*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel
Tornou-se lugar comum para os fãs de automobilismo no Brasil, dizer que depois da morte do tricampeão mundial Ayrton Senna, a Fórmula 1 nunca mais foi a mesma. Uns dizem até que depois daquele 1° de maio de 1994 nunca mais acordaram cedo aos domingos para acompanhar uma corridazinha que fosse.
Puro jogo de cena. Pode apostar que quem nunca assistiu a uma corrida de Fórmula 1 depois da morte de Senna, também nunca assistiu uma prova antes de seu falecimento.
Também é evidente que a Fórmula 1 depois da morte do Senna mudou. Para pior, ou para melhor, é questão de opinião, mas o fato é que, a categoria mais famosa do automobilismo para nós brasileiros, mudaria com ou sem Ayrton Senna.
Lamentar, após cada escândalo de ética da Fórmula 1, a morte de Senna, ligando a sua pessoa a lisura que o esporte teria hoje, não faz o menor sentido, uma vez que, para Senna, o que importava mesmo era a vitória, custasse o que poderia custar.
Outro senão cabe ao fato de que o brasileiro, infelizmente e historicamente, não é tão ético quanto parece só porque joga tudo o que tem em mãos no ventilador a cada escândalo na Fórmula 1.
Se 90% dos brasileiros queimariam o Massa numa fogueira se assim pudessem, quase 100% também construiria uma estátua para Alonso, se o espanhol desse a preferência ao nosso compatriota.
Mostrando postagens com marcador Fórmula 1. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fórmula 1. Mostrar todas as postagens
terça-feira, agosto 03, 2010
quinta-feira, outubro 29, 2009
Bruno Senna: um novo Christian Fittipaldi? Um novo Nelsinho Piquet?
*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel
Em 2006, quando ainda fazia parte da redação do Jornal O Esporte, quase fui esquartejado em praça pública. Tudo porque questionei se Felipe Massa, recém contratado como piloto titular da escuderia Ferrari, seria o novo Rubens Barrichello. Escapei ileso daquela, eis de escapar são e salvo desta também.
Para deixar bem claro, não comparava o talento de um com o talento de outro. Muito menos a personalidade de Massa e Barrichello. Massa estreou na Sauber em 2002, no ano seguinte foi piloto de testes da Ferrari. Em 2004 e 2005 voltou para a Sauber, até que, finalmente em 2006 assumiu a titularidade na equipe italiana.
A expectativa criada em torno da possibilidade de finalmente o Brasil poder ter novamente um campeão mundial de Fórmula 1 deixou a todos eufóricos. Talvez por isso, eu, ao dar ouvidos ao ácido tio Bartolomeu, corri um sério risco de ser linchado no meio da rua.
Passaram-se três anos e até agora o título não veio. A Rede Globo segue nos fazendo crer que ele vira. Mas, amigos, espero que esteja errado, tudo indica de que minha profecia pode tornar-se verdadeira e irreversível. Com Fernando Alonso na Ferrari e o Banco Santander patrocinando a escuderia da velha bota, Massa tem tudo para ser jogado para escanteio.
Pior, no entanto, do que aconteceu com Rubinho que teve a árdua missão de substituir Ayrton Senna como o piloto brasileiro na Fórmula 1, é carregar um sobrenome campeão na categoria.
Nelsinho Piquet é nosso exemplo mais recente. Nosso Macunaíma às avessas (leia mais, aqui). Chegou à Fórmula 1 carregando uma dose inebriante de saudosismo. O mesmo nome e o sobrenome do vitorioso pai. Deu no que deu: em nada! (Que o futuro queime a ponta de meus dedos...).
Entre 1991 e 1994, Christian Fittipaldi, sobrinho do bi-campeão da Fórmula 1, Emerson Fittipaldi, correu pelas equipes Minard e Arrows. Com um desempenho medíocre, Christian conseguiu como melhores resultados um sexto lugar e duas quartas colocações.
Agora é outro sobrinho que aparece para a Fórmula 1: Bruno Senna, contratado pela estreante Campos (segundo a revista alemã Motorsport Magazin e o site globoesporte.com). Seu tio, todos sabem, é Ayrton Senna (que se recusou a dar um autógrafo para o então garotinho Felipe Massa, aos oito anos, quando corria de kart).
O problema todo não está no talento ou na personalidade do piloto de 26 anos que vai debutar na Fórmula 1. Para ele, o sobrenome pode até não pesar sobre os ombros, mas para os fãs de automobilismo, até semelhanças físicas entre Bruno e Ayrton serão procuradas à exaustão.
Sou saudosista e confesso ter vibrado com esta notícia. Embora a porta pela qual Bruno Senna vai entrar na Fórmula não seja lá das melhores. A questão, no entanto, é ver como vai se comportar Galvão Bueno e sua trupe na lavagem cerebral que fazem aos milhões de brasileiros nos domingos de corridas pela tv.
Se os globais criarem expectativas em demasia, Bruno Senna não suporta três temporadas na Fórmula 1. Se jogarem limpo, se lembrarem que sobrenome não significa nada, Bruno Senna pode sim ser brindado com um futuro brilhante.
Talento pode até ser hereditário, mas sorte, trabalho duro e oportunidades, não. Ademais, a Fórmula 1 não é mais a mesma dos tempos de Ayrton Senna (três pontinhos).
Em 2006, quando ainda fazia parte da redação do Jornal O Esporte, quase fui esquartejado em praça pública. Tudo porque questionei se Felipe Massa, recém contratado como piloto titular da escuderia Ferrari, seria o novo Rubens Barrichello. Escapei ileso daquela, eis de escapar são e salvo desta também.
Para deixar bem claro, não comparava o talento de um com o talento de outro. Muito menos a personalidade de Massa e Barrichello. Massa estreou na Sauber em 2002, no ano seguinte foi piloto de testes da Ferrari. Em 2004 e 2005 voltou para a Sauber, até que, finalmente em 2006 assumiu a titularidade na equipe italiana.
A expectativa criada em torno da possibilidade de finalmente o Brasil poder ter novamente um campeão mundial de Fórmula 1 deixou a todos eufóricos. Talvez por isso, eu, ao dar ouvidos ao ácido tio Bartolomeu, corri um sério risco de ser linchado no meio da rua.
Passaram-se três anos e até agora o título não veio. A Rede Globo segue nos fazendo crer que ele vira. Mas, amigos, espero que esteja errado, tudo indica de que minha profecia pode tornar-se verdadeira e irreversível. Com Fernando Alonso na Ferrari e o Banco Santander patrocinando a escuderia da velha bota, Massa tem tudo para ser jogado para escanteio.
Pior, no entanto, do que aconteceu com Rubinho que teve a árdua missão de substituir Ayrton Senna como o piloto brasileiro na Fórmula 1, é carregar um sobrenome campeão na categoria.
Nelsinho Piquet é nosso exemplo mais recente. Nosso Macunaíma às avessas (leia mais, aqui). Chegou à Fórmula 1 carregando uma dose inebriante de saudosismo. O mesmo nome e o sobrenome do vitorioso pai. Deu no que deu: em nada! (Que o futuro queime a ponta de meus dedos...).
Entre 1991 e 1994, Christian Fittipaldi, sobrinho do bi-campeão da Fórmula 1, Emerson Fittipaldi, correu pelas equipes Minard e Arrows. Com um desempenho medíocre, Christian conseguiu como melhores resultados um sexto lugar e duas quartas colocações.
Agora é outro sobrinho que aparece para a Fórmula 1: Bruno Senna, contratado pela estreante Campos (segundo a revista alemã Motorsport Magazin e o site globoesporte.com). Seu tio, todos sabem, é Ayrton Senna (que se recusou a dar um autógrafo para o então garotinho Felipe Massa, aos oito anos, quando corria de kart).
O problema todo não está no talento ou na personalidade do piloto de 26 anos que vai debutar na Fórmula 1. Para ele, o sobrenome pode até não pesar sobre os ombros, mas para os fãs de automobilismo, até semelhanças físicas entre Bruno e Ayrton serão procuradas à exaustão.
Sou saudosista e confesso ter vibrado com esta notícia. Embora a porta pela qual Bruno Senna vai entrar na Fórmula não seja lá das melhores. A questão, no entanto, é ver como vai se comportar Galvão Bueno e sua trupe na lavagem cerebral que fazem aos milhões de brasileiros nos domingos de corridas pela tv.
Se os globais criarem expectativas em demasia, Bruno Senna não suporta três temporadas na Fórmula 1. Se jogarem limpo, se lembrarem que sobrenome não significa nada, Bruno Senna pode sim ser brindado com um futuro brilhante.
Talento pode até ser hereditário, mas sorte, trabalho duro e oportunidades, não. Ademais, a Fórmula 1 não é mais a mesma dos tempos de Ayrton Senna (três pontinhos).
terça-feira, outubro 20, 2009
Nelsinho Piquet é Macunaíma às avessas
*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel
Durante o final de semana do Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1 deste ano, Nelsinho Piquet participava de um torneio de kart em Mônaco. Nem por isso a torcida brasileira presente em Interlagos esqueceu do ex-piloto da Renault que confessou ter batido propositalmente durante a corrida de Cingapura, em 2008, para beneficiar seu então companheiro de equipe, Fernando Alonso.
— Nelsinho, “fiado”! Nelsinho, “fiado”! – era o adjetivo mais usado pela turba ignara a cada vez que um torcedor desfilava com um boné ou camiseta da Renault ou a rádio ambiente no circuito mencionava o nome de Nelsinho.
Como justiceiros sedentos por vingança, os brasileiros bradam aos quatro cantos, ensurdecedores gritos por honra, caráter e honestidade. De uma hora para outra, este mesmo povo que ultrapassa pela direita, fala no celular enquanto dirige, guia seu veículo embriagado, joga lixo pela janela do automóvel, suborna quem aceita seu suborno, fuma aonde não deveria fumar, estaciona aonde não deveria estacionar e procura meios de burlar as leis, as normas e as regras, arvorou-se em defensor da ética e dos bons costumes.
Longe de mim querer defender Nelsinho Piquet, mas muitos daqueles que “elogiavam” o piloto, na noite anterior se esbaldaram em boates longe dos olhos das esposas e dos filhos.
Superficialmente dá a impressão nítida de que o brasileiro mudou e não tolera mais deslealdade nem desvios de conduta. Ledo engano. E se Nelsinho Piquet, ao bater propositadamente em Cingapura, tivesse, mesmo que sem querer, beneficiado Felipe Massa, qual seria o comportamento do torcedor brasileiro?
Um banho de mar gratuito na praia de sua preferência se acertar!
Nelsinho Piquet seria homenageado efusivamente em Interlagos. Não faltariam faixas bem humoradas para agradecer o anti-herói tupiniquim. O brasileiro em matéria de caráter ainda é muito centrado no que diz respeito ao bem de seu próprio umbigo e nada mais. Pode até ser solidário na hora da desgraça, mas é capaz de qualquer jeitinho para se dar bem.
Não precisemos dar muitas voltas em um bólido de Fórmula 1 para encontrar um exemplo da clara aplicação da Lei de Gerson nesta que é a categoria do automobilismo preferida dos brasileiros. Alguém, por um acaso, ao reclamar que Rubinho Barrichello entregou várias vitórias no colo do companheiro Michael Schumacher cita o prejuízo causado aos adversários diretos do alemão na peleja pelo título do mundial de pilotos? Não. O brasileiro reclama, sim, porque não foi Rubinho o beneficiado.
Durante o final de semana do Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1 deste ano, Nelsinho Piquet participava de um torneio de kart em Mônaco. Nem por isso a torcida brasileira presente em Interlagos esqueceu do ex-piloto da Renault que confessou ter batido propositalmente durante a corrida de Cingapura, em 2008, para beneficiar seu então companheiro de equipe, Fernando Alonso.
— Nelsinho, “fiado”! Nelsinho, “fiado”! – era o adjetivo mais usado pela turba ignara a cada vez que um torcedor desfilava com um boné ou camiseta da Renault ou a rádio ambiente no circuito mencionava o nome de Nelsinho.
Como justiceiros sedentos por vingança, os brasileiros bradam aos quatro cantos, ensurdecedores gritos por honra, caráter e honestidade. De uma hora para outra, este mesmo povo que ultrapassa pela direita, fala no celular enquanto dirige, guia seu veículo embriagado, joga lixo pela janela do automóvel, suborna quem aceita seu suborno, fuma aonde não deveria fumar, estaciona aonde não deveria estacionar e procura meios de burlar as leis, as normas e as regras, arvorou-se em defensor da ética e dos bons costumes.
Longe de mim querer defender Nelsinho Piquet, mas muitos daqueles que “elogiavam” o piloto, na noite anterior se esbaldaram em boates longe dos olhos das esposas e dos filhos.
Superficialmente dá a impressão nítida de que o brasileiro mudou e não tolera mais deslealdade nem desvios de conduta. Ledo engano. E se Nelsinho Piquet, ao bater propositadamente em Cingapura, tivesse, mesmo que sem querer, beneficiado Felipe Massa, qual seria o comportamento do torcedor brasileiro?
Um banho de mar gratuito na praia de sua preferência se acertar!
Nelsinho Piquet seria homenageado efusivamente em Interlagos. Não faltariam faixas bem humoradas para agradecer o anti-herói tupiniquim. O brasileiro em matéria de caráter ainda é muito centrado no que diz respeito ao bem de seu próprio umbigo e nada mais. Pode até ser solidário na hora da desgraça, mas é capaz de qualquer jeitinho para se dar bem.
Não precisemos dar muitas voltas em um bólido de Fórmula 1 para encontrar um exemplo da clara aplicação da Lei de Gerson nesta que é a categoria do automobilismo preferida dos brasileiros. Alguém, por um acaso, ao reclamar que Rubinho Barrichello entregou várias vitórias no colo do companheiro Michael Schumacher cita o prejuízo causado aos adversários diretos do alemão na peleja pelo título do mundial de pilotos? Não. O brasileiro reclama, sim, porque não foi Rubinho o beneficiado.
quarta-feira, setembro 23, 2009
E a ultrapassagem de Hamilton na última curva?
*Eduardo Daniel | www.twitter.com/eduardosdaniel
Tudo parecia perdido em Interlagos no dia dois de novembro de 2008, até que uma multidão tomada de esperanças transformou o que era um mar vermelho de bonés e camisas da Ferrari, em uma imensidão branca composta por capas de chuva, fazendo um apelo por uma ajuda dos céus, que exibia nuvens e trovões. E a ajuda veio, quatro voltas depois, a seis do final do Grande Prêmio Brasil, a última prova da temporada.
Quando a chuva caiu forte, as chances de que algo surpreendente acontecer na última corrida do ano e, o título ficasse com o brasileiro Felipe Massa, levantou os milhares de amantes do automobilismo das arquibancadas. O que se viu a partir daí foi uma das maiores emoções vividas por todos os presentes no autódromo José Carlos Pace.
O que a televisão mostrou, todo mundo viu. O que se passou debaixo daquela chuva com sabor de esperança, só quem estava lá sentiu.
As ameaças de Sebastian Vettel ao quarto colocado Lewis Hamilton provocaram um verdadeiro clamor ao possível herói nacional encarnado no jovem e promissor alemão. Massa precisava vencer e o inglês da McLaren terminar ao menos em quinto. E a torcida surtiu efeito.
Atônitos, gritávamos todos sem emitir palavras inteligíveis. Faltavam três voltas para o final quando Vettel deixou Hamilton para trás e a perseguição do inglês virou implacável curva a curva. Ninguém mais estava calado. Ninguém estava sentado. Almofadas e bonés voavam pelos ares.
Poucos, no entanto, notaram que no caminho estava Timo Glock. Outro alemão. Um o herói. O outro, o vilão da história.
Eu com o rádio grudado no ouvido direito, o volume no máximo. Uma volta para o final. A cada metro o título de Massa se aproximava. Do setor A, com uma visão da entrada da reta de chegada vimos o ferrarista passar rumo à vitória.
No telão, a imagem de jubilo nos boxes da Ferrari era paradoxal ao que ouvíamos no rádio, de que Hamilton havia ultrapassado. Acreditávamos que era Vettel de quem falavam. Vettel passou por nós à frente de Hamilton e tínhamos certeza de que erraram no rádio. O delírio era contido pela dúvida apavorante. A notícia veio tão rápido quanto curta foi a sensação de termos de novo um campeão de Fórmula 1.
Se à frente dos televisores Brasil à fora, aconteceu choro, lá, em Interlagos, tudo ficou engasgado. O estado era de choque. Não teve palavra trocada com ninguém. Cada um catou suas coisas e avançou em direção aos portões. Nem os hinos brasileiro e italiano consolaram a multidão silenciosa que seguiu aos seus destinos debaixo de uma chuva que caiu ainda mais forte no final da corrida.
A corrida foi surreal. Coisa de filme. Quem lá esteve está irmanado com os “sobreviventes” do Maracanaço. Quem viveu pessoalmente o momento daquele domingo, conseguiu descobrir o que querem dizer aquelas testemunhas do silêncio de 1950. Foi emocionante. Foi triste. Temos agora dois heróis: Vettel e Massa, mas um Ghiggia, encarnado em Glock e Hamilton.
Nunca vi, falando daquela Seleção de 50, um vilão em Barbosa, o goleiro que morreu sem ser perdoado pelo Brasil. Prefiro sempre acreditar também que quando um árbitro erra em uma partida de futebol, não é por maldade, mas por falha da qual nós, os humanos, estamos constantemente à mercê.
Não suporto opiniões do tipo: “se o juiz desse aquele pênalti pro Santo André o São Paulo ia perder o jogo”. Discordo. O empate naquele momento poderia provocar uma reação no Tricolor Paulista para aplicar quatro, cinco gols.
Glock de fato não trocou seus pneus. Aquela corrida teve de tudo. Sol, chuva, tempestade, sol de novo e chuva de novo. Por não parar quando todos pararam há poucas voltas do fim, Glock se posicionou no pelotão da frente. Olhando do lado de fora é difícil imaginar que o piloto não pôde segurar mais uma curva ao menos e na reta pisar fundo sem problemas com os pneus inadequados.
Não posso acreditar que um piloto de outra equipe teria permitido uma ultrapassagem desleal para entregar a um terceiro o título mundial na bandeja, mas, depois de tudo o que aconteceu com o caso Renault, Nelsinho Piquet, Flavio Briatore, Fernando Alonso e companhia no GP de Cingapura do ano passado, uma apuradinha naqueles instantes finais da corrida em São Paulo não seria má idéia...
Tudo parecia perdido em Interlagos no dia dois de novembro de 2008, até que uma multidão tomada de esperanças transformou o que era um mar vermelho de bonés e camisas da Ferrari, em uma imensidão branca composta por capas de chuva, fazendo um apelo por uma ajuda dos céus, que exibia nuvens e trovões. E a ajuda veio, quatro voltas depois, a seis do final do Grande Prêmio Brasil, a última prova da temporada.
Quando a chuva caiu forte, as chances de que algo surpreendente acontecer na última corrida do ano e, o título ficasse com o brasileiro Felipe Massa, levantou os milhares de amantes do automobilismo das arquibancadas. O que se viu a partir daí foi uma das maiores emoções vividas por todos os presentes no autódromo José Carlos Pace.
O que a televisão mostrou, todo mundo viu. O que se passou debaixo daquela chuva com sabor de esperança, só quem estava lá sentiu.
As ameaças de Sebastian Vettel ao quarto colocado Lewis Hamilton provocaram um verdadeiro clamor ao possível herói nacional encarnado no jovem e promissor alemão. Massa precisava vencer e o inglês da McLaren terminar ao menos em quinto. E a torcida surtiu efeito.
Atônitos, gritávamos todos sem emitir palavras inteligíveis. Faltavam três voltas para o final quando Vettel deixou Hamilton para trás e a perseguição do inglês virou implacável curva a curva. Ninguém mais estava calado. Ninguém estava sentado. Almofadas e bonés voavam pelos ares.
Poucos, no entanto, notaram que no caminho estava Timo Glock. Outro alemão. Um o herói. O outro, o vilão da história.
Eu com o rádio grudado no ouvido direito, o volume no máximo. Uma volta para o final. A cada metro o título de Massa se aproximava. Do setor A, com uma visão da entrada da reta de chegada vimos o ferrarista passar rumo à vitória.
No telão, a imagem de jubilo nos boxes da Ferrari era paradoxal ao que ouvíamos no rádio, de que Hamilton havia ultrapassado. Acreditávamos que era Vettel de quem falavam. Vettel passou por nós à frente de Hamilton e tínhamos certeza de que erraram no rádio. O delírio era contido pela dúvida apavorante. A notícia veio tão rápido quanto curta foi a sensação de termos de novo um campeão de Fórmula 1.
Se à frente dos televisores Brasil à fora, aconteceu choro, lá, em Interlagos, tudo ficou engasgado. O estado era de choque. Não teve palavra trocada com ninguém. Cada um catou suas coisas e avançou em direção aos portões. Nem os hinos brasileiro e italiano consolaram a multidão silenciosa que seguiu aos seus destinos debaixo de uma chuva que caiu ainda mais forte no final da corrida.
A corrida foi surreal. Coisa de filme. Quem lá esteve está irmanado com os “sobreviventes” do Maracanaço. Quem viveu pessoalmente o momento daquele domingo, conseguiu descobrir o que querem dizer aquelas testemunhas do silêncio de 1950. Foi emocionante. Foi triste. Temos agora dois heróis: Vettel e Massa, mas um Ghiggia, encarnado em Glock e Hamilton.
Nunca vi, falando daquela Seleção de 50, um vilão em Barbosa, o goleiro que morreu sem ser perdoado pelo Brasil. Prefiro sempre acreditar também que quando um árbitro erra em uma partida de futebol, não é por maldade, mas por falha da qual nós, os humanos, estamos constantemente à mercê.
Não suporto opiniões do tipo: “se o juiz desse aquele pênalti pro Santo André o São Paulo ia perder o jogo”. Discordo. O empate naquele momento poderia provocar uma reação no Tricolor Paulista para aplicar quatro, cinco gols.
Glock de fato não trocou seus pneus. Aquela corrida teve de tudo. Sol, chuva, tempestade, sol de novo e chuva de novo. Por não parar quando todos pararam há poucas voltas do fim, Glock se posicionou no pelotão da frente. Olhando do lado de fora é difícil imaginar que o piloto não pôde segurar mais uma curva ao menos e na reta pisar fundo sem problemas com os pneus inadequados.
Não posso acreditar que um piloto de outra equipe teria permitido uma ultrapassagem desleal para entregar a um terceiro o título mundial na bandeja, mas, depois de tudo o que aconteceu com o caso Renault, Nelsinho Piquet, Flavio Briatore, Fernando Alonso e companhia no GP de Cingapura do ano passado, uma apuradinha naqueles instantes finais da corrida em São Paulo não seria má idéia...
Assinar:
Postagens (Atom)
