lá se vão comentários do tipo “quem matou Odete Roitman?” ao questionarem quando ele ganharia soltura? Ainda não ganhou, mas a novela virou uma daqueles com robô falante, em segundo plano, sem muita atenção dos telespectadores, afinal, tem os Nardonis nas oito.
No esporte também tem novela, mas essa um pouco mais masculina, discutida esporadicamente, talvez como um filme da Sessão da Tarde que é visto uma vez por mês, não assim como aqueeela novela. Mas o fim, só em maio, no dia da convocação pra Copa. Claro, estou falando do Ronaldinho Gaúcho e sua novela em que faz um casal que vive de amor e brigas com seu par romântico, o teimoso Dunga.
Poderia ficar aqui citando várias outras novelas, como os terremotos, tsunamis, enfim, tudo que tem certa sequência, que gera dúvida e causa indignação de falsos moralistas. A propósito, autores de novelas devem estar em pânico, afinal, jornalistas hoje são muito bem treinados para fazer de notícias grandes novelas da humanidade, “dignas” do prêmio “Melhores do Ano”, no Domingão do Faustão.
É assim que estamos sendo tratados hoje, como telespectadores de novela. Se não for novela, não tem a mínima graça, se não tiver sequência, deixe a notícia de lado que não atraiu e não traz audiências. E você, de que novela gosta? A das 18h, a das 19h, a das 21h? Ou prefere as dos intervalos, nos programas de Jornalismo? Quem sabe você desliga sua TV nos momentos destas novelas, porque quer se informar a sua maneira, sem ter que torcer por personagem A, ou B e deixa pra religá-la na hora do BBB. Melhor não, né? Está difícil fugir desse controle midiático de hoje, então, vamos lá, ser atores da vida real, comandados por autores das mais variadas áreas, mas que fazem, de todos nós, noveleiros dos mais fanáticos!
Ao ver esse título, muitos intelectuais já nem lerão o que estará escrito abaixo, afinal, diriam estes: “o que eu quero saber de novela? Não assisto, não gosto, tenho vergonha de dizer o nome de um personagem, ou alguma trama que esteja em exibição hoje, então não lerei isso.”
Mas quem ler tudo, até o fim, entenderá que quero dizer. Vamos à contextualização:
Qual assunto está mais em evidência hoje na editoria (isso pra usar termo jornalístico) de polícia? Caso Isabella Nardoni, não? Por quê?
Como em uma novela, o caso da menina assassinada no início de 2008, brutalmente, pelo pai e pela madrasta está constantemente na TV. Tem um vilão, ou melhor, dois. Tem a mocinha, Ana Carolina, mãe da menina, e tem, claro, a personagem que todo mundo se apaixonou após morta, ao ver relatos de como era dócil, meiga e feliz com sua mãe.
Repórteres e telejornais fizeram o que faria um Manoel Carlos da vida (com a diferença que teria uma Helena junto), elegeram logo os vilões, sem a imparcialidade que pedia a faculdade. Também, em um caso destes, com tantas evidências, tem como ser imparcial?
Assim, o público começou a assistir o Jornal Nacional, com a mesma intensidade que assiste ao programa que vem antes, ou o a seguir, ou o das 14h, ou então o das 18h. Hoje, o julgamento faz o caso voltar à tona, após um esquecimento, claro, nenhuma novela dura para sempre, mas sempre tem seu Vale a Pena Ver de Novo. E todos estão atraídos, até intelectuais que, dessa novela, não têm vergonha ao admitir que assistem.
E na editoria de política? Opa, caso Arruda. Aliás, o ex-governador do Distrito Federal, ex-DEM, ainda DEMO, deve estar agradecido à família Nardoni, que tirou o foco de sua cassação e sua prisão. Pois é, mais um vilão, alguns heróis, daqueles de filme americano que faz justiça num país que quase não tem isso e lá se vão comentários do tipo “quem matou Odete Roitman?” ao questionarem quando ele ganharia soltura? Ainda não ganhou, mas a novela virou uma daqueles com robô falante, em segundo plano, sem muita atenção dos telespectadores, afinal, tem os Nardonis nas oito.
No esporte também tem novela, mas essa um pouco mais masculina, discutida esporadicamente, talvez como um filme da Sessão da Tarde que é visto uma vez por mês, não assim como aqueeela novela. Mas o fim, só em maio, no dia da convocação pra Copa. Claro, estou falando do Ronaldinho Gaúcho e sua novela em que faz um casal que vive de amor e brigas com seu par romântico, o teimoso Dunga.
Poderia ficar aqui citando várias outras novelas, como os terremotos, tsunamis, enfim, tudo que tem certa sequência, que gera dúvida e causa indignação de falsos moralistas. A propósito, autores de novelas devem estar em pânico, afinal, jornalistas hoje são muito bem treinados para fazer de notícias grandes novelas da humanidade, “dignas” do prêmio “Melhores do Ano”, no Domingão do Faustão.
É assim que estamos sendo tratados hoje, como telespectadores de novela. Se não for novela, não tem a mínima graça, se não tiver sequência, deixe a notícia de lado que não atraiu e não traz audiências. E você, de que novela gosta? A das 18h, a das 19h, a das 21h? Ou prefere as dos intervalos, nos programas de Jornalismo? Quem sabe você desliga sua TV nos momentos destas novelas, porque quer se informar a sua maneira, sem ter que torcer por personagem A, ou B e deixa pra religá-la na hora do BBB. Melhor não, né? Está difícil fugir desse controle midiático de hoje, então, vamos lá, ser atores da vida real, comandados por autores das mais variadas áreas, mas que fazem, de todos nós, noveleiros dos mais fanáticos!
domingo, novembro 01, 2009
A cultura do anunciante de cidade pequena
*Anderson Paes | www.twitter.com/andersonpaes
Existe nas cidades pequenas uma espécie de anúncio por indicação ou camaradagem. Boa parte dos anunciantes acabam fechando acordos comerciais no velho estilo “caderneta” do mercado da esquina. Há também grandes anunciantes que, apesar de terem agências de publicidade, acabam cedendo a todo tipo de mídia.
Mas a questão está na informação de qualidade – rara ou pouco acessível nessas cidades. Jornais semanários são produzidos aos montes em cidades menores – pode-se tirar um ou dois que publicam algo relevante; os demais, no maior espaço da edição, publicam releases de assessoria de políticos da região.
Já nos diários, a relação muda: publicam assuntos relevantes, mas são poucas as histórias que chamam a atenção no meio de tanta coisa noticiada. Aliás, a maior parte das coisas há tempos são apenas noticiadas. Poucas são as histórias que ganham uma narrativa, uma forma bem contada. E o profissional de jornalismo – quando profissional – às vezes se acomoda na pauta repetida, na cadeira e ao telefone; "muitas vezes por força do patrão", como disse um amigo jornalista.
O mesmo ocorre nas Rádios. Programas cheios de anúncios ou terceirizados. E onde o grande chamariz para o anunciante não é a audiência, mas a boa fala do apresentador – que quase sempre vende seus próprios anúncios. É um cargo bastante indefinido este de comunicador e vendedor de publicidade. Algumas TVs também oferecem espaço para anúncios e os produzem – aproveitando-se da cultura (ou falta de) dos anunciantes locais.
Observa-se que, sendo as coisas como são, os anunciantes de cidades pequenas não são muito exigentes – esperam apenas aparecer e certamente não tem controle do retorno de sua publicidade. No máximo possuem estimativas do alcance, de acordo com a tiragem do veículo impresso – que muitas vezes não condiz com a realidade.
E então podemos questionar: se um novo veículo, interessado numa publicação de bom conteúdo, surgisse numa cidade dessas, teria sucesso? É possível que venha a fracassar em pouco tempo. Pois entraria na disputa pelos mesmos anunciantes que já possuem um laço com seus veículos preferidos – difícil de ser quebrado –, e pouco se importam com os leitores destes veículos – preocupam-se mais com o preço do anúncio e a exibição de sua marca, da maneira que for.
É por este motivo que sempre existem anunciantes em revistas que publicam somente classificados e anúncios em geral – comum em cidades pequenas. É uma questão cultural que só se modificará com o acesso à informação de qualidade – e levará um certo tempo para que a população exija tal informação; assim como também levará tempo para que os anunciantes percebam as exigências do público e então escolham anunciar em veículos de qualidade.
No momento, na maioria dessas cidades, a informação vale menos que o espaço, o nome da empresa de comunicação, e a influência das pessoas que fazem a grande imprensa de uma pequena cidade.
Existe nas cidades pequenas uma espécie de anúncio por indicação ou camaradagem. Boa parte dos anunciantes acabam fechando acordos comerciais no velho estilo “caderneta” do mercado da esquina. Há também grandes anunciantes que, apesar de terem agências de publicidade, acabam cedendo a todo tipo de mídia.
Mas a questão está na informação de qualidade – rara ou pouco acessível nessas cidades. Jornais semanários são produzidos aos montes em cidades menores – pode-se tirar um ou dois que publicam algo relevante; os demais, no maior espaço da edição, publicam releases de assessoria de políticos da região.
Já nos diários, a relação muda: publicam assuntos relevantes, mas são poucas as histórias que chamam a atenção no meio de tanta coisa noticiada. Aliás, a maior parte das coisas há tempos são apenas noticiadas. Poucas são as histórias que ganham uma narrativa, uma forma bem contada. E o profissional de jornalismo – quando profissional – às vezes se acomoda na pauta repetida, na cadeira e ao telefone; "muitas vezes por força do patrão", como disse um amigo jornalista.
O mesmo ocorre nas Rádios. Programas cheios de anúncios ou terceirizados. E onde o grande chamariz para o anunciante não é a audiência, mas a boa fala do apresentador – que quase sempre vende seus próprios anúncios. É um cargo bastante indefinido este de comunicador e vendedor de publicidade. Algumas TVs também oferecem espaço para anúncios e os produzem – aproveitando-se da cultura (ou falta de) dos anunciantes locais.
Observa-se que, sendo as coisas como são, os anunciantes de cidades pequenas não são muito exigentes – esperam apenas aparecer e certamente não tem controle do retorno de sua publicidade. No máximo possuem estimativas do alcance, de acordo com a tiragem do veículo impresso – que muitas vezes não condiz com a realidade.
E então podemos questionar: se um novo veículo, interessado numa publicação de bom conteúdo, surgisse numa cidade dessas, teria sucesso? É possível que venha a fracassar em pouco tempo. Pois entraria na disputa pelos mesmos anunciantes que já possuem um laço com seus veículos preferidos – difícil de ser quebrado –, e pouco se importam com os leitores destes veículos – preocupam-se mais com o preço do anúncio e a exibição de sua marca, da maneira que for.
É por este motivo que sempre existem anunciantes em revistas que publicam somente classificados e anúncios em geral – comum em cidades pequenas. É uma questão cultural que só se modificará com o acesso à informação de qualidade – e levará um certo tempo para que a população exija tal informação; assim como também levará tempo para que os anunciantes percebam as exigências do público e então escolham anunciar em veículos de qualidade.
No momento, na maioria dessas cidades, a informação vale menos que o espaço, o nome da empresa de comunicação, e a influência das pessoas que fazem a grande imprensa de uma pequena cidade.
terça-feira, setembro 15, 2009
Será que chove?
*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel
De assunto para quando não tínhamos assunto, a preocupação com o tempo virou destaque nos noticiários de todo o país. A previsão do tempo ganhou chamada em bloco anterior de telejornal e manchete na escalada das notícias.
São os fenômenos climáticos novos que dão as caras no Brasil ou é a televisão que chega aonde não chegava antes e mostra o que não mostrava?
Vivo no Sul de Santa Catarina. Nosso estado nunca foi tão noticiado como agora. Inclusive minha cidade, Tubarão, com imagens de um tornado no Fantástico. Nem por isso, vivemos aqui num clima de pavor como devem pensar os brasileiros do resto do Brasil.
Mesmo assim, se você jogar a pergunta despretensiosa no ar “se vai chover” quando o assunto acabar, terá como resposta não apenas palpites, mas previsões embasadas em termos técnicos. A maioria por aqui tem o seu meteorologista preferido e o defende com ardor religioso.
Antes era a música do Plantão da Rede Globo que calava todos na sala. Hoje é uma mulher com pinta de atriz em frente a um mapa recheado de sóis e nuvens que rouba a atenção para a, como diria Sérgio Porto na pele de Stanislaw Ponte Preta, “máquina de fazer de doido”.
Se já tínhamos em cada um de nós um pouco de técnico de futebol, médico, louco, engenheiro aeronáutico, perito criminalista, advogado e jornalista, agora temos também em nosso ego um meteorologista.
E os meteorologistas de diploma na parede, tornaram-se estrelas. Dão entrevistas ao vivo em jornal de audiência nacional e ganham retratos nas capas dos periódicos impressos.
A previsão do tempo que antes roubava parcos minutos do nosso dia, hoje leva no bolso um quadro inteiro de qualquer programa de televisão. Conglomerados da mídia criaram sites especializados para tratar do tempo, com bate-papo on-line entre internautas e especialistas do tempo.
Há que se abrir um parêntese quando temos uma ameaça real de tempestade violenta, mas daí a tornarmos paranóicos pelo assunto? Daqui a pouco, neste mundo do politicamente correto, ninguém mais toma banho de chuva.
— Deus me livre! Com essa poluição? E se eu gripar? Pode virar Gripe Suína.
Bons tempos eram aqueles em que éramos rebeldes até em relação ao clima. A gente sabia que se nossa mãe mandava levar uma blusa porque ia esfriar ou um guarda-chuva porque ia chover, era batata, ia esfriar, e ou, ia chover. Mesmo assim tínhamos coragem de bater no peito e rasgar a garganta para desafiar:
— Não vai não, mãe.
E voltávamos encharcados. Encharcados e com a alma liberta.
Nem o tio Bartolomeu tem mais lugar com sua previsão tradicional. Meu velho parente anda cada vez mais cabisbaixo. Quem, diabos, vai trocar uma Rosana Jatobá, uma Flávia Freire, uma Flávia Alvarenga, por uma fisgada na cicatriz da apendicite aguda extirpada do abdômen do pobre aposentado há pelo menos quatro décadas?
Ah, e não esqueça o guarda-chuva se for sair de casa, que vai chover!
De assunto para quando não tínhamos assunto, a preocupação com o tempo virou destaque nos noticiários de todo o país. A previsão do tempo ganhou chamada em bloco anterior de telejornal e manchete na escalada das notícias.
São os fenômenos climáticos novos que dão as caras no Brasil ou é a televisão que chega aonde não chegava antes e mostra o que não mostrava?
Vivo no Sul de Santa Catarina. Nosso estado nunca foi tão noticiado como agora. Inclusive minha cidade, Tubarão, com imagens de um tornado no Fantástico. Nem por isso, vivemos aqui num clima de pavor como devem pensar os brasileiros do resto do Brasil.
Mesmo assim, se você jogar a pergunta despretensiosa no ar “se vai chover” quando o assunto acabar, terá como resposta não apenas palpites, mas previsões embasadas em termos técnicos. A maioria por aqui tem o seu meteorologista preferido e o defende com ardor religioso.
Antes era a música do Plantão da Rede Globo que calava todos na sala. Hoje é uma mulher com pinta de atriz em frente a um mapa recheado de sóis e nuvens que rouba a atenção para a, como diria Sérgio Porto na pele de Stanislaw Ponte Preta, “máquina de fazer de doido”.
Se já tínhamos em cada um de nós um pouco de técnico de futebol, médico, louco, engenheiro aeronáutico, perito criminalista, advogado e jornalista, agora temos também em nosso ego um meteorologista.
E os meteorologistas de diploma na parede, tornaram-se estrelas. Dão entrevistas ao vivo em jornal de audiência nacional e ganham retratos nas capas dos periódicos impressos.
A previsão do tempo que antes roubava parcos minutos do nosso dia, hoje leva no bolso um quadro inteiro de qualquer programa de televisão. Conglomerados da mídia criaram sites especializados para tratar do tempo, com bate-papo on-line entre internautas e especialistas do tempo.
Há que se abrir um parêntese quando temos uma ameaça real de tempestade violenta, mas daí a tornarmos paranóicos pelo assunto? Daqui a pouco, neste mundo do politicamente correto, ninguém mais toma banho de chuva.
— Deus me livre! Com essa poluição? E se eu gripar? Pode virar Gripe Suína.
Bons tempos eram aqueles em que éramos rebeldes até em relação ao clima. A gente sabia que se nossa mãe mandava levar uma blusa porque ia esfriar ou um guarda-chuva porque ia chover, era batata, ia esfriar, e ou, ia chover. Mesmo assim tínhamos coragem de bater no peito e rasgar a garganta para desafiar:
— Não vai não, mãe.
E voltávamos encharcados. Encharcados e com a alma liberta.
Nem o tio Bartolomeu tem mais lugar com sua previsão tradicional. Meu velho parente anda cada vez mais cabisbaixo. Quem, diabos, vai trocar uma Rosana Jatobá, uma Flávia Freire, uma Flávia Alvarenga, por uma fisgada na cicatriz da apendicite aguda extirpada do abdômen do pobre aposentado há pelo menos quatro décadas?
Ah, e não esqueça o guarda-chuva se for sair de casa, que vai chover!
segunda-feira, agosto 17, 2009
Caro entrevistado
*Manuela Prá | manuelapraa@gmail.com
Escrevo para agradecer pelo carinho e atenção a mim dedicados ao derrubar mais uma de minhas pautas.
A vida fácil que nós repórteres levamos, deve-se em muito a pessoas como você. É a sua consideração ao desmarcar três ou quatro minutos antes do horário combinado, seu dom de marcar conosco muito cedo, ou tão tarde a ponto de termos que fazer hora extra para preparar o material que conta com sua contribuição.
Claro que entendemos que você possui uma agenda própria, independente dos nossos compromissos, mas, assim como você, adoramos poder trabalhar.
Sim, por mais incrível que pareça, ser repórter, jornalista, radialista, “cara” da TV, do rádio ou do jornal – como queira –, é uma profissão. E precisamos de sua declaração.
Contribuir com uma matéria não é favor para nós, é exercer um direito cidadão. É esclarecer dúvidas, semear a justiça, incentivar o desenvolvimento, fazer rir, fazer chorar, alertar. Enfim, ajudar a melhorar, da forma que lhe cabe, o mundo em que vive.
O que peço pode levar entre cinco e dez minutos, e embora você não acredite nisso, o trabalho dos jornalistas ajuda a sociedade – e o mais importante, é um trabalho.
Então, caro amigo, da próxima vez que for simplesmente deixar de lado aquela nossa – antecipadamente marcada – entrevista, pense também que eu me preparo já há dias para fazer algumas perguntas. Que já agendei outras declarações para somar a sua, já conversei com meu chefe sobre ela e o principal, abri um espaço na edição que espera pela pauta – que depende de você.
Meu tempo para encontrar outro tema, outros entrevistados, preparar um material diferente é tão curto quanto o seu para estar de bom-humor novamente, para pentear o cabelo ou maquiar-se, para terminar aquele relatório incrível para amanhã e tantas outras desculpas.
Obrigada pela atenção, que desta vez você me deu.
Atenciosamente,
uma jornalista impedida de reportar a sua opinião – mas com direito a expressar a minha.
Escrevo para agradecer pelo carinho e atenção a mim dedicados ao derrubar mais uma de minhas pautas.
A vida fácil que nós repórteres levamos, deve-se em muito a pessoas como você. É a sua consideração ao desmarcar três ou quatro minutos antes do horário combinado, seu dom de marcar conosco muito cedo, ou tão tarde a ponto de termos que fazer hora extra para preparar o material que conta com sua contribuição.
Claro que entendemos que você possui uma agenda própria, independente dos nossos compromissos, mas, assim como você, adoramos poder trabalhar.
Sim, por mais incrível que pareça, ser repórter, jornalista, radialista, “cara” da TV, do rádio ou do jornal – como queira –, é uma profissão. E precisamos de sua declaração.
Contribuir com uma matéria não é favor para nós, é exercer um direito cidadão. É esclarecer dúvidas, semear a justiça, incentivar o desenvolvimento, fazer rir, fazer chorar, alertar. Enfim, ajudar a melhorar, da forma que lhe cabe, o mundo em que vive.
O que peço pode levar entre cinco e dez minutos, e embora você não acredite nisso, o trabalho dos jornalistas ajuda a sociedade – e o mais importante, é um trabalho.
Então, caro amigo, da próxima vez que for simplesmente deixar de lado aquela nossa – antecipadamente marcada – entrevista, pense também que eu me preparo já há dias para fazer algumas perguntas. Que já agendei outras declarações para somar a sua, já conversei com meu chefe sobre ela e o principal, abri um espaço na edição que espera pela pauta – que depende de você.
Meu tempo para encontrar outro tema, outros entrevistados, preparar um material diferente é tão curto quanto o seu para estar de bom-humor novamente, para pentear o cabelo ou maquiar-se, para terminar aquele relatório incrível para amanhã e tantas outras desculpas.
Obrigada pela atenção, que desta vez você me deu.
Atenciosamente,
uma jornalista impedida de reportar a sua opinião – mas com direito a expressar a minha.
domingo, agosto 09, 2009
Notícias de sempre
*Anderson Paes | www.twitter.com/andersonpaes
Aqueles jornais das sete da noite são iguais em todos os lugares? Lembro dos cliques no controle remoto de quando passei por Recife, Curitiba e Rio de Janeiro; e os telejornais locais, que chegam de Florianópolis ou Criciúma, seguem modelos parecidos: muito acidente de trânsito, polícia, sangue e um pouco de “variedades”.
Aqui parece que não existem notícias regionais que façam a diferença no horário. Uma vez ou outra que aparecem assuntos diferentes – sem contar a gripe. Porém, são raras as matérias sobre a economia e a política estadual. Não que a política catarinense seja das mais interessantes, mas alguma coisa importante aqueles deputados devem fazer – ou não?
A questão é que os jornais da tevê, desse horário, parecem apenas divulgar uma ou outra notícia curta – há uma rotina noticiosa. Talvez pelo pouco tempo, não sobre espaço para comentários inteligentes e oportunos. Só apresentações com uma entonação forçada. Mas se o motivo fosse mesmo o tempo, os jornais que passam ao meio-dia, e duram mais, seriam melhores.
Na economia, poderiam nos contar das relações de Santa Catarina com os Estados vizinhos; os tratados e acordos que os últimos governadores tanto assinaram em viagens variadas; além do que se vê sobre a exportação de frango – será essa a única atividade que vira notícia em SC?
Pouco também da cultura diversificada dessa terra. Quase não se sabe das regiões Oeste e Meio-Oeste aqui no Sul do Estado. Quase não se sabe de nada com esses jornais.
Como escreveu Hunter S. Thompson certa vez: “tenha cuidado, não preste atenção no noticiário, mantenha-se puro”. Melhor buscar as notícias daqui e as boas histórias na internet ou num bom jornal impresso – caso encontre algum.
Aqueles jornais das sete da noite são iguais em todos os lugares? Lembro dos cliques no controle remoto de quando passei por Recife, Curitiba e Rio de Janeiro; e os telejornais locais, que chegam de Florianópolis ou Criciúma, seguem modelos parecidos: muito acidente de trânsito, polícia, sangue e um pouco de “variedades”.
Aqui parece que não existem notícias regionais que façam a diferença no horário. Uma vez ou outra que aparecem assuntos diferentes – sem contar a gripe. Porém, são raras as matérias sobre a economia e a política estadual. Não que a política catarinense seja das mais interessantes, mas alguma coisa importante aqueles deputados devem fazer – ou não?
A questão é que os jornais da tevê, desse horário, parecem apenas divulgar uma ou outra notícia curta – há uma rotina noticiosa. Talvez pelo pouco tempo, não sobre espaço para comentários inteligentes e oportunos. Só apresentações com uma entonação forçada. Mas se o motivo fosse mesmo o tempo, os jornais que passam ao meio-dia, e duram mais, seriam melhores.
Na economia, poderiam nos contar das relações de Santa Catarina com os Estados vizinhos; os tratados e acordos que os últimos governadores tanto assinaram em viagens variadas; além do que se vê sobre a exportação de frango – será essa a única atividade que vira notícia em SC?
Pouco também da cultura diversificada dessa terra. Quase não se sabe das regiões Oeste e Meio-Oeste aqui no Sul do Estado. Quase não se sabe de nada com esses jornais.
Como escreveu Hunter S. Thompson certa vez: “tenha cuidado, não preste atenção no noticiário, mantenha-se puro”. Melhor buscar as notícias daqui e as boas histórias na internet ou num bom jornal impresso – caso encontre algum.
segunda-feira, julho 06, 2009
Os cinco sentidos em favor da boa reportagem
*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel
Não tenho vontade de continuar neste assunto sobre o diploma de jornalismo. Sei que chateia o leitor, se é que temos algum. Por isso devo uma explicação ao postar mais uma vez sobre o tema:
Ao escrever um comentário sobre o texto Liberdade Expressão ou Liberdade de Restrição, do jornalista Gabriel Guedes, percebi que estava elaborando um compêndio e como a ideia é não desperdiçar nada, ganhei o dia e mais uma postagem!
— Este papo de extinguir a exigência do diploma para favorecer a liberdade de expressão é o "ó do borogodó" – assim eu havia iniciado o já mencionado comentário e segui:
Há muitos anos qualquer brasileiro tem o direito de se expressar da maneira que bem entender na imprensa, desde que, com responsabilidade, assumindo suas palavras e tendo sua opinião selecionada para estampar algumas linhas de qualquer publicação. Sem levar em conta é evidente, os meios eletrônicos e sua quase que total anarquia.
Artigos e colunas nunca foram privilégios de jornalistas formados e, ademais, com ou sem diploma não existe nenhuma garantia de “expressão”, apesar das garantias que temos para tal.
De todo modo, reforço que, o diploma pelo diploma não garante qualidade e não deve ser ferramenta para reserva de emprego, embora, é claro, ele tenha o seu devido valor, como já disse em outra postagem. Um exemplo é a aberração que vai acontecer ao não exigir certificado de jornalista para cargos públicos na área de imprensa.
É preciso aliar o talento à técnica.
Antes de cursar jornalismo sempre me aventurei na escrita. Enviava artigos e comentários para jornais e revistas. Também era metido a poeta (graças ao bom senso mantenho minhas poesias bem guardadas). Mas foi com a faculdade de Comunicação Social que descobri de fato (embora não pareça) como escrever. Embora sem o diploma, eu já possuísse este direito.
Mesmo com a técnica e a objetividade ensinadas nas salas de aula, o bom repórter precisa ter uma veia literária com destaque. A reportagem precisa contar uma história e essa história deve ser contada com a audição, o olfato, a visão, o paladar e o tato atentos ao ambiente.
É preciso querer ser como Gay Talese, ícone do jornalismo literário e investigativo.
O último parágrafo do texto dedicado a participação de Talese na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) no blogue Máquina de Escrever (colunas.g1.com.br/maquinadeescrever), endossa o que quero dizer ao citar como indispensável ao bom jornalista ter os cinco sentidos aguçados:
— O dom da observação vem da infância (de Talese), quando, após o colégio, Talese ajudava o pai, um alfaiate imigrante da Calábria, em sua loja. Foi então que ele aprendeu a enxergar e diferenciar a forma como cada pessoa se apresentava, não apenas nas palavras, mas também no estilo. Aprendeu também a se relacionar sem qualquer desconforto com pessoas de diferentes classes sociais, um requisito que considera indispensável, além da paciência e perseverança, para quem quiser se dedicar ao tipo de jornalismo investigativo que o consagrou.
Não tenho vontade de continuar neste assunto sobre o diploma de jornalismo. Sei que chateia o leitor, se é que temos algum. Por isso devo uma explicação ao postar mais uma vez sobre o tema:
Ao escrever um comentário sobre o texto Liberdade Expressão ou Liberdade de Restrição, do jornalista Gabriel Guedes, percebi que estava elaborando um compêndio e como a ideia é não desperdiçar nada, ganhei o dia e mais uma postagem!
— Este papo de extinguir a exigência do diploma para favorecer a liberdade de expressão é o "ó do borogodó" – assim eu havia iniciado o já mencionado comentário e segui:
Há muitos anos qualquer brasileiro tem o direito de se expressar da maneira que bem entender na imprensa, desde que, com responsabilidade, assumindo suas palavras e tendo sua opinião selecionada para estampar algumas linhas de qualquer publicação. Sem levar em conta é evidente, os meios eletrônicos e sua quase que total anarquia.
Artigos e colunas nunca foram privilégios de jornalistas formados e, ademais, com ou sem diploma não existe nenhuma garantia de “expressão”, apesar das garantias que temos para tal.
De todo modo, reforço que, o diploma pelo diploma não garante qualidade e não deve ser ferramenta para reserva de emprego, embora, é claro, ele tenha o seu devido valor, como já disse em outra postagem. Um exemplo é a aberração que vai acontecer ao não exigir certificado de jornalista para cargos públicos na área de imprensa.
É preciso aliar o talento à técnica.
Antes de cursar jornalismo sempre me aventurei na escrita. Enviava artigos e comentários para jornais e revistas. Também era metido a poeta (graças ao bom senso mantenho minhas poesias bem guardadas). Mas foi com a faculdade de Comunicação Social que descobri de fato (embora não pareça) como escrever. Embora sem o diploma, eu já possuísse este direito.
Mesmo com a técnica e a objetividade ensinadas nas salas de aula, o bom repórter precisa ter uma veia literária com destaque. A reportagem precisa contar uma história e essa história deve ser contada com a audição, o olfato, a visão, o paladar e o tato atentos ao ambiente.
É preciso querer ser como Gay Talese, ícone do jornalismo literário e investigativo.
O último parágrafo do texto dedicado a participação de Talese na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) no blogue Máquina de Escrever (colunas.g1.com.br/maquinadeescrever), endossa o que quero dizer ao citar como indispensável ao bom jornalista ter os cinco sentidos aguçados:
— O dom da observação vem da infância (de Talese), quando, após o colégio, Talese ajudava o pai, um alfaiate imigrante da Calábria, em sua loja. Foi então que ele aprendeu a enxergar e diferenciar a forma como cada pessoa se apresentava, não apenas nas palavras, mas também no estilo. Aprendeu também a se relacionar sem qualquer desconforto com pessoas de diferentes classes sociais, um requisito que considera indispensável, além da paciência e perseverança, para quem quiser se dedicar ao tipo de jornalismo investigativo que o consagrou.
domingo, julho 05, 2009
Liberdade de Expressão ou Liberdade de Restrição?
*Gabriel Guedes | www.twitter.com/gabrielzguedes
Tarde de domingo em São Leopoldo. O céu de brigadeiro dos últimos dias cedeu lugar a um tom "leitoso", sem graça. Estou aqui tomando um chimarrão enquanto resolvo estrear de vez no Gelo em Marte, quebrando a hegemonia do Anderson Paes e do Eduardo Daniel durante esta primeira semana de site no ar. Foi o tempo que me restou para escrever. Durante a semana o tempo voa. Principalmente pelo tempo dedicado ao trabalho na redação.
Em meio a discussão provocada diante da queda do diploma de bacharel em Jornalismo, me chamou atenção a justificativa das empresas jornalísticas. Uma delas, é a defesa da liberdade de expressão, que estaria supostamente restringida em detrimento do documento. Algo que eu não consigo compreender exatamente por ser contraditório.
Nas últimas semanas, eu e meus colegas, tivemos de lidar com matérias sobre a nossa classe e que foram vetadas de publicação. Uma delas foi a intitulada Quarenta senadores já assinaram PEC que prevê exigência de diploma, publicada pela Agência Brasil no dia 24 de junho. No dia seguinte, resolvi conferir a Zero Hora, a Folha de S. Paulo e o Estadão. Para minha surpresa, a mesma situação: matéria não publicada. Justamente por causa de um alinhamento editorial articulado pelas empresas.
Se liberdade de expressão é poder falar de tudo e mais um pouco, no caso dos maiores jornais do Brasil isso significa a liberdade de restrição. A liberdade de publicar o que lhes é conveniente e vêm a atender os interesses nos bastidores do negócio. É a parcialidade vendida sob o selo da imparcialidade, da independência. Mas isso o pobre leitor nem imagina que aconteça.
No dia 29 de junho recebi um e-mail de Caçador (SC), da minha ex-colega de faculdade, a jornalista Nicole Trevisol. Era um press release e uma foto sobre uma greve na principal empresa calçadista desta cidade do meio-oeste catarinense. Mas havia um apelo. E o transcrevo abaixo, na íntegra.
Tarde de domingo em São Leopoldo. O céu de brigadeiro dos últimos dias cedeu lugar a um tom "leitoso", sem graça. Estou aqui tomando um chimarrão enquanto resolvo estrear de vez no Gelo em Marte, quebrando a hegemonia do Anderson Paes e do Eduardo Daniel durante esta primeira semana de site no ar. Foi o tempo que me restou para escrever. Durante a semana o tempo voa. Principalmente pelo tempo dedicado ao trabalho na redação.
Em meio a discussão provocada diante da queda do diploma de bacharel em Jornalismo, me chamou atenção a justificativa das empresas jornalísticas. Uma delas, é a defesa da liberdade de expressão, que estaria supostamente restringida em detrimento do documento. Algo que eu não consigo compreender exatamente por ser contraditório.
Nas últimas semanas, eu e meus colegas, tivemos de lidar com matérias sobre a nossa classe e que foram vetadas de publicação. Uma delas foi a intitulada Quarenta senadores já assinaram PEC que prevê exigência de diploma, publicada pela Agência Brasil no dia 24 de junho. No dia seguinte, resolvi conferir a Zero Hora, a Folha de S. Paulo e o Estadão. Para minha surpresa, a mesma situação: matéria não publicada. Justamente por causa de um alinhamento editorial articulado pelas empresas.
Se liberdade de expressão é poder falar de tudo e mais um pouco, no caso dos maiores jornais do Brasil isso significa a liberdade de restrição. A liberdade de publicar o que lhes é conveniente e vêm a atender os interesses nos bastidores do negócio. É a parcialidade vendida sob o selo da imparcialidade, da independência. Mas isso o pobre leitor nem imagina que aconteça.
No dia 29 de junho recebi um e-mail de Caçador (SC), da minha ex-colega de faculdade, a jornalista Nicole Trevisol. Era um press release e uma foto sobre uma greve na principal empresa calçadista desta cidade do meio-oeste catarinense. Mas havia um apelo. E o transcrevo abaixo, na íntegra.
"Colegas, peço a ajuda de todos para que seja possível a divulgação deste fato. Em greve desde segunda-feira, dia 23, os trabalhadores da empresa Viposa estão mobilizados em busca de um melhor salário. Entretanto, a categoria tem enfrentado retaliações da mídia local que tem estado apática e indiferente sobre esta situação."Coitado de nós, jornalistas. Se não fosse a internet...
quarta-feira, julho 01, 2009
Enquanto houver peixe...
(ou 'Conto pra foca dormir')
*Anderson Paes | www.twitter.com/andersonpaes
Toda manhã João Roberto entrega folhetos no centro de Porto Alegre. Do outro lado da rua ele vê o prédio antigo do jornal Correio do Povo. João Roberto decidiu ser jornalista. Com quase 20 anos, ele tem muito a dizer. Mas nunca teve a chance nem o dinheiro pra estudar até conseguir entrar na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Recentemente viu no Jornal Nacional que não precisa mais fazer faculdade para ser jornalista. João Roberto ficou contente, vai poder dizer tudo o que sempre quis. E como sempre trabalhou com texto, pelo menos o dos folhetos que traz da gráfica, espera se dar bem – não que jornalista ganhe bem, pelo contrário; ele sabe disso.
João sabe que no Brasil, assim como em outros lugares do mundo, tem direito a falar o que quiser e a pensar como quiser. Mas não tem espaço, não é ouvido – e disso ele reclama. Cansou de mandar cartas para a redação. Enquanto isso, o Jornal do outro lado da rua, a TV, a Rádio, expressam a ideia de alguns e alcançam estados inteiros. Mas João não precisa de tanto, ficaria contente de ser lido só na Rua da Praia.
A diferença se dá no dinheiro. Jornalismo virou atividade econômica. As empresas lucram, acham espaços para os anúncios até sobre as fotos, e pagam mal a quem escreve e faz o jornal. Jornalistas, muitos com diploma na mão – ou guardado num envelope – ficam desmotivados e não escrevem mais do mesmo jeito. A categoria não é tão unida, muito menos regulamentada. João não está preocupado com isso, sua atividade, pelo menos por enquanto, ainda é “humanista”. Um jornalismo como dever social.
Em parceria com o sujeito da gráfica a Folhinha da Praia saiu. Um anunciozinho daqui, outro dali, e, paga-se a impressão. Sem falar que anúncio de jornal dá mais dinheiro que folheto pra distribuir na rua.
— João Roberto, jornalista. Muito prazer.
Os dias passam e a Folhinha ganha leitores, distribuição gratuita – os anúncios dão conta disso; além de pagar a impressão João ainda tira uns trocados no fim do mês. E ele escreve bem, até recebe um olhar desconfiado dum editor da Grande Mídia – que continua puto por não precisar mais de diploma para exercer a profissão; teme que o salário possa diminuir por causa da concorrência iletrada.
Mas o mercado de trabalho mudou. Tudo muda. João, jornalista, sem cursar jornalismo, é convidado a trabalhar num jornal “de verdade”. Ele recusa: — Pagavam mal porque não fiz faculdade. Estou melhor assim.
João continuou com a sua Folhinha. Largou os folhetos. O editor desconfiado seguiu como editor e seu salário continua igual. O jornal onde ele trabalha continua contratando jornalistas que cursaram faculdade – e exige cada vez mais. A decisão de não exigir o diploma para o exercício do jornalismo fez com o que os jornalistas graduados retomassem o gosto pela profissão e uniu a classe. Voltaram a fazer o que sempre quiseram e continuam conquistando novos espaços. Nos impressos e eletrônicos – até mesmo nos blogs –, vemos agora um jornalismo motivado, com mais informação do que aspas.
E o povo, assim como João Roberto, tem agora seu espaço livre do poder econômico e das estranhas relações da grande mídia. A Folhinha do João também embrulha peixe no fim de semana.
Toda manhã João Roberto entrega folhetos no centro de Porto Alegre. Do outro lado da rua ele vê o prédio antigo do jornal Correio do Povo. João Roberto decidiu ser jornalista. Com quase 20 anos, ele tem muito a dizer. Mas nunca teve a chance nem o dinheiro pra estudar até conseguir entrar na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Recentemente viu no Jornal Nacional que não precisa mais fazer faculdade para ser jornalista. João Roberto ficou contente, vai poder dizer tudo o que sempre quis. E como sempre trabalhou com texto, pelo menos o dos folhetos que traz da gráfica, espera se dar bem – não que jornalista ganhe bem, pelo contrário; ele sabe disso.
João sabe que no Brasil, assim como em outros lugares do mundo, tem direito a falar o que quiser e a pensar como quiser. Mas não tem espaço, não é ouvido – e disso ele reclama. Cansou de mandar cartas para a redação. Enquanto isso, o Jornal do outro lado da rua, a TV, a Rádio, expressam a ideia de alguns e alcançam estados inteiros. Mas João não precisa de tanto, ficaria contente de ser lido só na Rua da Praia.
A diferença se dá no dinheiro. Jornalismo virou atividade econômica. As empresas lucram, acham espaços para os anúncios até sobre as fotos, e pagam mal a quem escreve e faz o jornal. Jornalistas, muitos com diploma na mão – ou guardado num envelope – ficam desmotivados e não escrevem mais do mesmo jeito. A categoria não é tão unida, muito menos regulamentada. João não está preocupado com isso, sua atividade, pelo menos por enquanto, ainda é “humanista”. Um jornalismo como dever social.
Em parceria com o sujeito da gráfica a Folhinha da Praia saiu. Um anunciozinho daqui, outro dali, e, paga-se a impressão. Sem falar que anúncio de jornal dá mais dinheiro que folheto pra distribuir na rua.
— João Roberto, jornalista. Muito prazer.
Os dias passam e a Folhinha ganha leitores, distribuição gratuita – os anúncios dão conta disso; além de pagar a impressão João ainda tira uns trocados no fim do mês. E ele escreve bem, até recebe um olhar desconfiado dum editor da Grande Mídia – que continua puto por não precisar mais de diploma para exercer a profissão; teme que o salário possa diminuir por causa da concorrência iletrada.
Mas o mercado de trabalho mudou. Tudo muda. João, jornalista, sem cursar jornalismo, é convidado a trabalhar num jornal “de verdade”. Ele recusa: — Pagavam mal porque não fiz faculdade. Estou melhor assim.
João continuou com a sua Folhinha. Largou os folhetos. O editor desconfiado seguiu como editor e seu salário continua igual. O jornal onde ele trabalha continua contratando jornalistas que cursaram faculdade – e exige cada vez mais. A decisão de não exigir o diploma para o exercício do jornalismo fez com o que os jornalistas graduados retomassem o gosto pela profissão e uniu a classe. Voltaram a fazer o que sempre quiseram e continuam conquistando novos espaços. Nos impressos e eletrônicos – até mesmo nos blogs –, vemos agora um jornalismo motivado, com mais informação do que aspas.
E o povo, assim como João Roberto, tem agora seu espaço livre do poder econômico e das estranhas relações da grande mídia. A Folhinha do João também embrulha peixe no fim de semana.
segunda-feira, junho 29, 2009
Do ensino de jornalismo para gente nova
*Anderson Paes | www.twitter.com/andersonpaes
É possível, e bem provável, que os que hoje ocupam as salas de aula da faculdade de Jornalismo tenham tido uma formação que não lhes ensinou a pensar. O ensino fundamental no Brasil ainda não forma livres-pensadores – ensina-se mais a crer do que a questionar. Quando chegam ao ensino médio a realidade é outra: o vestibular. As preocupações com a tão difamada prova duram três anos e então chegam à universidade – por sinal, jovens demais. São considerados jovens demais, porque espera-se que com a idade as pessoas se interessem por buscar o conhecimento – e não só navegar por informações. E então, nas salas de aula, são pessoas cheias de emoção e, às vezes, vazias de razão e de lógica. Estas são questões importantes no jornalismo e como nem todos foram formados com a presença delas, poderão passar por constrangimentos.
Distinguir as variações da história e refletir sobre as verdades apresentadas deve ser natural do jornalista. É mais ou menos como responder a uma questão aparentemente simples: por ser simples na aparência, hesitamos; ao hesitar, pensamentos algumas vezes antes de responder e então, ficamos mais próximos da resposta errada. Se a lógica fosse natural a resposta assim seria também – sem medo ou preocupações. Essas situações vêm de questões humanas – apresentadas na filosofia, sociologia, antropologia –, muitas delas ignoradas nos primeiros anos do curso por pessoas jovens demais. Possivelmente por não terem sido estimulados a pensar, buscam o que já está feito. O que leva alguns àquela que podemos chamar de “síndrome do ctrl-c, ctrl-v”.
Após passarem pelas disciplinas de Psicologia, Sociologia e Epistemologia – desde que tenham aprendido de verdade e não apenas presenciado as aulas – deveriam ser estimulados a ler obras que mostrem as versões da realidade e como pode-se conviver com elas. Um bom exemplo e adequado a esta profissão é Como vencer um debate sem precisar ter razão, de Arthur Schopenhauer, pois passarão por situações duvidosas com os mais variados tipos de pessoas. Este e outros clássicos de grandes autores são importantes por mostrarem situações humanas reais e seus temas seguem atualizados. Outros autores como George Orwell e Hunter Thompson – de tempos mais recentes – também são relevantes para se conhecer estilos literários. Porém, estes autores não só apresentavam estilos como também conteúdo em seus escritos.
A questão do conteúdo está diretamente ligada à paixão do jornalista pela sua profissão. Por ser passional, pode inconscientemente fugir da neutralidade esperada – da imparcialidade do jornalismo. Bertrand Russell disse em seus Ensaios Céticos que as pessoas são mais passionais que racionais, e, por isso, agem da maneira que agem. Portanto, seria interessante considerar um certo ceticismo no trabalho jornalístico. Um ceticismo realista, diferente daquele ceticismo chato que duvida de tudo.
Russell propôs mais dez mandamentos ao mundo, que podem ser aplicados também ao jornalismo:
1. Não tenhas certeza absoluta de nada.
2. Não consideres que valha a pena proceder escondendo evidências, pois as evidências inevitavelmente virão à luz.
3. Nunca tentes desencorajar o pensamento, pois com certeza tu terás sucesso.
4. Quando encontrares oposição, mesmo que seja de teu cônjuge ou de tuas crianças, esforça-te para superá-la pelo argumento, e não pela autoridade, pois uma vitória dependente da autoridade é irreal e ilusória.
5. Não tenhas respeito pela autoridade dos outros, pois há sempre autoridades contrárias a serem achadas.
6. Não uses o poder para suprimir opiniões que consideres perniciosas, pois as opiniões irão suprimir-te.
7. Não tenhas medo de possuir opiniões excêntricas, pois todas as opiniões hoje aceitas foram um dia consideradas excêntricas.
8. Encontres mais prazer em desacordo inteligente do que em concordância passiva, pois, se valorizas a inteligência como deverias, o primeiro será um acordo mais profundo que a segunda.
9. Sê escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois será mais inconveniente se tentares escondê-la.
10. Não tenhas inveja daqueles que vivem num paraíso dos tolos, pois apenas um tolo o consideraria um paraíso.
Para um novo jornalista, os mandamentos acima serão úteis no dia-a-dia da profissão. Ao lidar com jornalistas mais experientes, por exemplo, busque mostrar a razão de você pensar como pensa – só não tente pensar como eles pensam. Seja um livre-pensador.
Sugestões:
BALZAC, Honoré. Os Jornalistas. Rio de Janeiro. Ediouro, 1999.
DESCARTES, René. Discurso do Método. Porto Alegre. L&PM, 2005.
ERASMO. Elogio da Loucura. Porto Alegre. L&PM, 2003.
FORTES, Leonardo. Jornalismo Investigativo. São Paulo. Contexto, 2005.
NOBLAT, Ricardo. A arte de escrever um jornal diário. São Paulo. Contexto, 2005.
ORWELL, George. Na pior em Paris e Londres. São Paulo. Cia. das Letras, 2005.
RUSSELL, Bertrand. Ensaios Céticos. Porto Alegre. L&PM, 2008.
SCHOPENHAUER, Arthur. Como vencer um debate sem precisar ter razão. Rio de Janeiro. Topbooks, 2003.
THOMPSON, Hunter S. A grande caçada aos tubarões. São Paulo. Conrad, 2004.
VOLTAIRE. Conselhos a um jornalista. Martins Fontes. São Paulo, 2006.
É possível, e bem provável, que os que hoje ocupam as salas de aula da faculdade de Jornalismo tenham tido uma formação que não lhes ensinou a pensar. O ensino fundamental no Brasil ainda não forma livres-pensadores – ensina-se mais a crer do que a questionar. Quando chegam ao ensino médio a realidade é outra: o vestibular. As preocupações com a tão difamada prova duram três anos e então chegam à universidade – por sinal, jovens demais. São considerados jovens demais, porque espera-se que com a idade as pessoas se interessem por buscar o conhecimento – e não só navegar por informações. E então, nas salas de aula, são pessoas cheias de emoção e, às vezes, vazias de razão e de lógica. Estas são questões importantes no jornalismo e como nem todos foram formados com a presença delas, poderão passar por constrangimentos.
Distinguir as variações da história e refletir sobre as verdades apresentadas deve ser natural do jornalista. É mais ou menos como responder a uma questão aparentemente simples: por ser simples na aparência, hesitamos; ao hesitar, pensamentos algumas vezes antes de responder e então, ficamos mais próximos da resposta errada. Se a lógica fosse natural a resposta assim seria também – sem medo ou preocupações. Essas situações vêm de questões humanas – apresentadas na filosofia, sociologia, antropologia –, muitas delas ignoradas nos primeiros anos do curso por pessoas jovens demais. Possivelmente por não terem sido estimulados a pensar, buscam o que já está feito. O que leva alguns àquela que podemos chamar de “síndrome do ctrl-c, ctrl-v”.
Após passarem pelas disciplinas de Psicologia, Sociologia e Epistemologia – desde que tenham aprendido de verdade e não apenas presenciado as aulas – deveriam ser estimulados a ler obras que mostrem as versões da realidade e como pode-se conviver com elas. Um bom exemplo e adequado a esta profissão é Como vencer um debate sem precisar ter razão, de Arthur Schopenhauer, pois passarão por situações duvidosas com os mais variados tipos de pessoas. Este e outros clássicos de grandes autores são importantes por mostrarem situações humanas reais e seus temas seguem atualizados. Outros autores como George Orwell e Hunter Thompson – de tempos mais recentes – também são relevantes para se conhecer estilos literários. Porém, estes autores não só apresentavam estilos como também conteúdo em seus escritos.
A questão do conteúdo está diretamente ligada à paixão do jornalista pela sua profissão. Por ser passional, pode inconscientemente fugir da neutralidade esperada – da imparcialidade do jornalismo. Bertrand Russell disse em seus Ensaios Céticos que as pessoas são mais passionais que racionais, e, por isso, agem da maneira que agem. Portanto, seria interessante considerar um certo ceticismo no trabalho jornalístico. Um ceticismo realista, diferente daquele ceticismo chato que duvida de tudo.
Russell propôs mais dez mandamentos ao mundo, que podem ser aplicados também ao jornalismo:
1. Não tenhas certeza absoluta de nada.
2. Não consideres que valha a pena proceder escondendo evidências, pois as evidências inevitavelmente virão à luz.
3. Nunca tentes desencorajar o pensamento, pois com certeza tu terás sucesso.
4. Quando encontrares oposição, mesmo que seja de teu cônjuge ou de tuas crianças, esforça-te para superá-la pelo argumento, e não pela autoridade, pois uma vitória dependente da autoridade é irreal e ilusória.
5. Não tenhas respeito pela autoridade dos outros, pois há sempre autoridades contrárias a serem achadas.
6. Não uses o poder para suprimir opiniões que consideres perniciosas, pois as opiniões irão suprimir-te.
7. Não tenhas medo de possuir opiniões excêntricas, pois todas as opiniões hoje aceitas foram um dia consideradas excêntricas.
8. Encontres mais prazer em desacordo inteligente do que em concordância passiva, pois, se valorizas a inteligência como deverias, o primeiro será um acordo mais profundo que a segunda.
9. Sê escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois será mais inconveniente se tentares escondê-la.
10. Não tenhas inveja daqueles que vivem num paraíso dos tolos, pois apenas um tolo o consideraria um paraíso.
Para um novo jornalista, os mandamentos acima serão úteis no dia-a-dia da profissão. Ao lidar com jornalistas mais experientes, por exemplo, busque mostrar a razão de você pensar como pensa – só não tente pensar como eles pensam. Seja um livre-pensador.
Sugestões:
BALZAC, Honoré. Os Jornalistas. Rio de Janeiro. Ediouro, 1999.
DESCARTES, René. Discurso do Método. Porto Alegre. L&PM, 2005.
ERASMO. Elogio da Loucura. Porto Alegre. L&PM, 2003.
FORTES, Leonardo. Jornalismo Investigativo. São Paulo. Contexto, 2005.
NOBLAT, Ricardo. A arte de escrever um jornal diário. São Paulo. Contexto, 2005.
ORWELL, George. Na pior em Paris e Londres. São Paulo. Cia. das Letras, 2005.
RUSSELL, Bertrand. Ensaios Céticos. Porto Alegre. L&PM, 2008.
SCHOPENHAUER, Arthur. Como vencer um debate sem precisar ter razão. Rio de Janeiro. Topbooks, 2003.
THOMPSON, Hunter S. A grande caçada aos tubarões. São Paulo. Conrad, 2004.
VOLTAIRE. Conselhos a um jornalista. Martins Fontes. São Paulo, 2006.
domingo, junho 28, 2009
Não troque seu diploma por um cacho de bananas
*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel
Toda a discussão por conta da decisão do STJ (Superior Tribunal de Justiça) em decidir em favor da não obrigatoriedade do diploma de curso superior para a prática e o registro da profissão de jornalista, se bobear – alerta o sempre atento tio Bartolomeu – vai levar os diplomados contrários à medida, a transformarem seus canudos em coquetéis molotov para a guerrilha contra os que tomaram tal medida.
É preciso calma, antes de sair por aí rodando a baiana e oferecendo seu diploma por preço de banana.
Em primeiro lugar, aquele que diz que tem em casa um objeto inútil, tem, com toda a certeza, absoluta razão. O diploma de jornalista para este colega é tão inútil quanto o seria para ele um diploma de qualquer outro curso. Mais importante do que o simbolismo que aquele pequeno pedaço de papel possa ter, é o conhecimento sobre tudo aquilo que se prega como essencial para a profissão que foi adquirido nos anos em que os ditos estiveram nos bancos universitários.
Divagando com um professor de violão sobre dom e talento, é perfeitamente possível tirar um paralelo sobre qualquer profissão, suas qualificações técnicas e pré-requisitos. Eis o que o violonista diz:
— Dom não é nascer tocando violão ou qualquer outro instrumento. Dom é ter a vontade, muito mais do que a capacidade, de repetir por horas a fio um novo exercício. É calejar os dedos ao praticar uma nova técnica para buscar a perfeição.
Aqueles que tem o dom e o domínio da escrita, que seduz e prende os leitores num papel, não precisam se preocupar. Vai procurar uma qualificação universitária somente quem tem o talento nato. Ninguém vai sentar numa sala de aula acomodado com a certeza da reserva de mercado ou esperando se descobrir um jornalista.
Além da categoria inerente aos que, se não são gênios, estão próximos disso, o profissional de imprensa que possuir as técnicas para o exercício impecável do jornalismo, vai ser muito mais valorizado entre uma concorrência que faz o feijão com arroz. Entre aqueles que estão comemorando o fato de não precisarem mais do diploma pela desobrigação de alguns anos de estudo.
Quem não domina a técnica certamente não vai sobreviver no mercado apenas conhecendo o abecedário. E isso vale também para os diplomados.
Post-scriptum: Sou jornalista diplomado, registrado e carimbado.
Toda a discussão por conta da decisão do STJ (Superior Tribunal de Justiça) em decidir em favor da não obrigatoriedade do diploma de curso superior para a prática e o registro da profissão de jornalista, se bobear – alerta o sempre atento tio Bartolomeu – vai levar os diplomados contrários à medida, a transformarem seus canudos em coquetéis molotov para a guerrilha contra os que tomaram tal medida.
É preciso calma, antes de sair por aí rodando a baiana e oferecendo seu diploma por preço de banana.
Em primeiro lugar, aquele que diz que tem em casa um objeto inútil, tem, com toda a certeza, absoluta razão. O diploma de jornalista para este colega é tão inútil quanto o seria para ele um diploma de qualquer outro curso. Mais importante do que o simbolismo que aquele pequeno pedaço de papel possa ter, é o conhecimento sobre tudo aquilo que se prega como essencial para a profissão que foi adquirido nos anos em que os ditos estiveram nos bancos universitários.
Divagando com um professor de violão sobre dom e talento, é perfeitamente possível tirar um paralelo sobre qualquer profissão, suas qualificações técnicas e pré-requisitos. Eis o que o violonista diz:
— Dom não é nascer tocando violão ou qualquer outro instrumento. Dom é ter a vontade, muito mais do que a capacidade, de repetir por horas a fio um novo exercício. É calejar os dedos ao praticar uma nova técnica para buscar a perfeição.
Aqueles que tem o dom e o domínio da escrita, que seduz e prende os leitores num papel, não precisam se preocupar. Vai procurar uma qualificação universitária somente quem tem o talento nato. Ninguém vai sentar numa sala de aula acomodado com a certeza da reserva de mercado ou esperando se descobrir um jornalista.
Além da categoria inerente aos que, se não são gênios, estão próximos disso, o profissional de imprensa que possuir as técnicas para o exercício impecável do jornalismo, vai ser muito mais valorizado entre uma concorrência que faz o feijão com arroz. Entre aqueles que estão comemorando o fato de não precisarem mais do diploma pela desobrigação de alguns anos de estudo.
Quem não domina a técnica certamente não vai sobreviver no mercado apenas conhecendo o abecedário. E isso vale também para os diplomados.
Post-scriptum: Sou jornalista diplomado, registrado e carimbado.
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